O final do ano é um dos períodos em que são
contabilizados os maiores picos de venda, quando os consumidores
são bombardeados sem dó pelos apelos sedutores da
publicidade. Os muitos que não conseguem resistir à sedução
poderão começar o ano no vermelho graças à compulsão
pelas compras. Estudos apontam que apenas 6% dos consumidores podem
ser considerados conscientes. Os mais impulsivos entram no espírito
natalino dos shoppings e abarrotam sacolas de presentes e novidades,
nocauteando a saúde financeira. Esse é o caso de
Pedro, mas nem todos são assim. O seu comportamento é completamente
diferente do de Aninha. Ela é do tipo que só vai às
compras depois que organiza a lista do que está precisando.
Apesar de eles poderem ser qualquer um de nós, esses personagens
foram criados pela consultora em educação e direito
do consumidor Maria de Lourdes Coelho, para o livro infantil Pedro
compra tudo (e Aninha dá recados) - Editora Cortez, 24 páginas
- com o objetivo de retratar o comportamento dos consumidores no
dia-a-dia e despertar um comportamento mais consciente já na
idade escolar. “De certa forma, cada um tem um Pedro e Aninha.
Ela é consumidora; e ele, consumista”, explica Maria
de Lourdes, acrescentando que as pessoas podem consumir com equilíbrio
sem serem contaminados pela epidemia do compra-tudo. Falta à maioria
a percepção de que o simples ato de comprar um tênis
ou um pé de alface terá reflexos na economia, na
socie-dade, no pla-neta.
Consumidor ou consumista, ser ou não ser?
Stela Rosa
O comportamento do consumidor desperta interesse dos dois lados
do balcão em qualquer estação do ano. De um
lado, as empresas realizam estudos com o intuito de entender os
hábitos de consumo para melhor seduzir os compradores. Do
outro, as instituições que defendem a prática
do consumo consciente fazem o mesmo, mas para orientá-los.
Cada um tenta entender e apontar, do seu modo, através de
pesquisas, as tendências de consumo. O publicitário
e especialista na área Luiz Alberto Marinho em recente entrevista à revista
Isto É (6 de outubro de 2004, nº 1826) avalia que as
pessoas estão procurando encontrar substitutos para os valores
tradicionais por meio do consumo; já as organizações
de defesa dos consumidores acreditam que o cidadão vem adotando
critérios mais exigentes na hora de fazer escolhas, entre
eles ficar de olho nas ações sociais das empresas.
Mesmo que para alguns pareça que consumidores como Aninha
não existem, esse perfil, mais organizado e consciente na
relação de consumo, foi detectado em 6% dos entrevistados
de uma pesquisa realizada pelo Instituto Akatu, uma ONG cuja missão é estimular
o consumo consciente. Aron Belinky, gerente de Operações
do Akatu, explica que os perfis dos consumidores e seus graus de
consciência foram traçados a partir da freqüência
na prática de 13 comportamentos selecionados entre os mais
de 80 que constavam no estudo. Os pesquisados considerados conscientes
revelaram que, além de planejar compras de alimentos e roupas,
para evitar desperdício e gastos compulsivos, economizam água,
luz e papel, reciclam o lixo e, quando necessário, apresentam
queixa em órgãos de defesa do consumidor, entre outras
ações. (Veja no gráfico a lista de ações
usada para aferir o grau de consciência de consumo.) Além
deste perfil, foram detectados comportamentos que vão desde
os considerados iniciantes, por demonstrarem algumas atitudes mais
cuidadosas, como verificar o prazo de validade dos produtos, até os
indiferentes, que nem sequer se preocupam em pedir nota fiscal.
Os iniciantes que totalizaram 54% afirmaram adotar de 3 a 7 atitudes.
Os que realizavam de 8 a 10 ações somaram 37% e foram
denominados comprometidos. Apenas 3% ficaram no grupo dos indiferentes
por adotarem de 0 a 2 comportamentos. Na pesquisa, também
foram feitas abordagens referentes à percepção
das pessoas sobre os principais problemas da sociedade, comportamentos
cotidianos, critérios de avaliação e escolha
de uma empresa ou produto, aspectos do consumo não-ligados
diretamente ao preço e perguntas relacionadas a análises
de opiniões, atitudes e valores.
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Em relação aos critérios de compra levantados,
alguns chamam a atenção como fato de a maioria dos
entrevistados apontar a contratação de deficientes
físicos como a ação empresarial que mais os
estimulam a adquirir produtos de empresas. Já a propaganda
enganosa foi a ação empresarial considerada mais
desesti-mulante à compra. Com certeza, muitos consumidores
já tiveram a surpresa de se deparar com um produto que tinha
pouca semelhança com o que foi anunciado, situação
que Maria de Lourdes traz no livro. Pedro gasta toda sua mesada
para comprar um carrinho que fazia tudo, abria e fechava portas,
acendia luz, subia e descia, mas somente na propaganda.
Mesmo com o percentual de apenas 6% de consumidores conscientes,
os resultados obtidos na pesquisa surpreenderam positivamente,
segundo Aron Belink. “Percebemos que quase metade, con-tabilizando
os comprometidos e conscientes, estão com grau de consciência
de consumo mais desenvolvido. E isso já é uma notícia
boa.” A pesquisa foi realizada com pessoas com faixa etária
de 18 a 74 anos, pertencentes às classes sociais A, B, C
e D em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife,
Belo Horizonte, Fortaleza, Salvador, Curitiba, Belém, Brasília
e Goiânia.
Driblando as armadilhas
Para fugir do consumismo desregrado, o cidadão tem que driblar
as armadilhas da indústria da propaganda e das convenções
comerciais. Além do natal, tem a páscoa, dia das
mães, dos pais, dos namorados e já tem dia da vó,
do vô, da sogra, do amigo e por aí vai. Maria de Lourdes
confessa que já foi um Pedro, e não era fácil. “Tinha
compulsão, comprava tudo o que via pela frente.” Ela
conta que a informação foi a principal ferramenta
para conter os impulsos e aprender a ter novas atitudes.
Segundo
Aron Belink, essas mudanças de atitude são
urgentes, principalmente quando o consumo diz respeito
aos recursos naturais. “Consumir
não é só comprar, é fazer escolhas
que repercutem na economia, na sociedade e no planeta”,
diz o gerente da Akatu. A afirmação que,
no primeiro momento, parece um tanto quanto exagerada vai
tendo
mais sentido quando ele explica que a relação
de consumo não se restringe ao ato de compra. Quando
se abre a torneira já é um exemplo emblemático.
Para se ter uma idéia, se o consumidor escovar os dentes
com a torneira aberta irá gastar 14 litros de água
quando poderia usar apenas 2 litros. Caso a população
de uma cidade de 200 mil habitantes deixasse a torneira aberta
ao escovar os dentes, seriam desperdiçados mais de 2
milhões de litros de água.
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Foto:
René Cabrales

Lourdes: informação é
ferramenta para conter
impulsos
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Na correria do cotidiano, há questões relacionadas ao consumo que
nem sequer são imaginadas pelas pessoas. No site da Akatu, a informação
de que ao comprar uma simples peça de roupa o consumidor pode estar contribuindo
para o trabalho infantil (prática proibida por lei e combatida internacionalmente) é,
no mínimo, surpreendente e assustadora, principalmente, quando se depara
com os números. Em torno de 296 mil crianças entre 5 e 9 anos e
1,9 milhão de adolescentes na faixa etária de 10 a 14 anos trabalham,
e cerca de 12% das crianças entre 5 a 17 anos não freqüentam
a escola. Belink ressalta que ao comprarmos um produto levamos para casa toda
a história daquela mercadoria, que pode ser a contribuição
para ações sociais das empresas ou o trabalho infantil. “Através
do consumo, as pessoas participam do mundo para o bem ou para mal, conscientes
ou não”, alerta Aron Belink.
Como nem sempre as coisas são o que parecem, empresas como Nike e Adidas
são denunciadas por terceirizarem fabricação com empresas
que contratam trabalhadores chineses, submetendo-os a condições
subumanas de trabalho, inclusive com agressões corporais e a maioria sem
contrato legal. Essa situação é levantada pela jornalista
canadense Naomi Klein no livro Sem Logo (Leia Extra Classe, 61, maio de 2002).
Quando a questão é irregularidades das empresas, o consumidor pode
se deparar com propaganda enganosa, poluição de rios, falsificação
de produtos e vários et cetera. As mais alarmantes, muitas vezes, são
cometidas por essas corporações multinacionais que se sentem completamente à vontade
em cometer esse tipo de práticas questionáveis em vários
países do mundo.
Foto:
Arquivo pessoal

Belink diz que a relação
de consumo não se
restringe ao ato
de comprar
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Criado em 1998, o
Instituto Ethos é uma
das organizações
não-governamentais que estimula a adoção de gestão
com Responsabilidade Social Empresarial (RSE) e certifica as empresas. A proposta é que
as empresas comprometam-se com o desenvolvimento sustentável, mantendo
uma relação ética e justa tanto com os funcionários
como com os clientes e também contribuindo para solucionar os problemas
sociais através de projetos educa-cionais, ambientais, sociais. Mesmo
que repleto intenções positivas para a sociedade, o debate referente à RSE
tem contradições, como o fato de a Souza Cruz, fabricante de
produtos nocivos à saúde, ser uma das 900 associadas do Ethos.
Marcelo Linguitte, gerente de Assuntos Institucionais e de Relações
Internacionais do Ethos, reconhece que há um dilema, mas alega que o
papel da ONG é garantir
e conscientizar as empresas a desenvolverem ações que contribuam
para o |
desenvolvimento sustentável. “Só não aceitamos empresas
de armamentos, e não cabe ao instituto julgar, mas estimular uma ação
responsável”, argumenta. Ainda é difícil prever se
esta é mais uma onda de certificação como as de qualidade
total que virou moda nos anos 80 e início dos anos 90, ou se realmente
as instituições irão assumir para si algumas responsabilidades
sociais, como contrapartida à sociedade. Caso contrário, “será só mais
uma onda”, frisa. Para separar o joio do trigo, só resta ao consumidor
a informação, lembra Linguitte.
A legislação brasileira é uma das mais avançadas
Em matéria de legislação, os especialistas
afirmam que o brasileiro dispõe de um dos códigos
de defesa do consumidor mais avançados. Segundo Ana Luísa
Ariolli, supervisora do atendimento Jurídico da Associação
Brasileira de Defesa do Consumidor – Pro Teste –, o
diferencial da legislação do Brasil em relação às
outras é que houve uma preocupação de prever
a relação de consumo em todas as nuanças sem
deixar nenhuma lacuna, o que permite a resolução
de questões diretamente entre fornecedor e consumidor. O
código é um minissistema que possibilita ao Procon
aplicar sanções administrativas, como fechar estabelecimentos
e computar multas”, avalia Ariolli.
Mesmo com possibilidade de atuar de forma incisiva, Osmar Seixas,
coordenador do setor jurídico do Procon-RS, afirma que nem
sempre o que está no papel funciona na prática. A
falta de acesso à informação por parte do
consumidor e a carência do quadro de recursos humanos no
judiciário e no próprio Procon não nos deixam
atuar de maneira satisfatória. Ainda assim, Seixas avalia
que muitos problemas são resolvidos com a intermediação
do Procon. As armadilhas para o consumidor estão por toda
parte, mesmo quando se trata de defender seus direitos. Muitos
pseudo-profissionais na área do direito acabam aplicando
golpes nas pessoas menos avisadas. “Em caso de dúvida,
a melhor opção para o consumidor é procurar
o Procon da sua cidade”, aconselha Ariolli.
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Abaixo, seguem as ações
selecionadas pelo Instituto Akatu para aferir o
grau de consciência do consumo:
01. Evita deixar lâmpadas acesas em ambientes
desocupados.
02. Fecha a torneira enquanto escova os dentes.
03. Desliga aparelhos eletrônicos quando não
está usando.
04. Costuma planejar compras de alimentos.
05. Costuma pedir nota fiscal quando faz compras.
06. Costuma planejar compras de roupas.
07. Costuma utilizar o verso de folhas de papel já utilizadas.
08. Lê rótulo atentamente antes decidir
a compra.
09. A família separa o lixo para a reciclagem.
10. Não costuma guardar alimentos quentes
na geladeira.
11. Comprou produtos feitos com material reciclado
nos últimos seis meses.
12. Comprou produtos orgânicos nos últimos
seis meses.
13. Apresentou queixa a algum órgão
de defesa do consumidor.
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 Informações
sobre consumo consciente – www.akatu.org.br
 Informações
sobre responsabilidade social empresarial – www.ethos.org.br
 Informações
sobre defesa do Consumidor – Pro
Teste
Associação Brasileira de Defesa do
Consumidor www.proteste.org.br
 PROCON-RS - www.procon.rs.gov.br – Rua Carlos Chagas, n° 55.
Centro – Porto Alegre – CEP. 90030-020.Para
fazer uma reclamação, o horário é das
9h às 17h. O cidadão deve levar documentos
que comprovem a relação de consumo
(nota fiscal de compra, contratos, recibos, etc.).
Informações Educativas: Disque 151.
Disque PROCON-RS:(51) 3286-8200.
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