Ano 8 - nº 78
Dezembro 2003



Luis Fernando Verissimo:
A invasão do Iraque foi uma aventura irresponsável de um presidente mentiroso que só aumentou o perigo do terrorismo e em que só vão ganhar os empresários amigos do governo presenteados com contratos milionários para tentar recuperar um país que, cada vez mais, se parece com o atoladouro do Vietnã.



Nei Lisboa:
Teatro lotado até às galerias. Pano fechado, rumores na platéia. Um porta-voz se aproxima do microfone instalado às pressas no proscênio e pede desculpas pelo atraso de trinta minutos.
– Um pequeno imprevisto com a orquestra. Tivemos de suprimir os metais, em função do contingenciamento. Os arranjos já foram...




Elisa Lucinda:

Andarilha de ar e terra viajo muito nesse mundão pelas poderosas mãos do verso, da palavra e do palco. E aprecio os lugares como se fossem pessoas, ocorrem-me numa inscrição afetiva que se aninha logo no departamento da amizade. De todos os lugares quando me distancio digo lá. Mas de POA não. De POA falo aqui. Esteja eu onde estiver.





Maestro, maestro!

Teatro lotado até às galerias. Pano fechado, rumores na platéia. Um porta-voz se aproxima do microfone instalado às pressas no proscênio e pede desculpas pelo atraso de trinta minutos.

– Um pequeno imprevisto com a orquestra. Tivemos de suprimir os metais, em função do contingenciamento. Os arranjos já foram reformulados e o espetáculo do crescimento deve começar dentro de breves instantes.

Comoção do público. O porta-voz se retira. Ligeiro tumulto, alguém mais exaltado grita “reformulação neoliberal” e é expulso do teatro. Silêncio. Impaciência. Estranhos ruídos e estrondos vindos de trás da cortina. Depois de outra meia hora, o spalla da orquestra surge no proscênio.

– Peço a compreensão de vocês. Como já devem ter percebido, os juros e o risco-país caíram bastante. Infelizmente, caíram sobre os clarinetes e os oboés. Estamos revendo a situação na tentativa de formar uma orquestra de câmara. Obrigado.

Alvoroço total. Os camarotes puxam o coro de “emprego, cadê você, eu vim aqui só pra te ver”. O teatro é invadido por agricultores sem ingresso, que ocupam o corredor improdutivo central. Os alto-falantes pedem calma e anunciam uma mensagem do patrocinador. Entra o patrocinador, uma senhora com forte sotaque de fundo monetário.

– Apoiamos tudo o que está sendo feito, muito embora mais certo ainda fosse convocar a Orquestra de Pífaros de Caruaru. Com instrumentos mais baratos, sobraria mais dinheiro para pagar os juros, que continuariam caindo em cima dos instrumentos, mas com um prejuízo menor. Halloween e gudibai pra vocês.

Revolta generalizada. Parte do público ameaça ir embora, outra parte diz que não sai sem receber de volta o que pagou pelo ingresso. Alguém se lembra de convocar o regente da orquestra para resolver o problema. “O maestro, o maestro”, gritam todos. Entra o maestro.

– Meus companheiros. Vocês sabem que eu não vou descansar antes que consiga apresentar nem que seja um quarteto de cordas nesse palco. Mas é preciso tempo para isso. Não se pode dar um cavalinho-de-pau numa orquestra nem afundar o Titanic com apenas um ano de trabalho. É indispensável criar as condições indispensáveis antes de atingir os nossos objetivos indispensáveis. Por exemplo, estou seguro de que para amanhã, ou no máximo semana que vem, já poderemos oferecer aqui um solo de fagote. Por enquanto, o importante é que vocês estejam confiantes de que eu vou fazer todo o possível para que tenhamos um concerto muito antes do que se espera. Inclusive com a ajuda e a participação de vocês, porque na verdade vocês é que fazem o espetáculo, não tenham dúvida disso, e digam todos comigo, “É só você querer...”




 
José Luis Fiori

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“Espero que o polemista que sou e gosto de ser não atrapalhe minhas novelas. Uma coisa é fazer jornalismo ou crônica cultural; outra é fazer ficção. Meus personagens nada têm a ver com minhas brigas e posturas intelectuais”. É com este sentimento que Juremir Machado da Silva lança simultaneamente três novelas reunidas em uma...

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