Ano 8 - nº 78
Dezembro 2003



Luis Fernando Verissimo:
A invasão do Iraque foi uma aventura irresponsável de um presidente mentiroso que só aumentou o perigo do terrorismo e em que só vão ganhar os empresários amigos do governo presenteados com contratos milionários para tentar recuperar um país que, cada vez mais, se parece com o atoladouro do Vietnã.



Nei Lisboa:
Teatro lotado até às galerias. Pano fechado, rumores na platéia. Um porta-voz se aproxima do microfone instalado às pressas no proscênio e pede desculpas pelo atraso de trinta minutos.
– Um pequeno imprevisto com a orquestra. Tivemos de suprimir os metais, em função do contingenciamento. Os arranjos já foram...




Elisa Lucinda:

Andarilha de ar e terra viajo muito nesse mundão pelas poderosas mãos do verso, da palavra e do palco. E aprecio os lugares como se fossem pessoas, ocorrem-me numa inscrição afetiva que se aninha logo no departamento da amizade. De todos os lugares quando me distancio digo lá. Mas de POA não. De POA falo aqui. Esteja eu onde estiver.





Escola: violência e tráfico de mãos dadas

Pesquisa da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) mostra que violência, consumo de drogas e tráfico formam combinação desastrosa nas escolas.

Adriana Zottis

s dados serão divulgados em 2004 na forma de uma publicação que se chamará “Retratos da Escola 2”. Desenvolvido em conjunto pela CNTE e pelo Laboratório de Psicologia do Trabalho-UnB, no ano de 2000, o estudo abrangeu 1.500 estabelecimentos do ensino fundamental e médio de todo o Brasil das redes estadual, municipal e particular. Os pesquisadores abrem o trabalho definindo como “alarmantes” os dados revelados e chamam atenção para um detalhe que com certeza passaria despercebido: “Os números podem estar deturpados para baixo, isto porque a resposta do professor, diretor, ou funcionário depende da detecção de consumo ou tráfico. Um esquema não detectado acaba ficando de fora das estatísticas”.

Cientes dessa limitação, os pesquisadores foram a campo para mostrar que 32% dos alunos tiveram contato com drogas nas escolas e que 4,2% deles são viciados. O tráfico nas escolas atinge 21,7% dos alunos. O consumo de drogas nas dependências da escola, apresentou um percentual de aproximadamente 20% entre consumo ocasional e freqüente; para o consumo fora da escola esse percentual sobe para 40% entre ocasional e freqüente. A pesquisa revela que o consumo é maior na rede pública. “Os alunos dessas escolas, em geral, não têm outros espaços de acesso às drogas de uma forma tão concentrada. E também, em muitas escolas, a falta de segurança facilita a ação do traficante, que tem maior facilidade de transitar nas redondezas e, em alguns casos, até mesmo dentro dos estabelecimentos”, analisa a presidente da CNTE, Juçara Vieira.

No caso específico do tráfico, os dados são avaliados como “desastrosos”. Cerca de 2% fazem tráfico dentro das escolas de forma freqüente; 8,4% o faz ocasionalmente; e 7,2% e 22,6%, respectivamente, freqüente e ocasional, nas proximidades da escola. De acordo com a CNTE, pesquisas anteriores já mostraram que o consumo de drogas e o aumento da criminalidade e da violência são diretamente proporcionais. A violência pode surgir tanto pelo efeito da droga quanto pela falta dela. A “Associação Parceria Contra as Drogas” relata que o risco de sofrer algum tipo de violência é 14 vezes maior para os que convivem com usuários de drogas (lícitas ou ilícitas) na escola.

Os números indicam que alguns aspectos da violência se potencializam quando associados às drogas. A agressão verbal nas dependências da escola, por exemplo, sai de um patamar de 47% quando não está associada ao consumo de drogas para 76% quando o uso de drogas é ocasional ou 88% quando o uso é freqüente. Ou ainda, de 51% quando não está associada ao tráfico nas proximidades da escola para quase 78% e 86% quando associada ao tráfico ocasional ou freqüente. O mesmo pode ser observado com relação à agressão física, ao vandalismo, aos roubos e furtos. Em alguns casos, os índices de violência triplicam quando as drogas, consumo ou tráfico, estão presentes, aponta a pesquisa.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), têm mais chance de usar drogas as pessoas mal- informadas. “E ensinar um aluno a não usar drogas não é tão simples quanto ensinar-lhe Português ou Matemática”, admitem os pesquisadores. A recente reestruturação do Conselho Nacional Antidrogas, que incumbiu o Ministério da Educação e Cultura (MEC) de coordenar a Câmara Temática de Prevenção ao Uso de Drogas do Conselho Nacional Antidrogas, sugere que mudanças pedagógicas estão por vir. “A educação é um instrumento vital da política de prevenção”, avalia a diretora de Políticas Educacionais da Secretaria de Educação Infantil e Fundamental do MEC, Lúcia Lodi, coordenadora da nova Câmara. Ela adianta que um dos primeiros projetos a serem colocados em prática, já a partir do próximo ano, é o curso de capacitação a distância “Prevenção ao uso indevido de drogas nas escolas”, desenvolvido em parceria com a Secretaria Nacional Antidrogas e TV Escola, e que pretende atingir professores da rede pública de todo o país.

  "Precisamos de políticas sérias e permanentes"
A presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Juçara Maria Dutra Vieira, concedeu entrevista para o Extra Classe, comentando alguns pontos da pesquisa “Retratos da Escola 2”.

Extra-Classe – A pesquisa realizada pela CNTE mostra que os dados sobre consumo e tráfico de drogas nas escolas podem ser considerados alarmantes. Que causas a senhora apontaria para este avanço das drogas nas instituições de ensino?
Juçara Vieira
– A concentração de renda, as desigualdades sociais e a falta de perspectivas, por parte de crianças e adolescentes, no que se refere ao seu futuro social ou profissional e ao estreitamento das opções de lazer e de atividades culturais. Esperamos que a política de prevenção daqui para frente possa atingir o alvo. Precisamos de políticas sérias e permanentes.

EC – Os professores, via de regra, estão na linha de frente, mas não têm preparo para lidar com a situação. Como superar esta deficiência?
Vieira
– A escola como espaço de interação, socialização e afirmação de crianças e adolescentes tem que ser abrangente e, para isso, é preciso conhecer e discutir a realidade das drogas em todo seu universo. Reprimir, não reprimir, punir, não punir, discutir ou fugir do problema tem sido o grande dilema. Necessitamos de uma prática pedagógica que reforce a consciência crítica do aluno.

EC – Especialistas no assunto dizem que a prevenção é a única saída, mas que ela deve ser feita de forma sutil, disfarçada no currículo e, de preferência, começar na pré-escola. Sabe-se que a escola pública hoje não trabalha com prevenção. Qual a posição da CNTE em relação a isso?
Vieira
– Prevenção é necessário, tanto associada ao currículo como em campanhas específicas, porém a escola não consegue, sozinha, dar conta do problema. A família tem papel importante na prevenção, pois na maioria das vezes a criança se aproxima das drogas lícitas (álcool, fumo) dentro de casa e depois procura experimentar as substâncias ilegais. Outra forma de prevenir as drogas é ocupar a criança e o adolescente através projetos culturais e esportivos atuantes fora do horário escolar ou a implantação de programas extracurriculares de instrução profissional, incentivo à formação de grupos de jovens para discussão de seus problemas sociais e afetivos. A formação de escolas especiais que levem em conta especificidades culturais de certos segmentos sociais, como por exemplo, minorias étnicas ou religiosas, seria outra saída.



 

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