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Reprodução de René Cabrales - Folha da Manhã/agosto 1977 |
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Estudantes:
de onde vêm e para onde vão
Na história do Movimento Estudantil gaúcho, o dia
23 de agosto de 1977, em plena ditadura militar, é uma data
emblemática. O cenário da capital lembrava Paris
de 1968. Desde o início do primeiro semestre daquele ano,
estudantes ensaiavam uma volta às ruas, que culminou no
embate entre eles e as forças de segurança pública.
Havia quase dez anos que o Movimento Estudantil estava atuando
na clandestinidade, e muitos jovens da liderança da União
Nacional dos Estudantes (UNE) – que também nasceu
num distante agosto de 1937 –, estavam presos ou exilados.
Mais uma vez, os estudantes retornaram às ruas e às
prisões, dizia a retrospectiva de final de ano do extinto
jornal Folha da Manhã, só que desta vez não
voltaram mais para casa até que a ditadura acabasse na década
seguinte. Desde então, o movimento mudou de cara e de cores
ao longo da recente história política do país,
e diz-se que hoje já não é tão combativo.
E então? Passados 30 anos, o que está pensando e
quais as lutas prioritárias do Movimento Estudantil em um
país exposto à corrupção, à violência
e cujas questões sociais e estruturais ainda não
foram resolvidas após a volta da democracia?
Por José Weis

ram cerca de 3 mil estudantes que se reuniam naquele final de agosto
de 1977. Eles chegavam aos poucos para concentração
da passeata contra a ditadura. O clima pesado, frio e úmido
do dia só fazia aumentar a tensão no ar. Por volta
das 13h, os estudantes, a maioria universitários, mas também
havia secundaristas, começavam a se movimentar a partir
da avenida João Pessoa, em frente ao prédio que ainda
abriga a Casa de Estudante e o Restaurante Universitário,
local marcado para o ato público. Por sua vez, na Praça
Raul Pilla, as forças de segurança também
concentravam seus contingentes – jornais da época
falam em 2,5 mil soldados.
Esse foi o início de uma tarde inesquecível para
quem esteve lá. Na manchete de capa do jornal Folha da Manhã,
do dia seguinte, o resultado: “32 presos, quatro policiais
feridos”.
Este saldo representava um momento importante na luta dos estudantes
pela volta da democracia no Brasil. O retorno às ruas, o
que também ocorreu em diversas capitais do país,
tinha por objetivo três pontos básicos: manter acesa
a luta pelas liberdades democráticas, conquistar a adesão
de outros setores descontentes com o regime, além da reorganização
das entidades dos estudantes.
Aqueles eram tempos em que vigorava no Brasil um conjunto de leis
de exceção, como o Ato Institucional N° 5 (AI-5)
e o Decreto Lei 477, que restringiam e proibiam as ações
dos estudantes.
Reforma
universitária em debate
Trinta anos depois, em tempos de democracia estável, a União
Nacional dos Estudantes encara novas frentes de lutas. Neste mês
de agosto completa 70 anos de existência, e o mais recente
congresso da entidade, em sua 50ª edição, que
aconteceu em Brasília no início de julho, trouxe à tona
algumas contradições. De olho no futuro da educação,
o foco é a Reforma Universitária e como ela está sendo
encaminhada.
Marcos Vianna é acadêmico de História e faz
parte da coordenação do Diretório Central
dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(Ufrgs),ele aponta a ocupação do prédio da
Reitoria da Universidade de São Paulo (USP), assim como
a da Reitoria da Ufrgs, como sendo uma retomada da mobilização
do ME. “A gente conquistou um série de pautas específicas
e se posicionou contra a Reforma Universitária”, avalia
Vianna. Ele explica que a ação contra a Reforma que
o Governo anuncia acaba dividindo o próprio ME. Uma parte
da direção da UNE, vinculada à União
da Juventude Socialista, apóia a reforma. Enquanto isso,
o DEC da Ufrgs se posiciona contra a forma como ela está sendo
encaminhada. A avaliação sobre o resultado do 50o
congresso da UNE não foi das melhores. “Foi mais um
momento para a gente pautar essas polêmicas”, adverte
Marcos.
Segundo ele, o próximo passo será uma volta às
bases, e a partir dos Diretórios Acadêmicos e (DAs)
e demais DCEs, uma retomada da luta contra a Reforma Universitária.
Marcos Vianna lembra que esta Reforma vem sendo tentada desde os
anos 60, “e sempre teve um perfil neoliberal e visa à privatização
da universidade pública no Brasil”. Futuro historiador,
Marcos Vianna compara os movimentos da UNE no passado e no presente.“A
UNE, enquanto entidade, não consegue mais contemplar a organização
do movimento por si só”.
Para a recém-eleita presidente da UNE, a gaúcha Lúcia
Stumpf – estudante de Jornalismo –, o objetivo da entidade é questionar
essa Reforma. Lúcia lembra que o Projeto de Lei 7.200 “atualmente
está engavetado no Congresso por falta de vontade política”,
ressalta, e afirma que ele inclui a regulamentação
da atividade das universidades privadas.
A elaboração do Projeto 7.200, do qual a UNE também
participa, envolve decisões sobre diretrizes pedagógicas
e os reajustes das mensalidades cobradas pelas universidades.
A UNE também seguirá atenta às outras reivindicações,
como o aumento do número de vagas – que inclui as
cotas sociais e étnicas –, a qualidade de ensino,
a valorização dos professores e a autonomia das universidades
públicas.
Entre
o egoísmo e ações concretas
O historiador e coordenador do Memorial da Câmara Municipal
de Porto Alegre, Jorge Barcellos, organizou em 2006 a mostra A
História do Movimento Estudantil, apresentada na Ufrgs,
e define um perfil: um estudante dividido entre o egoísmo
e ações concretas contra a corrupção
na política.
Ainda, segundo o historiador, essa divisão entre os apelos
ao consumismo, e uma consciência social mais politizada, é possível
de ser administrada pelos jovens. “Eles são reticentes
em relação às instituições políticas
clássicas, mas ao mesmo tempo fazem alguma coisa”,
sintetiza.
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René Cabrales |
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Jorge
Barcellos |
Barcellos também aponta a busca por uma referência, “um
norte para onde ele possa deslocar o seu desejo” é que
o faz agir de forma mais politizada. “A política como
uma esfera do possível”, explica.
Para além do envolvimento com instituições
políticas, o jovem de hoje está engajado em ações
coletivas, sociais. Ele acaba participando de movimentos de luta
contra a violência, por exemplo.
Julinho,
um palco histórico de lutas
O centenário Colégio Estadual Júlio de Castilhos,
uma das referências em ensino público em todo o Rio
Grande do Sul, tem sido um palco histórico do Movimento
Estudantil ao longo de sua existência. Muitas lideranças
políticas que atuam hoje em dia passaram por ali.
O atual presidente do Grêmio Estudantil, Guilherme Narciso,
observa que o Movimento Estudantil secundarista está em
fase de reorganização.
O que continua na pauta, de acordo com Guilherme, é a briga
contra o desmantelamento da educação. Isso passa
por apoio a ações como a da ocupação
da Reitoria da Ufrgs e à luta dos professores por melhores
salários. Ou seja, há uma visão que compartilha
bandeiras com o movimento universitário e do magistério. “Uma
das preocupações do ME é sempre acompanhar
as lutas para modificar para melhor o que for possível”,
define Narciso.
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René Cabrales |
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Verônica
Kunze |
João
Alberto Figueiró |
Quando se fala na arraigada tradição de politização
do Grêmio do Julinho, há exemplos como a estudante
Verônica Kunze. A jovem faz parte de uma nova geração
de participação ativa no Grêmio Estudantil
do colégio. Verônica conta que sua mãe, no
inicio da década de 80, integrava o movimento”. Ela
passou por muitas lutas também e até apanhou da polícia
durante as manifestações”.
O diretor do Colégio Júlio de Castilhos, professor
João Alberto Figueiró – que esteve na passeata
de 77 como estudante – observa, em relação
ao atual momento do ME, que houve durante o processo de redemocratização
do país um direcionamento para dentro dos partidos políticos
que se reorganizavam. “Isso tirou um pouco daquela energia
do Movimento”, analisa.
“Agora, aos poucos, os estudantes estão descobrindo alternativas
para se engajar em movimentos”. O professor João Alberto
reconhece que é da natureza do ME os jovens se empenharem
em suas lutas e reivindicações de uma forma muito
honesta. “O Grêmio Estudantil do Julinho é uma
forma afirmativa disso”, observa ao constatar a vibração
e energia dos alunos envolvidos.
O diretor acrescenta que a luta pelas cotas sociais e étnicas
também fazem parte da mobilização. “É uma
outra vertente que eles descobriram e se engajaram”, relata.
1937 – 13 de agosto é a
data de fundação da entidade, na Casa
do Estudante do Brasil, no Rio de Janeiro.
1942 – A UNE também participa da
campanha de mobilização que faz o
Brasil entrar na Guerra em favor dos Aliados contra
o nazi-fascismo.
1945 – 5 de março, comício
pró-anistia e redemocratização,
em Recife. Em 29 de outubro, a deposição
de Getúlio Vargas. Lançada a campanha
O petróleo é nosso.
1964 – 31 de março, um golpe militar
depõe João Goulart, a sede do Rio
de Janeiro é incendiada.
1965 – Mobilização contra
o acordo MEC-Usaid que previa um modelo tecnocrático
para universidade.
1966 – Já na clandestinidade,
promove o seu congresso secretamente, em Belo Horizonte.
1968 – Em 12 de outubro, o 29° congresso,
em Ibiúna (SP) é interrompido por
forte aparato da repressão, seus líderes
são presos e processados, juntamente com
mais de 900 estudantes também detidos.
1977 – Novamente, após dez anos,
os estudantes ganhavam as ruas em várias
cidades do país, realizavam atos públicos
dentro de seus redutos universitários. A
UNE renascia.
1979 – Ano da Anistia e da reconstrução
da entidade com um congresso em Salvador (BA).
1984 – A UNE sai às ruas pelas Diretas
Já!
1992 – A UNE e os caras-pintadas
no movimento Fora Collor!
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