Escola: violência e tráfico de mãos dadas
Pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores
em Educação (CNTE) mostra que violência, consumo
de drogas e tráfico formam combinação desastrosa
nas escolas.
Adriana Zottis
 s dados serão divulgados em 2004 na forma de
uma publicação que se chamará “Retratos da Escola
2”. Desenvolvido em conjunto pela CNTE e pelo Laboratório de Psicologia
do Trabalho-UnB, no ano de 2000, o estudo abrangeu 1.500 estabelecimentos do
ensino fundamental e médio de todo o Brasil das redes estadual, municipal
e particular. Os pesquisadores abrem o trabalho definindo como “alarmantes” os
dados revelados e chamam atenção para um detalhe que com certeza
passaria despercebido: “Os números podem estar deturpados para baixo,
isto porque a resposta do professor, diretor, ou funcionário depende da
detecção de consumo ou tráfico. Um esquema não detectado
acaba ficando de fora das estatísticas”.
Cientes dessa limitação, os pesquisadores foram a campo para mostrar
que 32% dos alunos tiveram contato com drogas nas escolas e que 4,2% deles são
viciados. O tráfico nas escolas atinge 21,7% dos alunos. O consumo de
drogas nas dependências da escola, apresentou um percentual de aproximadamente
20% entre consumo ocasional e freqüente; para o consumo fora da escola esse
percentual sobe para 40% entre ocasional e freqüente. A pesquisa revela
que o consumo é maior na rede pública. “Os alunos dessas
escolas, em geral, não têm outros espaços de acesso às
drogas de uma forma tão concentrada. E também, em muitas escolas,
a falta de segurança facilita a ação do traficante, que
tem maior facilidade de transitar nas redondezas e, em alguns casos, até mesmo
dentro dos estabelecimentos”, analisa a presidente da CNTE, Juçara
Vieira.
No caso específico do tráfico, os dados são avaliados como “desastrosos”.
Cerca de 2% fazem tráfico dentro das escolas de forma freqüente;
8,4% o faz ocasionalmente; e 7,2% e 22,6%, respectivamente, freqüente e
ocasional, nas proximidades da escola. De acordo com a CNTE, pesquisas anteriores
já mostraram que o consumo de drogas e o aumento da criminalidade e da
violência são diretamente proporcionais. A violência pode
surgir tanto pelo efeito da droga quanto pela falta dela. A “Associação
Parceria Contra as Drogas” relata que o risco de sofrer algum tipo de violência é 14
vezes maior para os que convivem com usuários de drogas (lícitas
ou ilícitas) na escola.
Os números indicam que alguns aspectos da violência se potencializam
quando associados às drogas. A agressão verbal nas dependências
da escola, por exemplo, sai de um patamar de 47% quando não está associada
ao consumo de drogas para 76% quando o uso de drogas é ocasional ou 88%
quando o uso é freqüente. Ou ainda, de 51% quando não está associada
ao tráfico nas proximidades da escola para quase 78% e 86% quando associada
ao tráfico ocasional ou freqüente. O mesmo pode ser observado com
relação à agressão física, ao vandalismo,
aos roubos e furtos. Em alguns casos, os índices de violência triplicam
quando as drogas, consumo ou tráfico, estão presentes, aponta a
pesquisa.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), têm
mais chance de usar drogas as pessoas mal- informadas. “E ensinar um aluno
a não usar drogas não é tão simples quanto ensinar-lhe
Português ou Matemática”, admitem os pesquisadores. A recente
reestruturação do Conselho Nacional Antidrogas, que incumbiu o
Ministério da Educação e Cultura (MEC) de coordenar a Câmara
Temática de Prevenção ao Uso de Drogas do Conselho Nacional
Antidrogas, sugere que mudanças pedagógicas estão por vir. “A
educação é um instrumento vital da política de prevenção”,
avalia a diretora de Políticas Educacionais da Secretaria de Educação
Infantil e Fundamental do MEC, Lúcia Lodi, coordenadora da nova Câmara.
Ela adianta que um dos primeiros projetos a serem colocados em prática,
já a partir do próximo ano, é o curso de capacitação
a distância “Prevenção ao uso indevido de drogas nas
escolas”, desenvolvido em parceria com a Secretaria Nacional Antidrogas
e TV Escola, e que pretende atingir professores da rede pública de todo
o país.
"Precisamos
de políticas sérias e permanentes"
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A presidente
da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação
(CNTE), Juçara Maria Dutra Vieira, concedeu entrevista
para o Extra Classe, comentando alguns pontos da pesquisa “Retratos
da Escola 2”.
Extra-Classe – A pesquisa realizada pela CNTE mostra
que os dados sobre consumo e tráfico de drogas nas escolas
podem ser considerados alarmantes. Que causas a senhora apontaria
para este avanço das drogas nas instituições
de ensino?
Juçara Vieira – A concentração de
renda, as desigualdades sociais e a falta de perspectivas,
por parte de crianças e adolescentes, no que se refere
ao seu futuro social ou profissional e ao estreitamento das
opções de lazer e de atividades culturais. Esperamos
que a política de prevenção daqui para
frente possa atingir o alvo. Precisamos de políticas
sérias e permanentes.
EC – Os professores, via de regra, estão na linha
de frente, mas não têm preparo para lidar com
a situação. Como superar esta deficiência?
Vieira – A escola como espaço de interação,
socialização e afirmação de crianças
e adolescentes tem que ser abrangente e, para isso, é preciso
conhecer e discutir a realidade das drogas em todo seu universo.
Reprimir, não reprimir, punir, não punir, discutir
ou fugir do problema tem sido o grande dilema. Necessitamos
de uma prática pedagógica que reforce a consciência
crítica do aluno.
EC – Especialistas no assunto dizem que a prevenção é a única
saída, mas que ela deve ser feita de forma sutil, disfarçada
no currículo e, de preferência, começar
na pré-escola. Sabe-se que a escola pública hoje
não trabalha com prevenção. Qual a posição
da CNTE em relação a isso?
Vieira – Prevenção é necessário,
tanto associada ao currículo como em campanhas específicas,
porém a escola não consegue, sozinha, dar conta
do problema. A família tem papel importante na prevenção,
pois na maioria das vezes a criança se aproxima das
drogas lícitas (álcool, fumo) dentro de casa
e depois procura experimentar as substâncias ilegais.
Outra forma de prevenir as drogas é ocupar a criança
e o adolescente através projetos culturais e esportivos
atuantes fora do horário escolar ou a implantação
de programas extracurriculares de instrução profissional,
incentivo à formação de grupos de jovens
para discussão de seus problemas sociais e afetivos.
A formação de escolas especiais que levem em
conta especificidades culturais de certos segmentos sociais,
como por exemplo, minorias étnicas ou religiosas, seria
outra saída.
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