Há um caldo de cultura perigoso formando-se no ambiente
político brasileiro. A crise aérea e a tragédia
de Congonhas atingiram em cheio o governo Lula, que não vem
conseguindo resolver os graves problemas que se materializaram nos
aeroportos brasileiros. A contaminação política
desses episódios era mais do que esperada. E vem crescendo
como uma bola de neve, despertando, inclusive, saudosos do regime
militar. Contribui para isso a crise de legitimidade que atinge
os parlamentos e os políticos de um modo geral. Na mídia, é visível
a elevação de tom nas críticas. No dia 24 de
julho, editoriais e colunistas de vários jornais do país
ilustraram esse fenômeno, falando em “colapso do lulismo”, “corriola
governamental” e incapacidade de governar o país. O
editorial do jornal O Estado de São Paulo falou em “governo
desacreditado” e “colapso do lulismo em matéria
de permitir, em última análise, que o país
funcione”. O Estadão referiu-se ainda ao presidente
da República como “o inexperiente Lula, o qual na irrefutável
constatação de Orestes Quércia, em 1994, nunca
dirigiu nem um carrinho de pipoca, antes de ambicionar o Planalto”.
Na mesma direção, o colunista Clóvis Rossi
perguntou na Folha de São Paulo: “se o país é incapaz
de segurar um avião na pista, vai segurar o quê?”.
O jornal O Globo, também em editorial, disse que “a
crise é mais profunda do que se quer fazer crer”. No
Globo, Dora Kramer afirmou que “à corriola governamental
tudo é permitido: agredir o público com grosseria,
com leviandade, com futilidades, com fugas patéticas ao cumprimento
dos deveres, com indiferença, vale qualquer coisa se a anarquia
tem origem nas hostes governistas”. “Corriola”,
em seu uso informal, significa “grupo de pessoas que agem
desonestamente ou de forma inescrupulosa; quadrilha”.
Saudades
da ditadura
e
o país está entregue a uma “corriola”,
como disse Dora Kramer, o que esperar? O juiz do Superior Tribunal
Militar (STM), Olympio Pereira da Silva Junior, sugeriu, durante
um discurso para alunos do Exército, Marinha e Aeronáutica,
um movimento cívico dos “homens de bem”, “similar
ao que ocorreu em um passado não muito longe”. Ele afirmou:
“O que podemos dizer a esses ilustres jovens militares.
Não
desistam. Os certos não devem mudar, e sim os errados. Podem
ter certeza de que milhares de pessoas estão do lado de vocês.
Um dia, não se sabe quando, mas com certeza esse dia já esteve
mais longe, as pessoas de bem desse País vão se pronunciar,
vão se apresentar, como já fizeram em um passado não
muito longe, e aí sim, as coisas vão mudar, o sol da
democracia e da Justiça brasileira vai voltar a brilhar”.
O ministro Olympio Junior criticou a situação política
do país e fez uma apologia da honra, da moral e do patriotismo,
lamentando que os jovens cadetes não poderão manusear
os instrumentos militares que conhecerão no treinamento:
“Aqueles jovens, ainda puros, não sabem que vão estudar
(e como vão estudar, durante toda a carreira) tudo sobre a
arte da guerra e do combate e vão conhecer e aprender tudo
sobre equipamentos e instrumentos militares, os mais modernos do
mundo, mas que na realidade nunca irão manusear porque, no
nosso País, não se acredita ser necessário a
compra de armamento/equipamento militar para ficarmos em igualdade
bélica a outras nações”.
Trata-se, obviamente, de uma afirmação isolada de um
ministro do STM. Mas não deixa de ser alarmante que uma autoridade
da República manifeste, em 2007, nostalgia do regime militar
e de suas práticas, sem ser contestado.
Ambiente
de radicalização
Em um artigo intitulado “Antes
de entrar num coro, olhe em volta”, Luis Fernando
Veríssimo escreveu: “(...)antes de participar
de um coro, veja quem estará do seu lado. No
Brasil do Lula, é grande a tentação
de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado
no coro poderá estar alguém que pensa
como você, que também acha que Lula ainda
não fez o que precisa fazer e que há muita
mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada.
Mas olhe os outros. Veja onde você está metido,
com quem está fazendo coro, de quem está sendo
cúmplice. A companhia do que há de mais
preconceituoso e reacionário no país
inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que
ele merece. Enfim: antes de entrar num coro, olhe em
volta”.
Foi chamado de “modelo de moralidade lulista” por
Diogo Mainardi, na revista Veja, e de “intelectual
de miolo mole” por Reinaldo Azevedo, também
da Veja. O país pode estar caminhando para um
clima de radicalização política
não visto há muito tempo. O festival
de especulações e produção
de hipóteses sobre as possíveis causas
do acidente com o avião da TAM em Congonhas é retro-alimentado
por essa radicalização. A inesgotável
dor e o sofrimento dos parentes, amigos e amigas das
vítimas viraram uma lamentável moeda
de troca neste processo. A transformação
da dor humana em espetáculo midiático
foi naturalizada e incluída na categoria de
interesse público.
Há quem ache que, no início do século
21, a política tornou-se algo irrelevante. A
crescente radicalização de ânimos
e de palavras no país e os interesses que a
alimentam parecem indicar o contrário.
Para o envio de cartas,
sugestões e comentários
para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br
- Extra Classe é uma publicação mensal do
Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul
- SINPRO/RS
- Av. João Pessoa, 919 - CEP 90040-000 - Bairro Farroupilha
- Porto Alegre - RS - BRASIL - Fone (51) 4009.2900 - Fax (51)
4009.2917
- http://www.sinprors.org.br