Meu pago
Andarilha de ar e terra viajo muito nesse mundão pelas poderosas
mãos do verso, da palavra e do palco. E aprecio os lugares
como se fossem pessoas, ocorrem-me numa inscrição
afetiva que se aninha logo no departamento da amizade. De todos
os lugares quando me distancio digo lá. Mas de POA não.
De POA falo aqui. Esteja eu onde estiver. Há uma geografia
que se fez mapa em meu ser e arranjou um rancho bom para morar
essa terra em mim. Uma das coisas de que mais gosto no tal do viver é de
sonhar e de logo no seu devido porvir identificar o sonho quando
ele acontece; flagrá-lo, sorvê-lo, degustá-lo
no seu tão anteriormente desejado estado de presente, ele,
que fora antes uma determinada e arriscada seta lançada
ao futuro. Gosto de gozar desse triunfo. Desfrutá-lo. Pois
morava nesse lugar o sonho do Teatro São Pedro. Sonho com
ele desde que tentei várias vezes ter acesso ao incensado “vestibular” do “Porto
Alegre Em Cena”. Nunca passei. Mas se passasse, pensava,
um dia iria chegar ao São Pedro! E segui sonhando, é de
graça sonhar, afinal. Bons e outros caminhos me trouxeram
a essa terra:o primeiro foi o Parque da Redenção,
depois as Feiras do Livro consecutivas das quais já me sinto
tradição, os bares Ocidente,Terra a Vista, o Teatro
Renascença, e, bem de acordo com meu sonho, tudo que eu
fazia aqui dava gente; fosse segunda, fosse de tarde, estivesse
chovendo,fosse ao ar livre, fosse ao ar-condicionado,tudo desembocava
guaibamente num bom e certo rebolado. Até que chegara enfim
o dia. Entrei pela primeira vez no Teatro cuidado ressuscitado
por Eva. Um biscuit, um bibelô, uma jóia. Entrei,
pernas bambas de uma emoção abusada, rara e boníssima
de se sentir. Era uma estréia ali mas era também
mais uma etapa de uma turnê,o que quer dizer rotina e novidade.
Mas aqui era um experimento como se fosse terra natal. Quando passei
por dez minutos, algumas marcas num ensaio relâmpago bati
uma palma curta e breve de intensidade que ecoou tão limpo
sobre as cadeiras vazias, que pensei logo uma quadrinha imbecil
e linda: “Acústica é Teatro São Pedro,
o resto é brinquedo”. E fui pro camarim: um quarto
muito delicado com jarro de flores, cortina de pano, espelho, silêncio,
chuveiro, toalha, um quarto para humanos! Um quarto humano e humaníssimo
para atores. Quem cuidou sabe. Queria morar ali, passar uns dias
hóspede da alegria e da arte,do museu etéreo de gestos,
risos e lágrimas que ali se deram. Pois bem, o terceiro
sinal quase, e eu copiava ainda a música de Vitor Ramil
que minha cota de improviso e homenagem me permitiam. Entrei, senti
o Teatro cheio, comecei e cantei lendo pela primeira vez uma música
que só o meu banheiro lá no Rio experimentara escutar
até então. O pessoal gostou, recebeu. E tudo fora
a partir daí mais que meu povo, meus amigos, minha gente
na minha sala, na minha casa adorando as comidas, os quitutes,
os comes e bebes. A coisa rolou com intimidade, com as vontades
de todas as ambas inúmeras partes. Sempre acho que quem
faz monólogo é que trabalha com o maior e o mais
inusitado elenco: a platéia. E algumas vezes parece que
o grande elenco até ensaiara. Pois era como era. Uma bola
invisível rolava do palco para a platéia e vice-versa
deixando humilhada a quarta parede. Quarta parede é aquela,
técnica e teatralmente falando, que, imaginariamente, estaria
posta entre o publico e o palco. Como conceito ela já caíra
em desuso há muito tempo em minha prática mas aqui,
coitada, ficara literalmente sem ambiente. Eu estava em casa. Foram
duas horas e quarenta minutos de amor bem-feito. Todo mundo gozou.