Da mão
para a boca
Pelo menos três em cada
dez crianças que cursam o
Ensino Fundamental em escolas
privadas brasileiras estariam
acima do peso recomendado pela Organização Mundial
de Saúde (OMS). Inúmeras
pesquisas desenvolvidas no país e no mundo apontam para
essa realidade e indicam que a obesidade infantil tem
aumentado de forma significativa, principalmente nas últimas
quatro décadas. O problema – e muitos pais ainda
não estão atentos a isso – é que uma
criança acima do peso pode representar complicações
sérias à saúde na
idade adulta. A dificuldade de mães, pais e educadores em
garantir uma alimentação equilibrada nessa faixa
etária
enfrenta barreiras como mudança de hábitos alimentares,
influência dos meios de comunicação e resistência
das
próprias crianças. A busca de soluções
para o crescimento da obesidade infantil requer, portanto, um esforço
conjunto em casa e, mais do que nunca, das escolas e de políticas
públicas.
Por Maurício Boff

estudo
Prevalência da obesidade em escolares
de Salvador (2003), realizado por uma
equipe médica baiana com estudantes de
cinco a dez anos de idade em escolas das redes
pública e privada indica uma realidade que pode
servir de parâmetro para outras capitais brasileiras.
Em Salvador, a pesquisa indica que os
alunos obesos nessa faixa etária em escolas privadas
chegam a 30%. Se comparado ao resultado
em escolas públicas, que registraram 8% de
obesidade na mesma faixa etária, o resultado é bastante
superior.
Estudos definem
o nível socioeconômico
como um dos fatores
que influenciam
a obesidade.
Levantamentos
da OMS
apontam para o
crescimento da
obesidade infantil
em torno de
10 a 40% na maioria
dos países europeus nos últimos dez anos.
Além disso, o aumento de peso ocorre com maior
freqüência nos primeiros anos de vida, entre
cinco e seis anos, e na adolescência (Obesidade
infantil: como podemos ser eficazes? do Departamento
de Pediatria da Faculdade de Medicina
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
/ Famed-Ufrgs).
| Foto:
René Cabrales |
|
Obesidade
infantil é um problema global que
preocupa pais e educadores |
O professor e endocrinologista Rogério Fridman,
do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
(HCPA), afirma que o risco de uma criança obesa
continuar
acima do peso
na vida adulta é
muito grande.
Fridman indica
estudos
que afirmam
que mais de 3/4 das crianças
obesas irão se
tornar adultos
gordos. A nutricionista
do
Hospital São
Lucas da Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul (PUCRS), Raquel Dias,
também concorda que a obesidade em homens
e mulheres começa na infância. “Uma vez obesa,
a criança adquire a propensão para doenças
que se manifestam na fase adulta, como
diabetes, hipertensão e problemas cardíacos”,
diz. Fridman ainda ressalta que já existem adolescentes
com diabetes tipo II, hipertensos e
com níveis alterados de colesterol (doenças que
até algumas décadas atrás só eram presenciadas
em adultos). A obesidade também tem repercussão
direta no desenvolvimento da infância. “Crianças
obesas têm maior incidência
para problemas de ordem psicológica”, explica o endocrinologista.
A alimentação desequilibrada
acaba gerando, indiretamente, problemas ao
aprendizado. A diretora do Colégio Israelita, de
Porto Alegre, Mônica Timm de Carvalho, diz
que a criança acima do peso ideal pode ter dificuldades
respiratórias, como a falta de fôlego, o
que limita a participação em algumas atividades
físicas. “A criança fica chateada porque não
consegue participar ou não é escolhida pelos colegas
por não corresponder ao exercício”,
explica.
Educação alimentar na família
e na escola
Os fatores que levam ao desequilíbrio alimentar
são os mais variados – e não passam apenas
pela comida oferecida dentro de casa. A professora
do Ensino Fundamental do Colégio Rosário,
Dinah Quesada Beck, afirma que a participação
dos pais é essencial, mas defende o papel da escola
em sua função social de educar. Essa, aliás, é a
orientação do próprio corpo pedagógico
da instituição
de Ensino Fundamental e Médio da capital
gaúcha. Uma proposta sugerida por professores –
e aceita pelos pais de alunos – deu início
ao ensino para uma alimentação saudável no
segundo
semestre de 2006. A educadora conta que
tudo começou com a observação do que os estudantes
compravam no bar da escola. A procura
recorde era por balas e chicletes. “As crianças
lidam cada vez mais com dinheiro, o que dá autonomia
para elas comprarem o que querem”, afirma
Dinah.
No primeiro ano, o resultado não foi positivo.
A professora conta que o cardápio não levou em
conta o que os alunos comiam dentro de casa. “Eles
sugeriram batatas fritas e hambúrgueres, o
que me fez abrir os olhos para o que comem em
casa”, diz. Este ano, a proposta nasceu diferente.
A idéia do projeto
Educar
para o Pensar, aplicada a 115 alunos de oito anos
de idade da segunda série do Ensino Fundamental, é
desencadear o pensamento dos alunos sobre
o que eles comem em casa e, também, na
escola. Os alunos produzem um cardápio para a
alimentação diária durante o recreio, tanto
para
quem leva merenda, como para quem compra no
bar da escola. Os pais aprovaram a iniciativa e
uma lista diferenciada de lanches foi colocada
em prática. “Exploramos o que os alunos gostam
de comer, conversamos sobre os alimentos, a importância
de uma alimentação com frutas, verduras,
cereais e menos salgadinho”, conta. Há o
dia da fruta, do carboidrato, do cereal, da sopa,
do iogurte. Mas para a idéia do cardápio não
parecer
opressiva, dias de lanche livre foram implantados. “É
quando elas comem pizza, salgado
e salgadinhos”, diz.
| Foto:
Divulgação/Col. Marista do Rosário |
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Alunos
das séries iniciais do Colégio Rosário, na capital,
participam de atividade educativa
|
O que parece um dos grandes trunfos da iniciativa é
como a professora consegue garantir o
engajamento dos alunos. “Nossa combinação é através
da conquista e não por obrigação”,
afirma.
O convencimento dos alunos é desenvolvido
com atividades e brincadeiras. Uma delas é a produção
de sanduíches saudáveis em sala de aula.
A brincadeira de vedar os olhos, testar o gosto e a
adivinhar uma fruta ou verdura dá bons resultados. “As
crianças acabam aprendendo a gostar
de comidas diferentes e os pais ficam surpresos”,
aponta. A proposta do Colégio Rosário contou com
o apoio do ecônomo do bar da escola.
Um acerto entre eles levou o proprietário a oferecer
produtos naturais aos alunos. Iogurte e salada
de frutas são facilmente identificáveis. Porém,
nem
todo bar de escola oferece produtos definidos como
saudáveis. E, muitas vezes, a não-oferta surge muito
mais pelo desinteresse dos diretores de instituições
de Ensino Médio e Fundamental que ainda não assumem
o compromisso de enfrentar o combate ao desequilíbrio alimentar
com propostas
educativas. Fridman destaca
que a educação para a
saúde é a chave. “A criança
não pode receber a informação
na sala de aula, ir
ao bar e ver a antítese do
discurso do professor”,
diz.
Fast
food e brinquedos para seduzir as crianças

Um exemplo de política
pública para tentar regular a venda de produtos
menos saudáveis a crianças e adolescentes em
bares e lanchonetes é o Projeto de lei 354/2007,
de autoria do deputado estadual Fabiano Pereira
(PT), que prevê a proibição à comercialização
de alimentos que tenham atrelados a eles a venda
de coleções, brinquedos ou presentes. O parlamentar
defende que o alimento vem em primeiro
lugar do que o brinde. “Crianças e adolescentes
são mais vulneráveis aos apelos publicitários
e, por isso, são mais facilmente atraídos por
esses métodos”, coloca. A proposta tem como argumento
o combate à obesidade, considerada um
verdadeiro problema de saúde pública. O projeto
de lei gaúcho, protocolado em setembro deste
ano, se baseia na proposta do deputado estadual
Roberto Felício (PT-SP) que, por sua vez, repete
experiências de países como Espanha, Alemanha
e EUA no combate a produtos de menor valor
nutritivo, mas que encontram na publicidade um
apelo ao consumo. O texto sugere que a multa
ao proprietário por esse tipo de comércio chegue
a quase R$ 10 mil, aumentando em até dez vezes
no caso de reincidência. Nem bem iniciaram os
debates dentro na Comissão de Saúde da Assembléia
Legislativa, o projeto de lei já encontra resistência
fora do parlamento. O presidente do Sindicato
da Hotelaria e Gastronomia de Porto Alegre
(Sindpoa), Daniel Antoniolli, defendeu recentemente
que um estabelecimento pode doar
brindes e presentes desde que não ofereçam riscos à
integridade física e emocional dos consumidores.
Pereira pretende ampliar o debate nas
audiências públicas da comissão. “Precisamos
saber
o que a sociedade pensa sobre isso”, alerta.

O contraponto ao resultado sugerido pela proposta
legislativa, que prevê a restrição à venda
de alimentos atrelados a brindes nos bares de escolas,
pode ser avaliado no Colégio Israelita.
Apesar de a direção estar trabalhando pela orientação
a uma alimentação equilibrada, as resistências
nascem, às vezes, no próprio interior das
famílias. Há dois anos, a idéia foi implantada
depois
de a diretora enviar uma carta aos pais comunicando
as mudanças em relação às ofertas no
bar.
Para a surpresa dos professores, alguns pais não apoiaram
a iniciativa. Desde então, está sendo necessário
bastante tolerância e jogo de cintura. “Não
podemos tolher a liberdade das pessoas, mas é nosso
dever oferecer uma proposta diferenciada de vida”,
explica. Para isso, a proposta de uma vida saudável
são temas correntes nas disciplinas de
Ciências, Biologia e Educação Física.
A diretora lembra que no acerto com o ecônomo foi exigido
que
frutas, sucos, iogurtes e sanduíches
naturais deveriam ter um maior destaque
visual aos alunos na hora da compra. Durante o
almoço, as frituras foram substituídas por alimentos
grelhados ou assados; o bufê passou a oferecer
diferentes tipos de saladas, frutas e grãos. As porções
de salgados e doces foram reduzidas para
tamanhos menores. A alimentação judaica casher
(ou kosher), que prima por ingredientes saudáveis
e numa preparação baseada nas leis sagradas
da Torá e na Halachá, também passou a
ser vendida aos alunos. Apesar das mudanças
serem visíveis, polenta é vista ao meio-dia e balas
e chocolates podem ser comprados. “Ainda
não conseguimos fazer toda mudança que queremos”,
aponta Mônica. Entre as metas para os
próximos anos, a idéia é que o bar deixe de
vender
risolis, polenta e batata frita, e aumente a
oferta de sucos e outros produtos naturais.
| Propaganda
também contribui para o problema |
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A propaganda que leva a criança
ao consumo
de produtos altamente energéticos,
como hambúrgueres, bolachas
recheadas com gordura hidrogenada
(gordura trans) e refrigerantes, é
ainda um adversário de peso
frente às propostas de educar
para uma alimentação equilibrada.
Principalmente, a publicidade influencia
as compras de famílias com menor
taxa de escolaridade. Lançada no primeiro
semestre do ano, a pesquisa da psicóloga
Paula Carolina Barboni
Dantas (USP-Ribeirão Preto) conclui que a
televisão
contribui
para o aumento da obesidade entre
crianças e adolescentes. Para
chegar a essa afirmação, Paula traçou
o perfil de 816 famílias com filhos
entre sete e 14 anos que estudam
em instituições municipais e estaduais
da cidade paulista. O
curioso é que os pais, que possuem
apenas o Ensino Fundamental
e ganham um salário mínimo,
não planejam as compras.
Em recente entrevista, a pesquisadora
afirma que eles compram
porque assistiram na televisão.
A psicóloga relacionou a obesidade infantil à
quantidade de propaganda de alimentos
ricos em gordura, açúcar, sal e óleo
exibida
na televisão. Para regulamentar a propaganda
na televisão e em outros meios de comunicação
impresso e radiofônico, a Anvisa
(Agência Nacional de Vigilância
Sanitária) lançou uma consulta
pública sobre a regulamentação
de publicidade com
alimentos calóricos. A consulta
pública n° 71 foi lançada em
novembro de 2006 e encerrada
em abril deste ano. A iniciativa,
que prevê uma série de restrições à
propaganda (como o veto à promoção
dos alimentos nas escolas),
ainda aguarda virar uma
resolução.
Fridman destaca que
apesar das propostas de políticas
públicas e ações diretas de
algumas escolas, não existe nenhum projeto
educacional sobre alimentação saudável
que interaja com a família. “O
sedentarismo e o desequilíbrio
alimentar da criança é
a falta de exemplo na família”,
defende. Em um período de
final de ano, onde se prega o tempo
de balanço quanto a conquistas
e acertos do ano que logo termina,
e se faz projeções e se estipula
metas para 2008, pensar em como sua escola e
pais podem enfrentar a incidência da obesidade
infantil e juvenil vem a ser um excelente
exercício de lição de casa.
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| Foto:
René Cabrales |
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Crianças
consomem alimentos de valor nutritivo
questionável
para adquirir os brindes oferecidos
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