EDUCAÇÃO SUPERIOR
O sim
e o não das cotas
Por Jacira Cabral da Silveira

partir
do próximo vestibular, a Ufrgs oferecerá 30% das
vagas de cada curso de graduação a alunos egressos
do sistema público de Ensino Fundamental e Médio,
deste percentual, 50% serão destinados a estudantes autodeclarados
negros. Enquanto a Câmara de Deputados hesita votar o projeto
de lei que institui reservas de vagas ou cotas nas Instituições
Federais de Ensino Superior (Ifes), já são 17 das
57 que adotaram cotas em seu vestibular. Essa definição,
entretanto, não tem sido tranqüila, gerando debate
acirrado de movimentos pró e contra cotas.
Entre os argumentos que sustentam as duas posições,
o professor do Programa de Pós-graduação em
Ciências Políticas da Ufrgs, André Marenco,
destaca e avalia aquelas que considera mais emblemáticas
e polêmicas e que não se limitam ao debate ocorrido
na Universidade Federal do Estado. Primeiro, o professor cita a
questão da justiça distributiva que agrega a escolarização à renda.
Segundo ele, o salário de uma pessoa que estuda durante
um ano no Brasil cresce, em média, 18%. Esse percentual
passa para 750% para aqueles que concluem o Ensino Superior. Ou
seja, o diploma representa a oportunidade de renda, mobilidade
social e ascensão profissional.
Por outro lado, Marenco chama a atenção para os dados
do mercado de trabalho, que acrescentam novos elementos à análise
do argumento que associa escolaridade à renda. De acordo
com esses dados, o salário de homens brancos com a mesma
escolaridade de homens negros chega a ser 50% maior; e, o que é mais
grave, os indivíduos brancos de nível superior ganham
até 113% a mais que os indivíduos negros graduados. “Para
haver esta justiça distributiva, defendida pelos pró-cotas,
será necessário serem criadas condições
de igualdade mais abrangentes”.
Neste sentido, ele recorda a justificativa do princípio
do mérito, defendida pelos que são contra cotas.
Na avaliação do professor, não deu certo este
princípio, implantado no Brasil na tentativa de coibir privilégios
de laços de família ou o poder econômico como
forma de ingresso em diferentes segmentos do setor público. “Só consegue
entrar na universidade pública aqueles que estudaram em
escolas privadas e fizeram cursinhos pré-vestibulares”.
Para Marenco, se, por um lado, essa realidade deflagra os privilégios
de quem pode estudar em uma escola privada, por outro, denuncia
a má qualidade de ensino oferecido na rede pública
nacional. Embora este seja um argumento daqueles contrários às
cotas, o professor considera que a qualificação do
Ensino Fundamental e Médio na esfera pública e o
sistema de cotas não são medidas excludentes, mas
complementares.
Segundo o cientista político, as cotas não vêm
cumprir uma dívida histórica, mas se constituem em
uma medida emergencial para solucionar, agora, a falta de perspectiva
para jovens brasileiros pobres e negros. “Estes não
podem esperar 15 anos até que um provável sistema
de ensino de qualidade comece a apresentar resultados”.
| Foto:
René Cabrales |
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Negros
e pobres não podem esperar
15 anos por eventuais mudanças |
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