Capa ampliada


Ano 15 - nº 146
AGOSTO de 2010



Luis Fernando Verissimo

No outro dia escrevi sobre a campanha em curso na África do Sul pós-apartheid para apagar os vestígios do seu passado colonial, inclusive mudando nomes de lugares públicos que homenageavam colonizadores e seus magnatas e monarcas.
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Elisa Lucinda

As costeletas grisalhas do meu amor fizeram dele mais lindo ainda. O amor da gente tem o privilégio do trono do tempo, cai bem a velhice no amor da gente.
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Fraga

Em longínquos tempos, cavernosos, as palavras eram primitivas, ainda não tinham sido domesticadas. Havia poucas raças de palavras e sua serventia não dava conta das necessidades de expressão do povo daquela época.
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Marco Aurélio Weissheimer


o Ministério do Meio Ambiente (MMA) anunciou, dia 22 de julho, que o bioma Pampa, que ocupa a maior parte do território do Rio Grande do Sul, já perdeu 54% de sua vegetação nativa ao longo de sua ocupação histórica.
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José Antônio Alonso


A produção da agropecuária do Rio Grande do Sul desempenha um papel extremamente relevante na formação do produto e do emprego do estado.
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Ideias


“A audiodescrição é uma mágica que faz os cegos enxergarem”


 Lívia Maria Villela de Mello Motta*

Recurso amplia a compreensão das pessoas com deficiência visual


A audiodescrição é uma mágica que faz os cegos enxergarem” – esse foi o comentário feito por Roberto, pessoa com deficiência visual, de Campo Grande, logo após o término da ópera Rigoletto, no Theatro São Pedro, em São Paulo na última semana de julho. A expressão, que para muitos pode parecer exagerada e utópica, traduz com clareza o que significa este recurso de acessibilidade para as pessoas com deficiência visual. A famosa ópera de Verdi, que conta a história de amor, vingança e morte do corcunda Rigoletto, bufão da corte do Duque de Mantova, e de sua ingênua filha, Gilda, pôde ser conhecida e compreendida em toda a sua complexidade e detalhes cênicos por Roberto e por outras muitas pessoas com deficiência visual presentes nas cinco récitas desse espetáculo grandioso, com direção cênica de Lívia Sabag.

Com a audiodescrição e leitura das legendas, as conquistas e desventuras amorosas do Duque de Mantova, o jeito zombeteiro, irônico, debochado e impiedoso de Rigoletto como bobo da corte e, ao mesmo tempo, seu zelo e preocupação de pai apaixonado, e sua amargura pela sua condição de pessoa com deficiência física; a decepção de Gilda com a traição do amado, as armações do assassino profissional Sparafucile e de sua irmã Maddalena; os salões do palácio, a casa de Rigoletto, a estalagem rústica de Sparafucile, as roupas dos nobres e os vestidos das damas da corte, tudo isso pôde ser vivenciado, em igualdade de oportunidades, sem barreiras comunicacionais que tanto impedem o pleno acesso às informações e ao mundo dos espetáculos.

Desde o ano passado, quando foram apresentadas as óperas: Cavalleria Rusticana, Pagliacci e O Barbeiro de Sevilha, que o Theatro São Pedro, contando com a parceria da Vivo, passou a ser um lugar acessível para as pessoas com deficiência visual. Lá foram instalados equipamentos como cabine, mesa de som, fones de ouvido e receptores para que os audiodescritores pudessem narrar, com detalhes, cenários, figurinos e as ações dos solistas no palco, além de descrever o bonito e histórico Theatro São Pedro.

A audiodescrição é, pois, um recurso de acessibilidade que amplia o entendimento das pessoas com deficiência visual em eventos culturais (peças de teatro, programas de TV, exposições, mostras, musicais, óperas, desfiles, espetáculos de dança), turísticos (passeios, visitas), esportivos (jogos, lutas, competições), acadêmicos (palestras, seminários, congressos, aulas, feiras de ciências, experimentos científicos, histórias) e outros, por meio de informação sonora. Transforma o visual em verbal, abrindo possibilidades maiores de acesso à cultura e à informação, contribuindo para a inclusão cultural, social e escolar. Além das pessoas com deficiência visual, a audiodescrição amplia também o entendimento de pessoas com deficiência intelectual, idosos e disléxicos.

Conhecendo esse potencial inclusivo do recurso e sua aplicabilidade, professores podem fazer uso dele em sala de aula, descrevendo o universo imagético presente na escola como ilustrações nos livros didáticos e livros de história, gráficos, mapas, vídeos, fotografias, experimentos científicos, desenhos, feiras de ciências, visitas culturais, dentre outros, sem precisar de equipamentos para tal, mas cientes da importância de verbalizar aquilo que é visual. Isso, certamente, irá contribuir para a aprendizagem de todos os alunos e não somente dos alunos com deficiência visual. Estes ganharão em independência e autonomia, além de mais oportunidades de aprendizagem e conhecimento de mundo, e aqueles que descrevem poderão desenvolver o senso de observação, repertório linguístico e fluência verbal.

Não dá mais para nós, professores, ficarmos fora desse grande movimento inclusivo que vem chegando a todos os contextos. Cabe-nos, também, a preocupação com a remoção de barreiras comunicacionais e, principalmente, atitudinais, que tanto impedem a transformação da escola em um lugar possível para a diferença. E nossa mobilização, certamente, poderá provocar:

Um voo de muitas asas,
que fazem uma brisa forte,
brisa de novos ares,
que arrepia mares,
atrapalha os cabelos,
e joga papéis velhos e velhos
papéis para o alto,
e para os mesmos lugares,
nunca mais eles voltam ...





* Doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC de São Paulo e atua na área de inclusão cultural das pessoas com deficiência visual, com foco na formação de audiodescritores para teatro, cinema, TV e outros espetáculos, eventos sociais e pedagógicos. É coordenadora de acessibilidade do Programa Vivo Encena. 



















EXTRAPAUTA

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