EDUCAÇÃO INFANTIL Escolas
ainda resistem em
legalizar situação dos professores Segundo a SEC são 2.261 escolas que
oferecem exclusivamente Educação
Infantil no estado, mas isso não quer
dizer que todas respeitem a convenção
trabalhista
Por Jacira Cabral da Silveira
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1979, na obra A epistemologia genética,
Jean Piaget, um dos mais célebres pesquisadores
do desenvolvimento infantil,
classificava o estágio sensório-motor como o primeiro
do processo de formação da inteligência,
incluindo crianças do nascimento aos dois anos
de idade. Na seqüência, ele citava como
subestágio aquele que corresponde a crianças
de dois a sete anos, das operações lógico-concretas.
Suas teorias, acrescidas de contribuições
de outros pensadores, têm se constituído
em respeitável repositório de conhecimento que
faria rir qualquer educador sério ante a expressão: “Cuida-se
de crianças”, concepção por
muito tempo cultivada na chamadas creches e
jardins de infância. Com a LDBEN de 1996, ao
incluir a faixa etária de zero a seis anos como a
primeira etapa da Educação Básica, tais estabelecimentos
ganham status de Escolas Infantis,
local de cuidado e ensino.
Para o professor e diretor do Sinpro/RS, João
Luiz Steinbach, um dos responsáveis pelo setor
de Educação Infantil do Sindicato, o que a
LDBEN propõe não é apenas uma mudança
de
nomenclatura, “houve uma evolução importante,
do cuidado para o educar, e as escolas que
estão se propondo a fazer essa transição são
aquelas que têm uma noção mais
organizacional”, mesmo assim, “ainda é um
contingente muito pequeno”, lamenta. Na opinião
do dirigente, o que falta a esses diretores
de escolas é uma cultura patronal. “Falta
gerenciamento profissional na gestão. Uma
consciência de respeito à legislação”,
argumenta,
considerando especialmente quando a lei
determina que o atendimento de crianças de
zero a cinco anos e 11 meses deve ser realizado
por profissional docente em nível superior e admitido
também a formação mínima de curso
Normal (art.62 da Lei 9394/1996).
Desde agosto deste ano, o Sinpro/RS tem
realizado um levantamento junto às 1.388 escolas
infantis privadas gaúchas, registradas em
seu cadastro. O objetivo desse estudo é verificar
até que ponto o setor está adaptado à nova
legislação, que completou dez anos em 2006,
prazo previsto para o cumprimento da lei. De
acordo com Norberto Vieira, diretor do Sinpro/RS, embora grande
parte das escolas contrate
professoras como titulares dos grupos de crianças,
ainda registram em suas carteiras funções
como técnicos em desenvolvimento infantil,
educadores-assistentes ou atendentes. Essas
funções correspondem a salários inferiores
ao
estabelecido pela Convenção Coletiva de Trabalho
firmada entre o Sinpro/RS e o
Sindicreches. “É fundamental que os pais saibam
que o seu filho tem o direito a um professor,
pois esta etapa se caracteriza como a primeira
fase da educação básica”, reforça
o diretor
do Sinpro/RS.
“Essa mudança de olhar só veio a nos valorizar,” avalia
a vice-presidente do Sindicreches, Berenice Volkmer, referindo-se à mudança
de status. Segundo ela, o fato de os estabelecimentos
serem reconhecidos como escolas e não mais
como creches, pré-escolas ou jardins de infância
vem contribuindo para se desfazer a idéia
de “depósito de crianças”. “Hoje
são escolas
infantis”, reforça. Para a dirigente do
Sindicreches, cumprir o que determina a
LDBEN com relação à formação
profissional proporciona
segurança para o gestor, tanto no que se
refere ao que ele pode exigir do professor, quanto
na hora de expor a seriedade do trabalho aos
pais. Ela avalia que a resistência de muitas escolas
em reconhecer na carteira profissional a função
de professor é o custo, pois não querem diminuir
seu lucro. Para Berenice, as direções dessas
escolas estão esperando que o Sinpro/RS
bata nas suas portas para poderem se organizar.
CUMPRINDO NORMAS – Maria de
Lourdes Carvalho é assistente técnica do Conselho
Estadual de Educação e atua nas comissões
de Ensino Fundamental e de Educação
Infantil do Conselho. Segundo ela, são mais de
200 os municípios gaúchos que possuem sistema
próprio de ensino, isso os torna responsáveis
pelo credenciamento de escolas infantis
em suas localidades. Nos demais municípios,
estas escolas são credenciadas pelo Estado. Cabe
a cada uma das instâncias (estadual e municipal)
a emissão de normas, prevendo o que é necessário
para a criação de um estabelecimento
de ensino para a faixa de zero a cinco anos
e 11 meses de idade. Tais legislações estão
previstas
na Portaria estadual 398/2005 e na Resolução
003 do município de Porto Alegre.
Ela não sabe dizer até que ponto os estabelecimentos
que trabalham com crianças nesta
faixa etária no estado, autorizadas ou não, estão
em ordem junto aos sistemas de ensino quer
municipais ou estadual no que se refere ao novo
enfoque da LDBEN quanto ao caráter educativo
dessas escolas e à obrigatoriedade do trabalho a
ser desenvolvido por professores. Segundo ela,
essa fiscalização fica ao encargo das
coordenadorias que “são os olhos e braços do
Conselho”. De uma forma geral, ela considera
que as escolas municipais e privadas estão preocupadas
em se adaptar porque isso representa
boa propaganda para o seu trabalho.
Na avaliação da integrante do Conselho
Municipal de Educação de Porto Alegre
(CMPA), Joice Gonçalves dos Santos, não há possibilidade,
neste momento, de pensarmos em tempo para que as escolas de Educação
Infantil façam tal adaptação: “Ainda
estamos trabalhando
a importância do cumprimento da legislação
e das exigências mínimas para o atendimento
da Educação Infantil, comenta. E
quanto aos vínculos empregatícios dos profissionais
que atuam nesta área, afirma que o
CMPA não tem competência direta para versar
sobre o tema. Entretanto, os membros do
Conselho reconhecem que a valorização profissional é
de grande importância para o bom
andamento das propostas pedagógicas das escolas,
da auto-estima dos professores e da justa
remuneração. “Lembramos que somente teremos
profissionais em permanente qualificação
se os considerarmos devidamente como
agentes do processo educativo”.
A Educação Infantil no estado, assim como
no resto do país, nasceu na perspectiva da caridade,
da assistência para os desvalidos e desafortunados, “por
isto mesmo que as instituições
mais antigas de atendimento às crianças
pequenas têm sua origem em grupos religiosos,” explica.
E foi com o ingresso das mulheres no mercado de trabalho que começa um período
onde as famílias passam a buscar alternativas
para o atendimento de seus filhos: “Nesta
transição, a Educação Infantil começa
a se tornar
um ‘direito’,” recupera a conselheira baseada
na Constituição de 1988, reafirmada pelo
ECA e pela LDBEN.
"Vale
a pena"
É difícil para
a professora Viviane Pinzon lembrar
quando a Escola de Educação Infantil
Construindo
o Saber passou a reconhecer em carteira a função
de professora para as funcionárias
que
desempenhavam essa função. “Faz
muito tempo”,
comenta. Na verdade, esse ajuste tem quase
a idade da escola, criada em 1996, ano da
promulgação da LDBEn. Logo que a lei
surgiu,
Viviane diz que ela e o marido, ambos diretores
da escola, decidiram adaptar-se prontamente à nova
legislação: “Elas trabalham
muito, precisam
ser reconhecidas. Também sou professora”,
justifica.
Embora no início tenha sido difícil, “as
finanças
ficaram abaladas em prol de melhores salários”,
o equilíbrio veio aos poucos com a adoção
de
estratégias na organização global
da escola para
ajustar os novos gastos com pessoal às demais
despesas. Entretanto, a diretora não demonstra
arrependimento. Pelo contrário, avalia que o
reconhecimento
profissional só trouxe benefícios
ao longo do tempo. Ao sentirem-se valorizadas,
as professoras passaram a trabalhar com maior
comprometimento: “Vestiram a camiseta”.
Isso
refletiu em planejamentos mais criativos e maior
dedicação ao trabalho com a criança.
Hoje a escola de Educação Infantil Construindo
o
Saber tem 14 professoras e 15 auxiliares, que
atendem a 148 alunos. Em cada turma trabalham
uma titular e uma auxiliar, em apenas uma delas
são necessárias duas ajudantes: “Eles
são muito
pequenos, estão na fase da mordida”, explica
a
diretora. Há também seis funcionários
para desempenhar
as tarefas de limpeza e cozinha, além
das cinco técnicas: nutricionista, dentista,
pedagoga, fonoaudióloga e psicóloga.
A equipe
de terceirizados é composta por contratados
para
dar aulas de balé, judô, música,
inglês e movimento
(educação física). “Vale
a pena”, conclui.
ESTATÍSTICAS – De
acordo com o departamento
de Imprensa da Secretaria Estadual de
Educação, são 2.261 escolas
que oferecem
exclusivamente Educação Infantil no
Rio Grande
do Sul, incluindo os estabelecimentos públicos
(municipais, estaduais e federais) e
privados. Segundo o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de
freqüência
das crianças na Educação Infantil
no
Brasil em 2006 mostram que 15%, entre zero
e très anos, estão matriculadas em
creches
ou escolas. Na faixa etária de quatro a cinco
anos, o índice sobe para 67,6% e, aos seis
anos, é de 91,1%.
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