Maestro, maestro!
Teatro lotado até às galerias. Pano fechado, rumores
na platéia. Um porta-voz se aproxima do microfone instalado às
pressas no proscênio e pede desculpas pelo atraso de trinta
minutos.
–
Um pequeno imprevisto com a orquestra. Tivemos de suprimir os metais,
em função do contingenciamento. Os arranjos já foram
reformulados e o espetáculo do crescimento deve começar
dentro de breves instantes.
Comoção do público. O porta-voz se retira.
Ligeiro tumulto, alguém mais exaltado grita “reformulação
neoliberal” e é expulso do teatro. Silêncio.
Impaciência. Estranhos ruídos e estrondos vindos de
trás da cortina. Depois de outra meia hora, o spalla da
orquestra surge no proscênio.
–
Peço a compreensão de vocês. Como já devem
ter percebido, os juros e o risco-país caíram bastante.
Infelizmente, caíram sobre os clarinetes e os oboés.
Estamos revendo a situação na tentativa de formar
uma orquestra de câmara. Obrigado.
Alvoroço total. Os camarotes puxam o coro de “emprego,
cadê você, eu vim aqui só pra te ver”.
O teatro é invadido por agricultores sem ingresso, que ocupam
o corredor improdutivo central. Os alto-falantes pedem calma e
anunciam uma mensagem do patrocinador. Entra o patrocinador, uma
senhora com forte sotaque de fundo monetário.
–
Apoiamos tudo o que está sendo feito, muito embora mais
certo ainda fosse convocar a Orquestra de Pífaros de Caruaru.
Com instrumentos mais baratos, sobraria mais dinheiro para pagar
os juros, que continuariam caindo em cima dos instrumentos, mas
com um prejuízo menor. Halloween e gudibai pra vocês.
Revolta generalizada. Parte do público ameaça ir
embora, outra parte diz que não sai sem receber de volta
o que pagou pelo ingresso. Alguém se lembra de convocar
o regente da orquestra para resolver o problema. “O maestro,
o maestro”, gritam todos. Entra o maestro.
–
Meus companheiros. Vocês sabem que eu não vou descansar
antes que consiga apresentar nem que seja um quarteto de cordas
nesse palco. Mas é preciso tempo para isso. Não se
pode dar um cavalinho-de-pau numa orquestra nem afundar o Titanic
com apenas um ano de trabalho. É indispensável criar
as condições indispensáveis antes de atingir
os nossos objetivos indispensáveis. Por exemplo, estou seguro
de que para amanhã, ou no máximo semana que vem,
já poderemos oferecer aqui um solo de fagote. Por enquanto,
o importante é que vocês estejam confiantes de que
eu vou fazer todo o possível para que tenhamos um concerto
muito antes do que se espera. Inclusive com a ajuda e a participação
de vocês, porque na verdade vocês é que fazem
o espetáculo, não tenham dúvida disso, e digam
todos comigo, “É só você querer...”
