Ilustração
de Claudete Sieber sobre foto de Mauro Mattos/Palácio Piratini
Quando Yeda Crusius (PSDB) assumiu o cargo de governadora do Estado
no
dia 1° de janeiro de 2007, em uma cerimônia realizada
no Palácio Piratini,
ocorreu uma pequena gafe com a bandeira do Rio Grande do Sul, sem
maiores repercussões. Yeda foi comemorar a posse, na sacada
do palácio,
com uma bandeira do RS nas mãos. Com as duas mãos,
mostrou-a a seus
apoiadores que estavam na rua. A bandeira estava virada de cabeça
para
baixo. Se olharmos para esta cena hoje, ela aparece como um símbolo
profético do que estava por vir nos próximos meses.
A vida política do RS
foi virada de cabeça para baixo, presenciando cenas “nunca
antes vistas na
história deste estado”, para usar uma expressão
cara ao presidente da
República. As surpresas iniciaram mesmo antes da governadora
tomar posse,
com a briga pública entre ela e o vice-governador, Paulo
Feijó (DEM).
ogo
após a campanha eleitoral, Feijó denunciou que havia
sido censurado durante a
campanha e impedido de expressar suas opiniões favoráveis às
privatizações. Na campanha,
reproduzindo o discurso utilizado pelo candidato tucano à presidência
da República,
Geraldo Alckmin, Yeda Crusius prometeu que não iria privatizar
patrimônio público
no RS. Além disso, prometeu que não iria propor aumento
de impostos, dizendo que essa
era uma prática do “velho jeito de governar”.
Mas, mesmo antes de assumir, em dezembro de
2006, ela apresentou um projeto de aumento de impostos à Assembléia
Legislativa. Feijó e
um conjunto de aliados de Yeda rebelaram-se e fizeram oposição
a um governo que sequer
havia começado. O projeto de tarifaço acabou derrotado,
cena que iria se repetir menos de um
ano depois, quando uma nova proposta de aumento de impostos é derrotada
na Assembléia.
As marcas
do "novo jeito de governar"
O atual governo foi eleito com um discurso
baseado em três conceitos: novo jeito de governar,
fazer mais com menos e transparência na
gestão pública. Ao final do primeiro ano, esses
três conceitos foram bombardeados pela realidade
dos próprios atos do Executivo. O “novo
jeito de governar” acabou sendo traduzido por
uma sucessão de conflitos em áreas estratégicas
do serviço público: Segurança pública,
Educação
e Meio ambiente. Apresentado, nos primeiros
meses de governo, como uma vitrine
desse novo jeito de governar, o secretário de
Segurança, Ênio Bacci (PDT), acabou sendo
demitido em meio a uma troca de denúncias
envolvendo ele próprio e o delegado de polícia,
Alexandre Vieira. Na área ambiental, a
Fundação Estadual de Proteção Ambiental
(Fepam) também foi palco de denúncias e demissões.
Na Educação, a crise do transporte
escolar e a proposta de enturmação marcaram
os primeiros meses de governo.
A fragilidade maior do principal conceito
do governo Yeda acabou revelando-se mesmo
na relação que estabeleceu com sua própria
base aliada na Assembléia Legislativa. A
derrota estrondosa que o governo sofreu na
segunda tentativa de aprovar uma proposta
de aumento de impostos, em novembro deste
ano, escancarou a incapacidade do Executivo
de fazer valer a maioria que tem no Parlamento.
Partiram de deputados aliados do governo
as mais duras críticas e reclamações
sobre falta de diálogo e negociação por parte
do Palácio Piratini. No final, sobraram palavras
duras como “traidores” e “traíras” para
os deputados da base aliada que votaram com
a oposição. A derrota na Assembléia obrigou
a governadora a rever toda sua estratégia
política de governo e implementar uma reforma
no secretariado ao final do primeiro ano
de governo, para tentar recuperar alguma força
política no Parlamento.
"Fazer
mais com menos"
O conceito de “fazer mais
com menos” também
sai enfraquecido ao final do primeiro ano de governo.
A queda na qualidade
dos serviços públicos, motivada pelo
corte linear de 30% no orçamento de todas
as secretarias, transformou o Palácio
Piratini em um palco de protestos de servidores
públicos. A área da Segurança é um
exemplo dramático. O governo conseguiu
a façanha de unificar todas as associações
de classe da Brigada Militar e a
Polícia Civil. Policiais civis e militares já fizeram marchas, paralisações e operaçõespadrão
para denunciar o sucateamento das
instituições do setor e as precárias
condições
de trabalho. Segundo as associações
da Brigada, mais da metade da frota de
veículos de policiamento ostensivo está em
situação irregular, com o seguro obrigatório
vencido. Além disso, muitos policiais
estão sendo obrigados a trabalhar com
coletes à prova de balas com prazo de validade
vencido.
"Transparência
na gestão"
Ilustração
de Rodrigo Vizzotto
Por fim, o conceito de “transparência
na gestão” chega ao final do ano torpedeado
pelo escândalo do Detran. A Operação
Rodin, desencadeada pela Polícia
Federal, revelou um esquema de
corrupção, que teria iniciado ainda durante
o governo Rigotto, que causou um
prejuízo de pelo menos R$ 40 milhões
aos
cofres públicos. Entre os presos na operação,
nomes importantes do governo, como
Flávio Vaz Neto (presidente do Detran)
e Antônio Dorneu Maciel (diretor financeiro
da CEEE), e um dos ex-coordenadores
financeiros da campanha de Yeda,
o empresário Lair Ferst. Na esteira do escândalo,
surgem novas denúncias de funcionários
fantasmas lotados no governo e
contratos firmados sem licitação. A conseqüência
política desta sucessão de denúncias é
a CPI do Detran, que já tira o
sono do núcleo do governo. Em 11 meses,
o “novo jeito de governar” surpreendeu,
de fato, o estado, mas não exatamente
como a governadora previa.
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