mercado da Educação a distância no Brasil
vive momentos de glória. Em três anos,
o número de alunos cresceu em 150% e o
de novas de instituições, 30%. De 2004 a 2006,
o total de matrículas saltou de 309.957 para
778.458, e o de novas escolas, de 166 para 225,
de acordo Anuário Brasileiro Estatístico de
Educação a Distância (Abraed) de 2007, elaborado
pela Associação Brasileira de Educação
a Distância (ABED). Porém, a mesma glória
não se pode garantir aos alunos que optam
por essa modalidade nem aos profissionais que
atuam no setor. Sem fiscalização e com regulamentação
frágil, a qualidade do ensino e as
condições de trabalho ficam à margem das estatísticas
de um segmento mercadologicamente
promissor para empresários nem sempre comprometidos
com a qualidade da Educação. Obviamente,
que nesse cenário há boas instituições,
que acabam prejudicadas com a precariedade
de controle. Na prática, o que vale é a
velha concepção do laissez-faire, defendida pelo
economista Adam Smith, ou seja, o mercado se
auto-regula. Apesar de recentemente o próprio
ministro Fernando Haddad ter parafraseado uma
campanha da Confederação de Trabalhadores
em Educação (Contee) ao bradar em público
“
Educação não é mercadoria”.
Os Referenciais de Qualidade para a Educação
Superior a Distância, lançados, em agosto último,
pela Secretaria da Educação a Distância
(SEED), do Ministério da Educação
(MEC), exemplifica o cenário de frouxidão na
legislação brasileira para o setor. De acordo
com informações publicadas no próprio site
do
MEC (http://portal.mec.gov.br/seed), o documento
propõe ser “um referencial norteador para
subsidiar atos legais do poder público no que se
referem aos processos específicos de regulação,
supervisão e avaliação da modalidade citada”.
Se a intenção é boa, ele deixa brechas que
podem
interferir diretamente na qualidade, como
a falta de exigência da presença de docente nas
diversas etapas do processo de aprendizagem dos
alunos. Para fazer o acompanhamento nos pólos,
o documento aponta apenas para a necessidade
de ter tutores – presenciais ou a distância – mas
não explicita a obrigatoriedade de formação
docente. No entanto, o papel que esses profissionais
desenvolvem é estratégico para garantir a
qualidade. Entre as atribuições pontuadas, estão
o esclarecimento das dúvidas dos estudantes,
participação na seleção do material
didático
e no processo de avaliação. Uma das únicas
exigências
pinceladas, de forma ampla, é o desenvolvimento
de planos de capacitação do corpo de
tutores, sem, no entanto, especificar de que forma
e com que freqüência isso deve ser feito.
Carlos Eduardo Bielschowsky, secretário da
SEED, pontua que o documento é importante
para apontar diretrizes de padrão de qualidade. “Ele
foi discutido por diversos pedagogos e
tem uma representação ampla. No que diz respeito
ao quadro de docentes, ele acredita que
os referenciais, juntamente com a avaliação da
Educação Superior que vem sendo feito através
Sistema Nacional de Avaliação da Educação
Superior (Sinaes), vão garantir que o corpo
docente seja qualificado. No entanto, sabese
que esse processo de avaliação vem se arrastando.
Iniciado em 2004, ainda não conseguiu
concluir sequer a primeira etapa, que é a visita às
instituições. No caso da EaD, a situação é ainda
mais complexa, porque há muita dificuldade de
avaliar os pólos, que estão espalhados pelo Brasil
inteiro e abrem e fecham rapidamente.
Gaudêncio Frigotto, professor da faculdade
de Educação da Universidade Estadual do Rio
de Janeiro, critica a forma com a Educação a
distância está sendo integrada nas políticas
públicas e regulamentada para a iniciativa. “Caímos
no fetiche de que tecnologia pode resolver todos os problemas da
demanda reprimida, é
como se para isso só precisássemos
apertar um botão. Esse processo está sendo
mediado sem a mínima garantia de qualidade”,
avalia. Ele ressalta que a presença de
docentes é fundamental para garantir uma
formação de fato, não só apresentar
melhores índices educacionais do país. “Ter
professores qualificados é um pré-requisito indispensável.
Não podemos pensar que somente a
tecnologia pode resolver questões como convivência,
integração, dúvidas e debates inerentes
ao processo de aprendizagem”, pontua.
Segundo Frigotto, a EaD hoje é preconizada
por organizações internacionais como uma
via importante de crescimento do mercado
educacional, onde o que vale é vender a mercadoria,
de boa ou má qualidade”. Indicada
pela Organização Mundial do Comércio
(OMC) como o grande filão da Educação,
no Brasil, ele representa o filé mignon do setor,
mas está sendo colocado na mão do mercado,
com pouca vivência na questão da
regulação”, ressalta.
Setor marca presença em todos
os níveis
educacionais
E não é só no Ensino Superior que a Educação
a distância conquista
a cada ano uma fatia maior do mercado. Na Educação
Básica e nos
cursos técnicos, o número de alunos inscritos em
instituições autorizadas
pelos Conselhos Estaduais de Educação apresentou
crescimento de
30% . Em 2006, o total de matrículas era 202.749 contra
150.571 em 2004.
Na educação de jovens e adultos e ciclo básico,
são ofertados 99 cursos, e
nos técnicos, 66. Porém, esse número pode
ser ainda maior devido à explosão
que tem ocorrido no número de convênios, outro fenômeno
registrado
no processo de ocupação do mercado.
De 2004 a 2006, os acordos firmados pelas instituições
de ensino para
ministrar seus cursos, nas suas mais variadas formas, cresceu 264%.
Tal possibilidade de expansão torna ainda mais difícil
fiscalizar a qualidade
da oferta. No Rio Grande do Sul, o Conselho Estadual de Educação
(CEED) autorizou o funcionamento de 20 escolas, que através
de parcerias
se instalam em diversos municípios do estado. Matéria
publicada no
Extra Classe em 2004 comprova a dificuldade de fiscalizar a situação
e a
liberdade com que as instituições podem atuar, como
era o caso da Rede
Cipel que funcionava através de franquia, inclusive sem
a autorização do
CEED. Leia: Escola atende alunos do Ensino Fundamental sem autorização –
http://www.sinprors.org.br/extraclasse/out04/educacao2.asp.
Vitalina Gonçalves, membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação
e presidente do Sindicato dos Professores Municipais de Gravataí,
denuncia que, principalmente, no que diz respeito à educação
de jovens e
adultos de nível médio a oferta vem se transformando
em um grande mercado
de venda de certificados. “Nos municípios, onde não
chega nenhum
tipo de fiscalização, essa realidade está dada.
Como o mercado de trabalho
impõe a necessidade do candidato ter pelo menos o Ensino
Médio, as
pessoas vão concluir o curso somente para receber certificado”,
lamenta.
Região
Sul contabiliza o maior
crescimento do país
De acordo com o relatório
da Associação
Brasileira da Educação a Distância,
o Sul
do país assumiu o primeiro lugar no ranking
entre as regiões que mais concentram alunos
de EaD. Para se ter uma idéia, em 2006,
do total de 778.458 estudantes matriculados,
258.623 estavam concentrados na região
Sul, o Rio Grande do Sul, o índice de
crescimento é estrondoso. O número
de matrículas
pulou de 2.618 em 2004 para 60.642
em 2006. Cecília Farias, diretora do Sinpro-RS,
avalia que o risco de aumentar apenas
formalmente os índices de escolaridade é enorme,
já que a grande maioria de matrículas
são em instituições privadas
totalmente
desconhecidas, que se instalam em precárias
condições de infra-estrutura e sem
os recursos
humanos necessários. “O Brasil vai aumentar
o número de graduados, mas isso não
significa que essas pessoas, de fato, sentirão
um
diferencial em suas vidas, tampouco terão
mais
chances de conseguir melhores empregos. Os
empregadores exigem, além do diploma, competências
que cursos a distância desqualificados
não conseguem oferecer. O mais lamentável é a
frustração de grande parte dos alunos
que procura
essa modalidade, são trabalhadores que pagam
mensalidades com muito sacrifício na expectativa
de ascensão social”, ressalta.
Nos últimos anos, o Sinpro-RS vem realizando
várias ações para alertar a
sociedade e o
governo sobre a seriedade dessa situação
no
que diz respeito à qualidade do ensino
ofertado por essas instituições que
estão se
espalhando rapidamente no país. Em 2006,
junto com outras entidades do Rio Grande
do Sul, a direção do sindicato participou
da
elaboração e entrega do Manifesto em
Defesa
da Qualidade da Educação no RS, para
o ministro da Educação, Fernando Haddad,
no final de dezembro de 2006. Além do
pedido de maior fiscalização nas instituições,
o documento solicitou critérios legais
mais firmes para a abertura dos pólos, o que
foi conteúdo da Portaria Nº 2, de 10
de
janeiro de 2007.
SEMINÁRIO – O processo de contração
dos professores que atuam nessa modalidade é
outra questão que vem sendo
debatida pelo Sindicato. No próximo dia 8
de dezembro, o Sinpro/RS promove um Seminário
sobre Educação a Distância. Além
de debater sobre a explosão da oferta, avaliação
e expectativas, os direito dos docentes
também estarão na pauta. As propostas
elencadas no encontro serão integradas à pauta
de negociação de 2008 entre Sinpro/Sinepe.
Mais detalhes sobre o evento na
página 16 desta edição.
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