Até os dentes
Comer lento. Sim, mas não é só isso. O Slow
Food, apesar de ser um movimento de gênese proselitista,
trabalha com uma questão simbólica fundamental ao
nosso tempo, a velocidade. Se o século XX foi da imagem,
certamente, o XXI é o da velocidade. Na informação,
na política, na guerra, no trabalho, na comida, no cotidiano
em geral. Não é à toa que o fast-food foi
eleito o símbolo de todas as mazelas, injustamente talvez.
Mas o contraponto também vem a gosto. E o sabor dessa vingança é lento,
com direito a registrar as piores performances das franquias do
McDonald’s em todo o planeta, neste ano. Na Europa a slow
life conquista adeptos e tem a simpatia daqueles que se opõem
ao ritmo imposto pela nova ordem mundial. Se, há pouco,
a máxima de que “o mais vagabundo ferro de passar
tem a ver com a pesquisa militar” resumia seu tempo, hoje,
se pode dizer que o lanche barato da esquina tem a ver com os pregões
da bolsa. O emaranhado sócio-político-econômico
em que estamos inseridos define desde a roupa que vestimos e cultura
que consumimos ao cardápio do nosso almoço e o tempo
que levaremos para degustá-lo. Comer lento pode não
ser o mais importante, contudo simboliza uma forma de resistência à cultura
da velocidade, em que tudo é efêmero: música,
cinema, teatro, relações afetivas e profissionais,
etc, etc... O ritmo da vida já não é imposto
pelas necessidades do homem, mas do mercado. As demandas é que
indicam o que, quando, como, onde e o porquê de qualquer
coisa. O curioso de tudo isso é que essas necessidades são
atribuídas à própria humanidade, porém
sabemos que uma pequena parcela dela é que ganha, e mais
rápido, com essa pisada no acelerador cada vez mais forte.
Comer devagar é uma nova forma de protesto, que eleva a
mastigação ao patamar de uma luta...e qualquer um
pode estar armado até os dentes... é claro. Melhor
ficar por aqui. Afinal, o espaço é pequeno e o tempo é curto.