
Começar
de novo

á tempos
li uma boa comparação: a China é como a internet.
Todo
o mundo sabe que uma coisa daquele tamanho, com tanto público,
tem que ser um sucesso comercial e dar lucro. Mas ninguém
ainda
sabe exatamente como.
Não falta gente tentando descobrir. O tamanho do mercado potencial
chinês, mais de 1 bilhão de pessoas, derrotou as restrições
americanas ao
velho inimigo comunista e suas violações de direitos
humanos, pois, se
não se perde muita coisa bloqueando Cuba, despreza-se quase
um quarto
da população mundial discriminando a China. E os chineses
estão sendo
tão pragmáticos quanto os americanos. Com sua abertura
controlada para
investimentos externos e multinacionais, quintuplicaram sua economia
nos últimos 20 anos. Mas li que as esperanças mais
otimistas, de gente
que sonhava com fortunas instantâneas se conquistasse apenas
meio por
cento do mercado chinês, estão sendo frustradas. Descontando-se
os 900
milhões de camponeses e os urbanos economicamente marginalizados,
sobra uma classe média equivalente à dos Estados Unidos,
com uma renda
média muito inferior e hábitos de poupança mais
conservadores. Algumas
empresas, como a Coca-Cola, claro, e a Motorola, estão dando
certo no complicado mercado chinês, mas 60% dos investidores
estrangeiros
ainda não ganharam nada, e os que ganham, ganham pouco. Uma
das coisas com que os estrangeiros não contavam é que
haveria empresas
chinesas, mais acostumadas com a burocracia e a corrupção
locais, disputando
o mesmo mercado. De qualquer maneira, como no caso da internet,
cedo ou tarde a lógica prevalecerá. E estaremos todos
produzindo para
vender na China – e comprar da China.

Que país de tamanho parecido com o nosso serviria como modelo
para
o Brasil, excluídos os próprios Estados Unidos? Para
defender uma imitação
da China, só fazendo como aquele enólogo francês
contratado para
produzir vinhos iguais aos da França na Califórnia
que, depois de plantadas
as videiras e instalados os equipamentos, disse: “Pronto, agora é só esperar 300 anos”. Além de 3 mil anos de civilização,
precisaríamos passar
por algumas revoluções para chegar ao mesmo ponto,
depois de decidir se
o sucesso valeria tanto sangue. (Desconfie sempre dos que pregam
banhos
de sangue, eles sempre se referem ao sangue dos outros.) A Índia
parecia um exemplo do que se queria evitar, um Brasil levado às
piores
conseqüências. Hoje é um exemplo de desenvolvimento
acelerado mas a
partir de coisas que aqui ainda parecem remotas – como uma
reforma
agrária de verdade, por exemplo. O Canadá seria um
bom modelo, mas
grande parte do Canadá é só paisagem, sem gente.
E o frio? A Rússia trocou o capitalismo de Estado
pelo gangsterismo privado, também não serve. A
Austrália pelo menos desmente
aquelas pessoas que
dizem que o problema do
Brasil foi a qualidade da
nossa colonização por Portugal.
Foi povoada por degredados
e prostitutas e deu no
que deu. A Argentina? Precisaríamos
ser argentinos.
O grande modelo para
o Brasil dar certo talvez seja
o próprio Brasil – nenhum
outro tem as mesmas características,
história etc. É
só começar de novo – desta vez com
muito petróleo!
