Ano 8 - nº 78
Dezembro 2003



Luis Fernando Verissimo:
A invasão do Iraque foi uma aventura irresponsável de um presidente mentiroso que só aumentou o perigo do terrorismo e em que só vão ganhar os empresários amigos do governo presenteados com contratos milionários para tentar recuperar um país que, cada vez mais, se parece com o atoladouro do Vietnã.



Nei Lisboa:
Teatro lotado até às galerias. Pano fechado, rumores na platéia. Um porta-voz se aproxima do microfone instalado às pressas no proscênio e pede desculpas pelo atraso de trinta minutos.
– Um pequeno imprevisto com a orquestra. Tivemos de suprimir os metais, em função do contingenciamento. Os arranjos já foram...




Elisa Lucinda:

Andarilha de ar e terra viajo muito nesse mundão pelas poderosas mãos do verso, da palavra e do palco. E aprecio os lugares como se fossem pessoas, ocorrem-me numa inscrição afetiva que se aninha logo no departamento da amizade. De todos os lugares quando me distancio digo lá. Mas de POA não. De POA falo aqui. Esteja eu onde estiver.





Um grande clássico gaúcho acaba de ganhar uma edição à altura de sua importância. A Obra Completa de Simões Lopes Neto, edição feita sob os cuidados da Editora Sulina e Já Editores, com apoio da Copesul, dimensiona a inquietação e a multiplicidade de um homem que deu forma e voz autêntica à população do campo, precursor de uma visão que, ao desmitificar a figura do gaúcho, aproxima a força original da literatura aos contornos da realidade. A crueza poética de sua linguagem é trançada pela força telúrica da gente do sul.

Renato Dalto



Simões Lopes Neto: um clássico em obra completa


ma edição cuidadosa, com 1.087 páginas, organizada por Paulo Bentancur e ilustrada com aquarelas de Enio Squeff, registra cronologicamente a Obra Completa de Simões Lopes Neto. Começa pelos títulos publicados: Cancioneiro Guasca (1910), Contos Gauchescos (1912) e Lendas do Sul (1913). Seguem-se os póstumos Casos do Romualdo (1952), Terra Gaúcha (1955), Teatro(1984) e resgata o Extraviados – crônicas, poemas, contos e outros textos publicados ao longo de 1915. “Quando começamos a pensar nessa edição, achei quase impossível que não houvesse essa obra completa. E não tinha mesmo. Apresentamos então o projeto à Copesul, há dois anos. E a empresa, que vem publicando obras com essa temática, resolveu fazer o projeto”, conta Elmar Bones, da Já Editores.

Está, assim, preenchida, uma lacuna histórica. A reunião dessa obra retrata uma literatura que projeta o Rio Grande do Sul aos cânones da literatura brasileira e mundial. “Simões Lopes Neto não é apenas o primeiro regionalista brasileiro, é também o primeiro que consegue atingir o drama universal da forma mais ampla possível, e até hoje insuperado”, afirma Paulo Bentancur. “Existem três clássicos gaúchos: Erico Verissimo, Mario Quintana e o Simões Lopes Neto, que era o único que ainda não tinha a obra completa publicada”.

Pesquisador rigoroso, estilista refinado, conhecedor da alma campeira das fazendas e galpões gaúchos, Simões Lopes Neto retrata o imaginário popular em canções e poemas do Cancioneiro Guasca. Dá forma à linguagem e à vida da gente do campo nos Contos Gauchescos – O negro Bonifácio é o retrato mais bem-acabado sobre a fanfarronice e impetuosidade do gaúcho. Recria, com um estilo bordado de poética xucra, as Lendas do Sul. Dá sentido à linguagem oral dos galpões em Casos do Romulado, aventura-se pela pesquisa histórica em Terra Gaúcha, retrata os costumes povoeiros no teatro, escreve em jornais e revistas sempre com pitadas de imaginação, humor e uma certa insolência. Tudo isso está agora registrado numa única obra.

Uma seleção criteriosa determinou a parte mais reveladora da publicação: Extraviados. “Estive pesquisando na biblioteca pública de Pelotas e junto ao Grupo de Estudos Simonianos. Ele escreveu mais de noventa textos entre crônicas, conferências, coisas de ocasião. Optei por fazer uma antologia básica desses escritos, com mais três contos e algumas crônicas, para mostrar a multiplicidade do escritor”, revela Bentancur.

João Simões Lopes Neto nasceu em Pelotas, no dia 9 de março de 1865. Descendente de uma família proprietária de várias estâncias, desde cedo ficou impressionado com as lides do campo e seus personagens. As conversas de galpão e os feitos do próprio pai – Catão Bonifácio Lopes, homem do campo conhecido por sua galhardia e coragem, – foram a fonte que inspiraram os Contos Gauchescos. Apesar de gostar da vida campeira, foi a escrita que mais atraiu Simões Lopes Neto. Começou a escrever no jornal “A Pátria”, em 1888, atuando depois no “Diário Popular” (no qual escreveu Balas de Estalo, comentários satíricos sobre a sociedade pelotense em forma de versos) e no Correio Mercantil. Foi, porém, um homem múltiplo também em seus projetos: fabricou cigarros – é dele o famoso “Marca-diabo”–, atuou na mineração, foi despachante e, na revolução de 1893, alistou-se no 3 Batalhão da Guarda Nacional.

No dia 14 de junho de 1916, quando morreu, João Simões Lopes Neto era um homem pobre, com apenas três livros publicados. A própria viúva, Francisca de Paula Meireles Simões Lopes, ficou com a imagem do marido como a de um homem fracassado. A obra, porém, mostrava o contrário. Os escritos vieram a se tornar mais amplamente divulgados depois de sua morte, em especial pelo trabalho feito pelo jornalista Carlos Reverbel, também autor da biografia Um Capitão da Guarda Nacional (Martins Livreiro – 1981), hoje totalmente esgotado.

A ousadia estética e a originalidade, porém, parecem ter colocado Simões Lopes Neto, literariamente, como um homem fora do seu tempo. “Ele faz do dialeto gauchesco uma linguagem literária. É a invenção da palavra, a mesma atividade realizada por James Joyce”, opina Donaldo Schüller, primoroso tradutor de Finnengans Wake, de Joyce, e ganhador do prêmio Fato Literário 2003. Schüller, um erudito que transita pela literatura mundial, afirma que se trata de uma obra clássica universal. “Simões Lopes Neto recria a língua portuguesa, e assim se insere na tradição dos melhores autores que a realizaram, como Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa”.

Um outro patamar amplamente difundido pela crítica é o comparativo com João Guimarães Rosa, o escritor mineiro que dá voz à gente do sertão. No entanto, Simões Lopes Neto é o precursor. Antes dele, apenas José de Alencar tinha se aventurado ao regionalismo, sem no entanto impregnar-se da cultura autêntica de cada lugar. Tanto que escreveu O Gaúcho, um romance com todas as hipérboles do romantismo, sem sequer ter conhecido o Rio Grande do Sul.

A edição da Obra Completa de Simões Lopes Neto, retrato “das essencialidades da cultura do Sul do Brasil”- como escreve Luis Fernando Cirne Lima na abertura do volume – também está prescindindo de glossário. A linguagem regional não estanca a leitura, ao contrário, deixa verter musicalidade, impressões, frêmitos que sinalizam ventos, tropéis, silêncios, falas pausadas ou rebuliços. É como um espelho que reflete a imagem sem explicar contornos. A obra de Simões Lopes Neto mostra um jeito de ser gaúcho. Sem julgamentos, sem explicações, sem exageros. É um elo que liga o sul à sua gênese e, ao fazer essa alquimia, insere-se no que há de melhor na literatura universal.

  Revelações dos "Extraviados"

Os textos reunidos sob o título de Extraviados, que encerram a Obra Completa de Simões Lopes Neto, revelam faces pouco conhecidas do escritor: crônicas, poemas, reflexões sobre a sociedade pelotense, provocações, poemas e ensaios integram essa coletânea. Abaixo seguem dois trechos de escritos pouco conhecidos pelo do grande público.

“Correm-se as varas da porteira; serena o tropel; os animais companheiros procuram-se, todos estavam molhados até os encontros; uns sacodem-se com violência ou cheiram o chão, refolhando, e rebolcam-se na terra revolvida e fresca; cruzam-se os reclinchos, coices, dentadas. Quase todas as cabeças, espantadas e curiosas, estão voltadas para a porteira; e na respiração ofegante e forte as ventas expelem rolos de vapor, do bafo; parece que os animais pitaram e estão atirando a fumaça dos cigarros!”.
A Recolhida – crônica publicada na Revista da Academia de Letras do Rio Grande do Sul, nº 7, junho a agosto de 1911.

“A sua voz – nesse ponto – não sei o que é que tinha, mas era de uma modulação áspera e ao mesmo tempo untuosa. Os seus olhos mostraram um turvado – que eu não conhecia, e no entanto parece que também falavam, completando o sentido das palavras pronunciadas. Depois é que eu percebi que as palavras seriam de cobiça e que os olhos seriam de avareza – e se completavam”.
Sinhá Jana (conto)


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