Arte
de Claudete Sieber sobre
foto de René Cabrales
Jovens
do interior paulista espancam um motorista de ônibus,
por causa de uma discussão banal de trânsito. Provável
rixa por drogas resulta na execução de um homem no
estacionamento interno de um grande shopping de Porto Alegre diante
da família. No Rio de Janeiro, garotos de classe média
espancam trabalhadora em ponto de ônibus ao confundirem-na
com uma prostituta. Torcedores de times futebol deixam rastros
de vandalismo, conflitos, quando não de morte, como em caso
ocorrido recentemente em cidade do interior do Rio Grande do Sul.
Já em Santa Catarina, assassinato e esquartejamento foi
o resultado de um desentendimento entre dois amigos adolescentes,
12 e 16 anos, em função de um jogo de computador.
Um detalhe, o mais jovem teve as pernas cerradas do corpo e pode
também ter sido vítima de estupro. As situações
acima são apenas os reflexos midiáticos de uma atmosfera
de violência em que está imersa a sociedade brasileira.
São a ponta de um iceberg, cuja base está em uma
nação que recentemente optou por manter seu direito às
armas de fogo, que usa automóveis de forma letal, como mostram
as estatísticas de trânsito, onde jovens são
vítimas e algozes de si mesmos, isso sem contar a violência
em família da qual são vítimas mulheres e
crianças. Trata-se de uma cultura que se manifesta em todos
os estratos sociais na forma de intolerância, preconceito
e agressões. Os casos citados fazem parte das estatísticas
e muitos estão associados à criminalidade, ao álcool
e a outras drogas – vale lembrar que crime e violência
apesar de andarem juntos, não são sinônimos –,
uma realidade difícil de ser mensurada, que está entranhada
no cotidiano dos brasileiros ditos de bem e se perpetua de forma
silenciosa e invisível.
Por José Antônio Silva
uma
esquina mal iluminada da cidade, a arma apontada contra a cabeça
de um trabalhador – que terá sorte se perder apenas
o dinheiro, o relógio e o celular – sem dúvida é um
exemplo clássico, e já corriqueiro, da violência
dos dias atuais. Mas nem de longe esse tipo de situação
dá conta da ampla gama de violências em que a sociedade
brasileira e gaúcha está imersa, e que em grande
parte dos casos é praticada pelos chamados “cidadãos
de bem”: a violência doméstica, os homicídios
provocados por divergências entre vizinhos, irresponsabilidade
no trânsito (quase sempre turbinada por bebidas alcoólicas)
e outras formas ainda menos evidentes de criminalidade. “Sem
dúvida pode-se dizer que vivemos hoje uma cultura de violência”,
garante a psicóloga Martha Narvaz, doutoranda pela Ufrgs
com tese sobre “Violência de gênero”, e
que diariamente atende casos de violência contra a mulher
e abuso sexual de meninas.
“A prática da violência não é privilégio
de classe social, raça ou etnia”, reforça a
psicóloga. Ela indica uma “violência invisível”,
menos fácil de detectar. “São violências
simbólicas – através da linguagem e da imagem”,
diz. “Através da repetição de piadas
e ditos populares discriminatórios, as pessoas vão
internalizando conceitos que podem levar à violência.
Dizer que ‘mulher tem que esquentar a barriga no fogão
e esfriar no tanque’ é um modo de naturalizar na cabeça
das pessoas a exploração feminina”, argumenta.
Mais: “Há um motivo para que se combatam propagandas
que associam a venda de cerveja com mulheres seminuas”, sustenta
Martha Narvaz. “Esse tipo de publicidade trata a mulher apenas
como um objeto de prazer a ser usufruído e consumido pelos
homens. Só isso já é uma forma de violência”.
Ainda no universo do “invisível”, ela cita os casos em que
o marido ou namorado proíbe a mulher de pintar as unhas de vermelho ou
usar determinada roupa. “E elas se submetem, pois no fundo acham que não
têm direito de decidir sobre seu corpo”. Um dos aspectos menos discutidos – tabu
na sociedade brasileira – é o abuso sexual de meninas dentro de
casa, muitas vezes pelo próprio pai. “A menina cala porque já introjetou
a noção de que deve servir ao homem, ainda mais com autoridade
paterna”.
Dados nacionais mostram que, a cada minuto, quatro mulheres são agredidas
e uma criança é abusada sexualmente no Brasil. Martha aponta para
avanços: a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006 pelo presidente Lula,
define o que é esta forma de violência, garante a proteção
da vítima e o afastamento do agressor, além de assistência
médica, psicológica, jurídica e social. Porém, a
estudiosa já tem uma certeza: “A grande proteção é a
da cultura, as mudanças nos atuais costumes da sociedade – e a educação
tem um grande papel a desempenhar nisso”.
Consumismo,
competitividade e intolerância
Outro aspecto da sociedade em que vivemos é o consumismo
e a competitividade exagerada – “as pessoas precisam
adaptar seu comportamento às regras do mercado”, diz
Martha Narvaz. “E a violência está implícita
nessas regras”. Os homens também são vítimas
desta circunstância – pelo estresse, desemprego, alcoolismo
e as doenças daí decorrentes.
Foto:
René Cabrales
Narvaz:
violência implícita nas regras sociais
O secretário de Segurança do Estado, delegado da
Polícia Federal José Francisco Mallmann, acredita
igualmente que “vivemos num mundo de extrema competitividade,
e isso terá que ser revisto pela sociedade”. Para
ele, “valores éticos e morais não estão
sendo evidenciados, e é preciso incutir nas crianças
esses valores”. Mallmann destaca o consumismo como um dos
fatores a aumentar a violência: “As pessoas não
se contentam mais com as coisas que atendem às suas necessidades,
querem buscar o supérfluo, e nessa busca desenfreada acabam
desvalorizando o que têm. Muitos acham que só serão
felizes quando adquirirem mais bens, mas esquecem de preencher
seus aspectos humanos e espirituais”.
Lei pela vida
No desafio de barrar o crescimento dos homicídios no estado,
Mallmann inspirou-se na experiência da paulista Diadema (395
mil habitantes) para propor a vários municípios gaúchos
mais violentos sua versão da “Lei Seca” (ou
Lei pela Vida) – com restrição de venda de
bebidas alcoólicas em determinados horários. Desde
2002, quando os bares de Diadema foram impedidos de funcionar após
as 23h, a taxa de homicídios, que era das mais elevadas
de São Paulo, caiu em 59%. “A medida derrubou não
só a estatística dos homicídios, mas de outros
crimes também”, diz o secretário. “Por
trás da ingestão de bebidas alcoólicas há todo
um rastro de destruição, como vandalismo, rixas,
brigas, violência contra filhos e mulher”, enumera
ele. “No trânsito, por exemplo, 78% dos acidentes com
mortes e lesões corporais ocorrem sob a influência
do álcool. Todo final de semana há pessoas morrendo,
principalmente nos fins de festa, nas madrugadas”.
Ilustrações
de Claudete Sieber sobre
foto de René Cabrales
Malmann:
82% dos homicídios acontecem
sob influência do álcool
O cenário é conhecido, mas como fazer com que a lei
seja obedecida em cada município? O secretário tem
a resposta: “A adoção de uma lei estadual pode
disciplinar por inteiro esta questão, com horários
sendo fixados de forma gradativa, a cada ano. Para que a fiscalização
possa ocorrer em todo o Rio Grande, basta um convênio com
a Brigada Militar”. Crítico do excesso de barreiras
policiais, argumenta que o trabalho será mais eficiente
se focado nos bares e similares. “Com essa lei, poderemos
garantir à população que vamos reduzir o número
de assassinatos nos finais de semana – hoje, 82% dos homicídios
acontecem sob influência do álcool”.
Trânsito
armado
Uma velha Kombi percorrendo as
madrugadas de Porto Alegre, com um condutor que despreza
as regras de trânsito e deixa atrás
de si uma trilha de problemas, é a melhor
tradução para o perigoso binômio álcool-direção.
O músico Marcelo Silva da Fonseca, 39 anos,
num período de 194 dias, ameaçou ao
menos duas vezes a vida alheia. Em 23 de dezembro
passado, às 6h30min, saindo de uma festa,
ele bateu em um Corsa no cruzamento de duas vias
movimentadas. Na manhã de 5 de julho último,
Fonseca repetiu a dose, jogando a Kombi contra um
Pálio, ferindo a motorista e fugindo. Só foi
apanhado pela polícia depois de subir em calçadas,
ignorar semáforos e ziguezaguear em avenidas – conforme
o jornal Zero Hora.
Após
ser ouvido pelo delegado de plantão
e pagar uma fiança, o cambaleante motorista
da Kombi foi para casa. Ao perceber que a morosidade
do inquérito policial e da tramitação
normal da Justiça poderia deixar Fonseca em
situação de continuar ameaçando
a integridade física da população
como motorista, o promotor de Justiça Ubaldo
Alexandre Licks Flores resolveu tomar alguma providência.
Atuando temporariamente na 9ª Vara Criminal,
decidiu consultar o Código de Trânsito
Nacional. “Dirigir embriagado é crime,
mas a perda definitiva da carteira depende de decisão
judicial. Mesmo assim, pode-se fazer uma apreensão
cautelar, através de liminar, por considerar
que o condutor coloca em risco a ordem pública”,
relata Flores.
Seu pedido foi aceito pelo juiz substituto da 2ª Vara
de Delitos de Trânsito da Capital, Luiz Renato
Alves da Silva. “A Kombi está apreendida”,
diz o promotor. Mas até o fechamento desta
edição, oficiais de justiça
ainda não haviam conseguido localizar o músico
para recolher sua habilitação. Para
Ubaldo Licks Flores, a repetição dos
delitos de trânsito fundamenta-se nas mesmas
carências que embalam os comportamentos criminais
de modo geral. “Há o sentimento de impunidade,
por problemas da polícia e da lentidão
da Justiça, e muitas vezes encontra-se o aspecto
das desigualdades sociais. Mas acredito que a primeira
impunidade acontece dentro de casa, com a consciência
de limites que muitos pais não sabem dar aos
filhos”, arremata.
Os ciclos
de violência na América Latina
A violência no Brasil – e na América Latina – obedece
a quatro ciclos. O primeiro foi deflagrado com a Descoberta do
continente e a conseqüente dizimação da população
indígena. O segundo, a violência entre facções
políticas – luta que utilizava o povo como “bucha
de canhão”, mas não representava os interesses
da maioria. O terceiro ciclo de violência foram os movimentos
revolucionários marxistas na segunda metade do século
20 (e as ditaduras de direita). E o ciclo atual é representado
pelo crime organizado na América Latina, a partir da consolidação
do mercado internacional de entorpecentes.
A tese é do sociólogo e professor Juan Fandino Marino,
da Ufrgs. Estudioso do tema da violência, concluindo o livro
Sobreviventes, bandidos e rebeldes – para uma sociologia
empírica da criminalidade na América Latina, esse
colombiano há 30 anos radicado no Brasil entende que a “cultura
da violência” é uma realidade. “Ela foi
criada pelo conflito e a desigualdade – não tanto
pela pobreza, mas pela distribuição desigual do capital
simbólico, formado pela cultura, pela sociedade e pela economia”.
Capital simbólico? O professor volta ao tema dos ciclos
de violência e explica que hoje o Brasil – e mais marcadamente
o Rio de Janeiro – vive a mesma situação que
teve seu auge na Colômbia, nos anos 80, aos tempos do chefão
do tráfico Pablo Escobar.
Foto:
René Cabrales
Marino:
cultura criada
pelo conflito
“Medellín naquela época chegava a registrar entre
250 e 300 assassinatos para cada 100 mil habitantes/ano, o que é um índice
brutal, de guerra”, explica. “Mas hoje você pode
andar descansadamente pela cidade, praticamente sem riscos. O número
de homicídios caiu para 25 em cada 100 mil pessoas”,
assegura. Mas ele lembra que essa nova realidade é resultado
de um processo longo, que requer investimentos pesados e muito
empenho dos governos.
Além do trabalho eficiente da polícia eliminando
focos de corrupção, e com aproveitamento racional
de efetivos policiais bem treinados, foi muito importante na solução
colombiana a aproximação da administração
municipal com as comunidades dos bairros e regiões de alta
criminalidade. “Os moradores desses lugares precisam sentir-se
parte da sociedade”, esclarece o professor. “É preciso
ter boas condições de infra-estrutura urbana, e também
serviços como justiça comunitária, de pequenas
causas, fornecimento de documentação... A Prefeitura
precisa valorizar os espaços públicos marginalizados:
uma praça em uma vila popular deve ter seus brinquedos e
equipamentos em boas condições, os canteiros aparados,
um guarda fazendo o policiamento. Tudo isso significa investir
no capital simbólico. Quer dizer, recuperar a cidadania
plena dos moradores”.
O
PAC da Segurança
A receita de superação
da extrema violência aplicada na Colômbia – que
para isso chegou a mexer na Constituição
do país em 1992 – lembra em vários
aspectos o Programa Nacional de Segurança
Pública com Cidadania (Pronasci), lançado
pelo Ministério da Justiça brasileiro
no último dia 9 de julho. Chamado de “PAC
da Segurança”, o projeto visa à reintegração
dos jovens marginalizados ou já envolvidos
com o crime organizado, mais e melhores presídios,
valorização das polícias e combate
mais qualificado à violência.
Quatro cidades gaúchas com níveis elevados
de criminalidade – Porto Alegre, Alvorada,
São Leopoldo e Novo Hamburgo – irão
receber verbas do programa. No total, serão
11 regiões metropolitanas beneficiadas, exatamente
as que exibem altas taxas de violência e extenso
número de jovens mortos, entre os 15 e os
29 anos de idade. Enquanto no Rio Grande do Sul a
taxa média de assassinatos é de 29,5
por 100 mil habitantes, no Brasil como um todo é um
pouco menor: 29,05 por 100 mil habitantes.
Para o secretário de Segurança gaúcho
José Francisco Mallmann, uma das medidas mais
importantes do Pronasci “é a valorização
profissional, com teto salarial nacional que fará com
que policiais civis, militares e agentes penitenciários
tenham uma maior motivação na sua lida
diária” (pelo projeto, será criado
um teto salarial bancado nos primeiros anos pelo
governo federal, entre R$ 1,2 mil e R$ 1,7 mil para
os PMs). Mallmann diz que sua Secretaria enviou 66
projetos ao Ministério da Justiça,
no valor de R$ 262 milhões, a serem aplicados
nos quatro anos de governo. “Isso nos dará uma
base, uma sustentação efetiva para
fazermos frente a crime”, assevera.
Para o envio de cartas,
sugestões e comentários
para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br
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Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul
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