PETER GREENAWAY
Um cineasta
rarefeito
Peter Greenaway sempre preferiu sentar na cadeira G17 das antigas
salas de cinema, porque diz ser dali que os cineastas criam todas
as suas cenas. Mas, com as novas tecnologias, ele mudou de assento
e agora pensa a reinvenção da sétima arte
a partir da poltrona daquele sujeito comum que abandonou as salas
de um cinema que já morreu. “Dia 31 de setembro de
1983 é a data da morte do cinema, porque foi quando o zapeador
do con-trole remoto passou a ser uma presença na sala de
estar das pessoas.” Considerado um dos maiores realizadores
de cinema da atualidade, Greenaway nasceu em 1942, em Newport,
no País de Gales, e hoje mora em Amsterdã. Sua filmografia
conta com 54 títulos. No Brasil, é mais conhecido
por O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante (1989),
Afogando em números (1988) e Livro de cabeceira (1996).
No início de julho ele esteve em Porto Alegre participando
do evento Fronteiras do Pensa-mento/Copesul Cultural e promete
voltar até o final do ano ao Brasil para o 16o Festival
de Arte Eletrônica Sesc Video-Brasil, em São Paulo.
Na seqüência, o Extra Classe transcreve a conversa do
cineasta com jornalistas na Sala 2 do Salão de Atos da Ufrgs,
quando fez questão de comentar que realizará seu
próximo filme no Brasil: “Ano que vem, vamos realizar
uma pornografia em São Paulo”.
Por Jacira Cabral
Extra Classe – As pessoas continuam indo ao cinema com a
mesma freqüência?
Peter Greenaway – Estou convicto, por uma série de
razões sociais, econômicas e culturais, que o cinema
está em uma fase de declínio. Nas décadas
de 40 e 50, a gente podia considerá-lo a forma definitiva
de entretenimento do proletariado. Vamos esquecer aquele cinema
com pretensões intelectuais. O cinema que nós temos
hoje em dia se limita a ser uma forma de entretenimento despejada
sobre o proletariado. Hollywood, hoje em dia, trabalha a partir
deste pressuposto. Nós, agora, estamos no século
21 e há toda uma série de alternativas baratas relacionadas
ao cinema. Poderíamos tranqüilamente fazer uma lista
de alternativas, e todas elas seriam bem mais viáveis em
termos de entretenimento, em termos de fascinação,
do que em termos de cinema.
O senhor pode exemplificar algumas destas
alternativas?
Greenaway – Ano passado, Hollywood fez uma estimativa e
apresentou alguns dados que mostram que 70% do público
assiste os longas-metragens na televisão. Outros 20% assiste
aos longas-metragens, produzidos por Holly-wood anteriormente,
em DVD. E apenas 5% do total dos freqüenta-dores de cinema
assistiu aos longas-metragens de Hollywood nestes estranhos prédios
chamados cinema. E não são cifras inventadas por
algum inimigo do cinema, mas apresentadas pelo centro do cinema, é a
própria Hollywood que mostra que a fenomenologia clássica
do cinema está desaparecendo.
O que tem causado esta debandada
das salas de cinema?
Greenaway – Existem situações sociais, econômicas
e políticas, mas eu sou um cineasta do tipo meio rarefeito
e preciso argumentar com base em razões estéticas.
Acho que o cinema, como meio de comunicação de
idéias, foi à falência. O cinema contemporâneo é tedioso
e irrelevante. Acho que todos os estilos, os paradigmas tradicionais,
tornaram-se totalmente previsíveis. Se hoje você vai
ao cinema, se é que vai, após 10 minutos você sabe
o que vai acontecer, como vai acontecer, e assim por diante.
O cinema se tornou totalmente previsível.
O senhor tem
falado que esta falência tem uma data-estopim.
Greenaway – Dia 31 de setembro de 1983 é a
data da morte do cinema, porque esta foi a data que, segundo
a historiografia,
o zapeador do controle remoto foi introduzido no cenário
social e passou a ser uma presença na sala de estar das
pessoas. O público-alvo primordial de Hollywood são
homens jovens, na idade de 16 a 25 anos, mas podemos ampliar
esta faixa etária e dizer que a maior parte da produção
cinematográfica hoje em dia está direcionada para
um público jovem, entre 13 e 30 anos. É o conhecido
fenômeno da geração laptop, é toda
uma geração de pessoas que já nasceram familiarizadas
com a tecnologia digital. E este grupo está muito familiarizado
com o fenômeno da interatividade e por isso estranha um
fenômeno como o cinema onde o mundo está na sua
frente. Você está numa sala escura e assiste as
coisas passarem, e fica sentado durante 2 horas sem se mexer.
E a menos que sejamos absolutamente nostálgicos e saudosistas,
este mundo do cinema clássico desapareceu, acabou.
Esta
talvez seja uma tarefa para a vanguarda.
Greenaway – John Lennon disse que esta palavra vanguarda é um
termo francês para a gente designar merda. Acho que o conceito
de vanguarda é bastante desprezível, porque a vanguarda
encontra-se apenas um centímetro à frente da burguesia.
E essa é a posição que lhes cabe, porque
eles têm justamente a permissão ou a licença
de se colocar nesta posição: um centímetro à frente
da burguesia. De certa forma, a vanguarda tem a licença
de exercer este papel de mexer um pouco com a burguesia e causar
um pouco de excitação, de titilação,
para que eles não se sintam tão culpados por serem
pessoas tão antiquadas. Não precisamos de vanguarda
nenhuma. O que precisamos é de uma reinvenção
radical do cinema que nos permita colocar de lado todos aqueles
modelos de paradigmas de passado.
O que o novo espectador busca
no cinema?
Greenaway – Embora eu faça questão
de defender esta tese provocadora de que o cinema está morto,
eu também
defendo a idéia de que a cultura da tela como tal não
está morta. Eu não sei quais são as estatísticas
referentes ao Brasil, mas, em 1983, a maioria dos domicílios
na Europa tinha aparelho de televisão. Essas pessoas já sabiam,
naquela altura, o que era
interatividade através da tela. Devemos evitar aquela
noção antiga de uma tela de cinema situada num
prédio e que tenta se comunicar com uma multidão
de estranhos sentados numa sala escura. Embora isso tenha passado,
a tela em si vai continuar. Embora as telas tenham abandonado
os prédios tradicionais de cinema, elas mudaram, por assim
dizer, para uma série de ambientes diferentes: para os
shoppings, para os aviões, para as casas. A maioria das
pessoas tem telefone celular e relógio de pulso, e estas
serão as telas do futuro.
E quanto ao conteúdo e à linguagem que eram
veiculados através da forma tradicional do cinema, o
que acontece com eles?
Greenaway – Isso vai continuar, por um lado, essas novas
formas de comunicação vão continuar baseadas
no interesse e na formação de telespectadores;
por outro lado, no propósito e na visão do cineasta
e dos produtores. O que vão mudar radicalmente são
os meios tecnológicos em que isto tudo vai acontecer.
Mas cuidado, porque existem dragões escondidos atrás
de cada porta. Como você reagiria à seguinte afirmação:
diriam os franceses que não existe mais conteúdo,
apenas linguagem, e a implicação dessa afirmação é que,
na verdade, a própria linguagem se tornou conteúdo.
Como vamos lidar com isto? Há muitos anos Marshall McLuhan
propôs que o meio é a mensagem. A forma como recebemos
a informação está intimamente associada,
ou dependente, à própria comunicação, à própria
mensagem.
Como o cinema deve ser no futuro?
Greenaway – Foram as novas tecnologias que me levaram
a perceber a possibilidade de que ainda havia vida naquela
velha mídia chamada cinema. Se o cinema começou
há 112 anos, se nós aceitamos 1895 como a data
do seu início. Existe a percepção de que
o ponto de exaustão foi atingido. O que eu gostaria
de ver é um cinema que seja uma mídia autônoma,
um cinema para o cinema. Dizia-se na década de 20 que
ele era uma combinação de teatro e literatura
e pintura. E todos nós sabemos que existe uma quantidade
enorme de literatura no cinema, uma enorme quantidade de teatro,
mas muito pouca pintura. Podemos dar um desconto para os espectadores
da década de 20, quando o cinema estava em busca do
seu próprio vocabulário. Mas hoje em dia podemos
desconstruir qualquer filme e reconduzi-lo aos elementos de
literatura, de teatro, que estão por trás deles,
por vezes um pouco de pintura, mas não há um
vocabulário autônomo do cinema. Fazendo uma analogia
com os estudos das ciências naturais, uma espécie
só se torna uma espécie quando não pode “foder” com
ninguém mais para poder produzir a sua própria
cria. E acho que o cinema não pode ser dominado por
uma espécie à parte, uma espécie separada,
porque ele representa um fenômeno paralelo.
Por que o senhor afirma que existe muito pouca pintura no
cinema tradicional?
Greenaway – Nós na verdade não temos um
cinema baseado na imagem, o que temos é um cinema baseado
em texto. Quer você se chame Godard, Scorsese, Spielberg
ou Almodóvar, o cinema está sempre buscando a
livraria, ele volta sempre para a livraria. Não são
livros, mas são livros ilustrados. Estou muito pessimista
a respeito da situação atual do cinema, mas estou
extremamente otimista com aquilo que virá depois dessa
crise. Devemos ser caridosos, e acredito que sou extremamente
caridoso, mas acho que a última ocasião de uma época
em que houve pessoas que tentaram fazer o cinema baseado em
imagem, um cinema mais radical, foram os alemães, na
década de 70. Foi naquela geração e naquele
contexto que surgiu uma tentativa mais ou menos radical de
produzir uma cinematografia baseada em imagens, que tomava
o seu ponto de partida nas imagens. O que nós vemos
depois disso tem a ver, em parte, com advento e a admiração
da televisão. As pessoas requentavam, por assim dizer,
aquela antiga e clássica tradição de Hollywood.
Como
chegar a uma nova linguagem cinematográfica?
Greenaway – Gostaria de propor duas citações.
Picasso e Eisenstein foram os dois maiores visualistas do século
20. Picasso disse que não pintava o que via e sim o
que pensava. Eisenstein – talvez o único que mereça
ser chamado de cineasta e ser colocado ao lado de nomes como
Shakespeare – fez uma vez uma viagem ao México
e, quando passou pela Califórnia, teve um encontro com
Walt Disney. Surpreendentemente, Eisenstein, o maior cineasta
de todos os tempos, disse que Walt Disney era o único
verdadeiro cineasta, porque estava fazendo aquilo que todo
cineasta devia fazer: produzir cinema a partir da chamada linha
zero. A ligação entre essas duas citações é a
criação de um cinema que parte da criação
de um mundo da imaginação através de imagens,
baseado em imagens, que parte da chamada linha zero. Esta é a
oportunidade que temos dentro de nós, usando as novas
tecnologias à nossa disposição. Sendo
caridoso, o que nós tivemos até agora nesses
112 anos da história oficial do cinema foi apenas um
prólogo ao cinema. Apesar de todo o estilo provocador
de todas as minhas afirmações, o que eu pretendo é uma
forma de cinema e uma forma de arte sofisticada que envolva
todos os sentidos do espectador, oferecendo a eles uma comunicação
inteligente, que se comunique e com a qual seja possível
se comunicar.
Sexo e morte são temas recorrentes em sua
obra.
Greenaway – Eu sempre afirmei que, na verdade, só existem
dois assuntos, dois temas, um é o sexo e o outro é a
morte. Existe algum outro assunto sobre o qual se possa falar?
Houve quem dissesse que existe, que é o dinheiro, só que
o dinheiro pode ser facilmente subsumido em um dos dois, na
morte ou para pagar o outro assunto interessante. Na verdade
o dinheiro acaba sendo irrelevante. Qualquer que seja a cultura
em que uma pessoa viva, ou que tenha vivido em termos históricos
e geográficos, quer seja um puritano ou metodista, estes
dois assuntos – a morte e o sexo – sempre mexeram
com as pessoas. Para botar um pouco mais de lenha na fogueira,
gostaria de falar que, no ano que vem, nós vamos realizar
uma pornografia em São Paulo. Essa produção
está baseada na vida e na obra de um escritor que viveu
no final do século 16, início do século
17. A pornografia produzida por este autor se baseava em texto
de livro e não na possibilidade de imagem que nós
temos hoje em dia. O início de qualquer mídia,
basta pensar no início do cinema, basta pensar no início
da fotografia, e certamente no início da Internet, sempre
implicou em grande quantidade de elementos eróticos
associados ao surgimento dessa nova mídia. Essa prevalência
do erotismo causa tal impacto que acaba impulsionando o desenvolvimento
das novas tecnologias e acaba fazendo parte integrante da psique
humana e da psique social.
Parece paradoxal o senhor dizer que
o cinema está morto
e, ao mesmo tempo, salientar a importância de olharmos
para produções antigas para fazermos o novo cinema.
Greenaway – Tem toda razão este tipo de paradoxo,
mas a memória é sempre essencial, ela tem a ver
com a história e esta, por sua vez, tem a ver com a
mitologia, porque a maioria das pessoas não aprende
história pelos livros de História e sim a partir
da mitologia. E mais, a recapitulação da história é simplesmente
imprescindível, como inevitável para qualquer
tipo de projeção para o futuro. A gente pode
tomar a ficção científica como exemplo.
Não é por acaso, nem poderia ser de outra forma,
que todas as produções de ficção
científica são profundamente enraizadas no passado.
E
já existe algum projeto seu que se ancore neste passado?
Greenaway – Estou planejando uma obra de ficção
científica com uma proposta bastante interessante que
vou descrever brevemente. “Existe uma interessante história
da tradição platônica, situada em Atenas,
do ano 100 antes de Cristo, que sugere que o ser humano, naquela época,
era hermafrodita e auto-suficiente. E esse ser humano hermafrodita
e auto-suficiente começou a ficar muito orgulhoso e
muito arrogante. Então, os deuses para castigá-lo
o dividiram ao meio, criando assim o homem e a mulher. O que
impedia o ser humano de continuar sendo arrogante, porque ele
tinha que gastar todo o seu tempo e toda a sua energia buscando
a sua outra metade. E este é o estado atual das coisas.
Prestem atenção, o ser humano está se
tornando arrogante de novo. Os deuses para punir essa arrogância
decidiram intervir e, mais uma vez, dividiram esses dois seres
em quatro, de forma que agora quatro seres precisam “foder” para
produzir um quinto. Se agora é difícil encontrar
uma outra metade, imaginem o que vai ser a dificuldade de encontrar
quatro pessoas que cheguem a um consenso. Essa é a proposta
básica do filme de ficção científica
que estou prestes a realizar, cujo título vai ser O
fruto quádruplo. Vocês hão de concordar
que eu ainda tenho algum futuro pela frente".