
O
Cerzidor de Palavras

aparência é tudo.” Podia
ser um dístico na lojinha do homem
que consertava palavras rotas e descosidas, mas nem
placa havia.
Era o murmúrio na entrega do serviço a mais um cliente
satisfeito.
Um mestre na arte de remendar idéias mal costuradas e
afins. (Isso foi antes do Efeito Shopping, que fez sumir no seu
entorno o cinto de utilidades da cidade: armarinhos atenciosos,
lojinhas serviçais, balcões prestativos.)
Não se sabe se era quieto por natureza ou dever de ofício.
Sabe-se da clientela incessante. Que sua maior fonte de renda
era cerzir desculpas esfarrapadas, por dois tipos de clientes:
os
que iriam se desculpar e achavam que não estavam se apresentando
bem, e os que tinham recebido péssimas desculpas e queriam
torná-las desculpáveis. No dia seguinte (seu prazo
mais longo),
saíam já desculpados ou se desculpando impecavelmente.
E o dia se ia, na fila de encomendas típicas. Comuns os
fregueses
de papo furado. O cerzidor, que recuperava crédito inclusive
em conversa fiada, sumia nos fundos e de lá voltava com
um papo
quase novo: coerente, denso, embasado – sem furos. Tudo por
uma módica quantia. “Prefiro ganhar no volume”,
murmurava.
Vez em quando apareciam escritores e jornalistas. Textos desalinhados
que ele alinhava na hora. E surgiam críticos e
resenhadores com elogios rasgados, querendo-os íntegros.
O cerzidor não falhava.
Em vão tentaram esmiuçar sua habilidade. Jamais revelou
nada
nem nunca permitiu visitas atrás do biombo. Quem espichasse
o pescoço, só veria as pilhas de expressões
gastas e frases surradas, à
espera da ansiada restauração.
Toda uma vida de cerzimentos, óculos na ponta do nariz,
bigode à
la Dr. Macarra. Anos e anos pegando explicações disformes
e
deixando-as nos conformes. Alinhavando pensamentos para autores
iniciantes (como eu, na ocasião). Dedicação
sem-fim a sínteses
esgarçadas, pregações despregadas, discursos
esfiapados etc.
Até que um dia, ponto final. Fora cerzir no além,
disse um dos
piores ex-clientes. À frente da porta lacrada, papos furados
sobre
a Morte. Lembranças descosturadas. Frases desbotadas de
pesar.
E ninguém para recompô-las.
Só uma vez o vi recusar trabalho. Alguém indagou
se ele podia
dar um jeito numa declaração. Era uma mentira deslavada.
O
cerzidor arqueou o olhar, sequer tocou naquilo. Num menear de
cabeça, a decisão. E se justificou, ética
e tecnicamente: “– Certas
coisas eu não faço.”
