
Por
que precisamos da Uergs?
Na contramão do interesse público em fomentar o desenvolvimento
regional e a inclusão social na sociedade gaúcha,
prioridades reconhecidas pela maioria das lideranças políticas
deste estado, alguns cidadãos buscam inviabilizar o
fortalecimento da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, a
Uergs. Curiosamente, o argumento é pouco moderno,
pois sugere que o estado financie a formação profissional
dos cidadãos desafortunados economicamente através
de
bolsas de estudo nas universidades privadas, comunitárias
ou não. Esta é uma política que se assemelha
a subsidiar
com a receita pública o patrimônio das instituições
privadas de ensino. Aliás, uma comparação
honesta dos custos
de um acadêmico em uma vaga na instituição
pública Uergs e nas privadas deve levar em conta a ocupação
normal
das vagas em ambas instituições, conforme a realização
de vestibulares regulares. Desde 2005, vários cursos na
Uergs foram impedidos de realizar vestibulares, reduzindo o número
total de acadêmicos e elevando presentemente
o custo do acadêmico nessa universidade. E este cenário
pode agravar-se diante da incerteza do Vestibular 2008.
Mais importante, devemos lembrar que o investimento na estruturação
da Uergs é investimento direto no patrimônio
público, acessível a todos os cidadãos.
Por Celso Silva, Marcelo Christoff e Paulo Cesar Conceição*

e
fato, ao longo de seis anos a
sociedade gaúcha tem possibilitado
que milhares de jovens
alcancem uma formação universitária
de bom nível na Uergs.
Mais do que isso, nossa universidade
é
pioneira – e única na federação
brasileira – na reserva de
50% das suas vagas para candidatos
com hipossuficiência sócioeconômica
(renda familiar per
capita de até R$ 441,86 em 2007),
além de 10% para candidatos com
necessidades especiais. A concepção
multicampus da Universidade
Estadual, distribuída em mais
de 20 unidades funcionais, e a
participação estatutária da comunidade
em seus Conselhos Consultivos
Regionais, promovem o
atendimento de demandas em todas
as regiões do estado. Cada
Unidade busca constituir-se como
um centro universitário para a reflexão,
debate e encaminhamento
de estratégias para o desenvolvimento
local e regional. Exemplo
disso verifica-se na diversidade
dos cursos oferecidos, desde a
formação pedagógica, ainda carente
no estado, passando pela
forte ênfase no foco agroindustrial
até os novos horizontes do desenvolvimento
econômico, presentes
na Biologia Marinha, Informática,
Automação e nas engenharias de
Energia, Bioprocessos e Biotecnologia,
entre outros.
A Uergs foi criada por decisão
unânime dos deputados estaduais em 2001. Para esta decisão
certamente contribuiu a baixa participação
de vagas públicas no ensino
de terceiro grau gaúcho, ainda
hoje inferior a 10% e, particularmente,
1% pela Uergs. Se a implantação
simultânea de um conjunto
grande de Unidades contribuiu
para dificultar a consolidação
da nossa universidade estadual
pública, esta amplitude também
despertou o interesse de várias
comunidades para a perspectiva
da inclusão social pela
melhoria local da formação de
seus cidadãos. Neste caminhar,
centenas de docentes e técnicos
sucederam-se nas tarefas de estabelecer
as condições possíveis
dentro dos minguados orçamentos
sucessivos, propostos e nãoefetivamente
destinados, convivendo
com o congelamento dos
salários desde 2002 (perda integral
da inflação do período, ou
seja, menos 50% do poder aquisitivo
dos salários originais). A
par disso, a incerteza institucional
da Uergs foi mantida
até 2007 por contratos emergenciais
com todos os docentes.
Neste sentido, a lentidão do processo
de Concursos para Docentes
Permanentes em andamento é
também agravada pela falta de
agilidade das nomeações dos
concursados pelo governo (os
contratos permanentes existentes
atingem menos de 50% do quadro
de docentes previsto).
Quando questionamos a eficiência
do Estado em promover
e defender a justiça social, referimos
sua dimensão moderna e
democrática, onde é responsabilidade
de toda a sociedade compartilhar
sua gestão, rotineiramente
configurando um governo
a cada nova eleição. Portanto,
para solucionarmos a longa história
da crise orçamentária do
estado do Rio Grande do Sul, é preciso lembrar
e verificar onde
o foco das políticas públicas determinou
desperdício ou
inadequação, não restringindo
esta análise apenas às despesas
na área social e trabalhista, mas
também avaliando os subsídios a
segmentos econômicos que reduzem
as receitas orçamentárias e
não produzem o retorno social
esperado.
Situando a Uergs neste cenário,
hoje somos 160 técnicos e cerca
de 230 docentes trabalhando
em 24 unidades universitárias,
com o apoio das comunidades
municipais e uma parcela prevista
de cerca 37 milhões no Orçamento
Estadual 2008 (10% inferior
ao previsto em 2007). Nestas
condições, a Uergs propicia
o acesso a 25 diferentes cursos
de graduação para mais de mil acadêmicos.
A crescente articulação
da Universidade Estadual
com as demandas regionais pode
ser verificada na contribuição dos
seus acadêmicos em estágios nas
empresas privadas, ONGs e instituições
públicas locais, bem
como nas centenas de profissionais
egressos absorvidos no mercado
de trabalho. Simultaneamente,
em apenas seis anos de
vida, cerca de uma centena de
projetos (85), desenvolvidos por
diferentes grupos de pesquisa
(8), geraram 56 artigos publicados
em periódicos reconhecidos.
Além disso, a existência de convênios
com todos os principais ó
rgãos e fundações do estado
gaúcho comprova a envergadura
e importância desta instituição
nas políticas públicas do Rio
Grande do Sul.
É
importante que a cidadania
gaúcha reflita sobre as tentativas
divulgadas nos jornais da capital
para reduzir ou eliminar este
patrimônio da sociedade gaúcha
que é a Uergs, única Universidade
Estadual Pública com participação
comunitária local.
Onde estes recursos orçamentários
estaduais podem ser aproveitados
melhor do que na Universidade
Estadual de todos os gaúchos? Haveria um paralelo na dimensão
do retorno social à sociedade
gaúcha que uma Universidade
Estadual Pública, gratuita
e de qualidade, capaz de integrar
mais cidadãos nesta sociedade,
com reflexos incomparáveis
na seguridade e bem-estar de
todos? Considerando os valores
oficiais de mais de 3 bilhões de
reais que vem há anos subsidiando
alguns segmentos econômicos
no estado, podemos arbitrariamente
eliminar um patrimônio
público que consome cerca de
1% daquela cifra? Ou será possível
a transferência da função de
Estado de gestor público da Uergs
para entidades privadas ou do
terceiro setor, como as organizações
sociais de interesse público
(OSCIPs), seguindo o exemplo
dos serviços rodoviários hoje concedidos
mediante pedágios? Menos
ainda, simplesmente transferir
a receita pública para o
patrimônio privado utilizando os
cidadãos desafortunados como
transportadores de bolsas de estudo?
Nós, cidadãos gaúchos, que
buscamos uma sociedade com
mais desenvolvimento regional e
inclusão social, trabalhamos, sabemos
e acreditamos que a nossa
recente Universidade Estadual
do Rio Grande do Sul é um bom
investimento público para alcançarmos
estes objetivos.
* Professores Doutores, Membros Representantes
no Conselho Superior Universitário da Uergs e na
Aduergs- Associação dos Docentes da Universidade
Estadual do Rio Grande do Sul.