O
mercado não
se auto-regula
Há algumas certezas no mercado sobre a crise econômica
mundial: 1) seus reflexos já chegaram ao Brasil e terão
desdobramentos que se estenderão por todo o ano de 2009;
2) ela não é no país, como defendem alguns,
gerada só pela
falta de confiança do consumidor. Está vinculada
ao fato de que as instituições financeiras do setor
privado apertaram o
crédito e isso pode travar a economia, apesar das inúmeras
medidas adotadas pelo governo; 3) o crescimento alavancado
quase que exclusivamente em crédito cria uma euforia que
gera falsa percepção de desenvolvimento e bem-estar
ao
mercado (incluindo-se aí consumidores e empresas). Porém,
mais do que tudo, esta crise mostrou para os economistas,
pesquisadores, historiadores e analistas de finanças que
o mercado não se auto-regula.
Por Flávia Bemfica
epois
da queda de outubro,
quando a crise chegou ao
seu ápice nos Estados Unidos,
com a quebradeira generalizada
no setor financeiro e a intervenção
do Estado via injeção de
recursos na economia e aquisição
do controle acionário de bancos
não apenas naquele país como também
em diversas potências européias,
como Alemanha e Inglaterra,
entre outros, este final de 2008
traz, no cenário internacional, a
expectativa de que o democrata
Barack Obama anuncie um pacote
de medidas assim que assumir,
em janeiro. Entre elas, as que incluem
a negociação entre credores
e devedores, abatendo dívidas,
criando mecanismos de sobrevivência
aos inadimplentes e renegociando
juros principalmente no
setor imobiliário.
BRASIL – No Brasil, onde os
reflexos mais pontuais apareceram
já nos números de outubro, os especialistas
se dividem quanto às
expectativas para 2009.
Eles sabem que será um ano difícil e que o país
não vai crescer
no ritmo que vinha apresentando
nos últimos anos. Ao mesmo tempo,
sabem também que, se a população
ficar receosa, na expectativa
de uma grande crise, não consome
e, aí, tem início uma espécie
de bola de neve: baixo consumo
gera queda na venda de produtos
e, por conseqüência, baixa na produção
que, por sua vez, aumenta
a capacidade ociosa das indústrias
que, para cortar gastos, demitem.
Pessoas sem emprego em geral
não têm fonte de renda fixa e,
por isso, não se constituem em ‘bons’ consumidores.
Resumindo: a economia trava.
MODERAÇÃO – “Se eu pudesse
dar um conselho à população
neste final de ano diria: consuma,
mas com moderação. Não
compre o que você não precisa e
não estenda demais o prazo para
pagar”, resume o economista e professor
de Finanças Públicas da Universidade
de Brasília (UnB), Roberto
Piscitelli. “Teremos momentos
de turbulência, mas não entraremos
em uma recessão. O crédito
continuará ainda um tanto restritivo
e, como pode haver efeitos sobre
a renda e o emprego, o melhor é
aguardar um pouco antes de comprar
bens de alto valor e evitar assumir
dívidas com prazos a perder
de vista”, endossa o assessor econômico
do Departamento de Estudos
e Pesquisas Financeiras e integrante
do Conselho de Administração
da Associação Nacional dos
Executivos de Finanças, Administração
e Contabilidade (Anefac),
Miguel Ribeiro de Oliveira.
Para quem tem recursos disponíveis
neste final de ano e não sabe
qual o melhor investimento, os analistas
de mercado aconselham a
segurança da caderneta de poupança
e dos fundos DI. Os fundos
DI são um tipo de investimento
tido como conservadores, pois contêm
em suas carteiras títulos pósfixados
do governo federal e tomam
por base o CDI (taxa de juros
interbancária) que, por sua vez,
está atrelada à taxa básica de
juros da
economia brasileira (a Selic).
Quando a Selic aumenta, o fundo
acompanha o movimento,
quando baixa, também. “Já para
quem pensa em adquirir um bem
de alto valor, como um imóvel, eu
não aconselharia, neste momento,
a compra na planta. Muitas
construtoras se endividaram adquirindo
terrenos e, para entregar
os imóveis nos prazos, precisarão
alcançar um ritmo de vendas
difícil de cumprir”, avisa Débora
Morsch, diretora da Associação
dos Analistas e Profissionais
de Investimento do Mercado de
Capitais (Apimec/Sul). Ela ressalva
que em momentos de crise costumam
aparecer também excelentes
oportunidades de negócios
e investimentos, mas que, para ‘bater o martelo’, é necessário
ter um período de acompanhamento
do mercado e checar as condições
postas.
Especialistas
divergem
Entre especialistas, os desdobramentos
e a
duração da crise econômica no
Brasil estão longe
de ser um consenso. De acordo com o professor
de Finanças Públicas da Universidade
de
Brasília (UnB), Roberto Piscitelli, o comportamento
dos agentes financeiros e a questão do
crédito são fundamentais. “Há um
desespero do
governo para que não haja bloqueio do crédito,
mas ele vai ficar muito na dependência das
instituições
oficiais”, avisa. O professor lembra que
alguns consumidores, como parte dos que haviam
optado por fazer empréstimos consignados,
já mostravam sinais
de esgotamento antes da crise. Miguel Ribeiro de
Oliveira, integrante do Conselho
de Administração da Associação
Nacional
dos Executivos de Finanças, Administração
e Contabilidade
(Anefac), adianta que, entre as pessoas
físicas, as maiores prejudicadas serão
as de baixa
renda, que dependem de crédito para sobreviver
e/ou adquirir bens, mesmo que de baixo valor.
DINHEIRO – Na tentativa de minimizar os
danos, o governo tomou algumas medidas via
bancos estatais, como o anúncio da liberação
de
R$ 10 bilhões para o crédito consignado
na Caixa
Econômica Federal (CEF) em 2009, um aumento
de 25% em relação ao montante de 2008;
a liberação de R$ 8
bilhões via CEF e
Banco do Brasil (BB) para
financiamento de imóveis a servidores
públicos federais e o ingresso
da CEF no financiamento de bens
de consumo diretamente no comércio
(inicialmente com uma linha de R$
2 bilhões). O governo se debate para que o
arrefecimento
não chegue ao mercado de trabalho já que,
na renda, o efeito foi quase imediato.
PESQUISA – Conforme os dados da Pesquisa
Mensal de Emprego do IBGE, apesar de em outubro
a taxa de desocupação nas seis regiões
metropolitanas
pesquisadas ter ficado estável (7,5%) em
relação ao mês anterior, o rendimento
médio mensal
dos trabalhadores caiu 1,3% na comparação
com
setembro. “Esta crise quebrou os parâmetros
estruturais
que eram usados para prever o futuro, por isso
ficou mais difícil fazer projeções.
Mas não acredito
que ela chegue com força ao Brasil, a não
ser que,
além da restrição do crédito
externa houver uma
grande restrição interna. Só que,
aqui, ao contrário
dos Estados Unidos, o governo possui diversos mecanismos
para ajudar na recuperação”,
avalia o supervisor
técnico do Dieese/RS, Ricardo Franzoi.
Pode
faltar dinheiro
O professor Enrique Serra Padrós,
do Departamento de História da
Ufrgs, discorda. “Em algum momento
não haverá dinheiro para financiar
esta necessidade de endividamento
que está aí. Entre historiadores,
falamos da iminência desta
crise há 15 anos e acreditamos que
ela será longa. O grande receio é que,
além de toda a perda econômica,
ela acabe por ter entre suas
conseqüências, em termos políticos,
o fortalecimento de setores de extrema
direita”, alerta.
Montadoras
estão otimistas
No mercado, mesmo sendo os primeiros setores
a sentir o impacto, como o automobilístico –
apontado como aquele no qual o país estava
realizando seu subprime – negam-se a falar em
recessão. “Existe muita demanda a ser suprida
no mercado e o que pode determinar os rumos
do setor será o desenrolar da crise e os possíveis
efeitos locais. No decorrer de 2009, existe
a tendência de normalização do mercado e,
como o setor automobilístico acumulou grande
crescimento, ainda há margem para manter
excelentes níveis de produção”, avalia
o
presidente da Associação Nacional das Empresas
Financeiras de Montadoras (Anef), Luiz
Montenegro.
DIFICULDADES – Apesar do discurso otimista,
são públicas as dificuldades das montadoras,
as concessões de férias coletivas e as mudanças
no sistema de concessão de crédito para
aquisição de veículos. “No mês
de novembro, a
cada dez pedidos de financiamento, só quatro
estavam sendo aprovados”, assinala Débora
Morsch, diretora da Associação dos Analistas e
Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais
(Apimec/Sul).
Montenegro admite que o setor financeiro
alterou os critérios para aprovação de créditos.
Reduziu o número de prestações e elevou os
percentuais de entrada. Ele defende que a
recente liberação de linhas de financiamento
do Banco do Brasil (BB) e do Nossa Caixa
(que o BB adquiriu) para os bancos das montadoras,
já começou a injetar R$ 8 bilhões
para a retomada dos financiamentos. “Há promoções
com taxas subsidiadas pelas montadoras
e rede de concessionários que podem
variar de 0,99% a 0%”, assegura.
“Não existe juro 0% e início de pagamento
depois de alguns meses sem que as taxas
estejam embutidas”, rebate o professor de Finanças
Públicas da Universidade de Brasília
(UnB), Roberto Piscitelli.
Segundo o professor, além do setor automobilístico,
há outros que vão sentir a
crise de forma mais ‘imediata’. Entre eles
estão os de importação
de produtos, o
de eletroeletrônicos,
brinquedos e
os de artigos para
construções e reforma.
Financiamento
imobiliário no Brasil
é diferente dos EUA
Outras diferenças entre os dois
países dizem respeito ao financiamento
imobiliário, que nos Estados
Unidos é apontado como uma
espécie de centro da crise. Aqui,
apesar da liberalização ocorrida
nos últimos três anos, com aumento
das facilidades por parte
do tomador do financiamento,
a concessão do crédito habitacional
ainda é muito mais restritiva,
tanto pela atuação do
Banco Central (BC) como das
próprias instituições.
“No Brasil quase ninguém
financia 100% do imóvel. Além
disso, a análise de crédito, para
que a instituição financeira se
certifique de que o tomador
terá condições de pagar e de
que comprometerá via de regra
apenas 30% da renda bruta
familiar mensal, é bem rigorosa”,
destaca o gerente regional
de Negócios da Habitação
da Superintendência
da Caixa Econômica Federal (CEF) em
Porto Alegre, Pedro Lacerda. Ele recorda
ainda que a avaliação do imóvel é
feita sobre o valor real de mercado,
sem a chamada securitização da dívida
e, atualmente, com um sistema de
amortização linear, o Sistema de Amortização
Constante (SAC), que visa reduzir
juros ao longo do contrato. Nos
Estados Unidos, as avaliações não são
feitas sobre o valor real, mas sim sobre
o valor de mercado (que pode variar
muito, para mais ou menos, em função
da oferta e procura). Além disso, os clientes
podiam refinanciar a dívida, tomando
um segundo financiamento sobre
o primeiro, e sem necessidade de
destinar o valor para o pagamento das
prestações.
SEMELHANÇAS – Segundo Lacerda,
o mais perto que a CEF chega
do mercado norte-americano é um produto
denominado Aporte Caixa. Nele,
quando possui o imóvel já quitado, o
tomador pode financiar 50% de seu valor
real. Apesar da tendência que existia
até o segundo trimestre de flexibilizar
cada vez mais o crédito no setor
imobiliário, agora há um certo arrefecimento. “
Depois do que aconteceu,
os refinanciamentos sem destinação
específica, por exemplo, não se tornarão
realidade tão cedo”, antecipa o
gerente.
Estado
protagonista ajuda a enfrentar a crise
Se por um lado as conseqüências
da crise
econômica são inevitáveis, algumas
diferenças
existentes na regulação dos mercados
no Brasil
e nos Estados Unidos podem, segundo especialistas,
auxiliar os brasileiros em 2009. “Esta questão
de que o mercado se auto-regula, ou seja,
se quebrar, deixa quebrar, por exemplo, que era
tida assim como uma regra, ficou constatado
que no sistema financeiro não funciona,
até porque tem o dinheiro de muita gente
envolvido e, quando
quebra, quebra tudo”, resume
a diretora da Associação
dos Analistas e Profissionais
de Investimento
do Mercado de Capitais
(Apimec/Sul), Débora Morsch. Ela lembra que,
com a crise, ficou demonstrado ainda que, nos
Estados Unidos, ao contrário do que se acreditava,
os bancos de investimentos não eram regulamentados
pelo Banco Central norte-americano,
o Federal Reserv (FED), o que lhes possibilitava
um nível de alavancagem (uso de recursos
emprestados para aplicação no mercado
financeiro, em geral em operações de
alto risco)
acima do permitido pela legislação.
MECANISMOS – O supervisor técnico do
Dieese/RS, Ricardo Franzoi, assinala que o
Brasil possui mecanismos muito criticados
na argumentação neoliberal, mas
que deverão ajudar a minimizar os efeitos
da crise. Entre eles estão a forte
presença de bancos estatais no setor financeiro;
uma parte significativa do crescimento dos últimos
anos alavancada pelo mercado interno; a
regulação da taxa básica de juros
e a política de
estabelecimento de salário mínimo e de
reajustes
salariais em datas-bases anuais.
“Os
reajustes nas datas-bases, por exemplo,
nos Estados Unidos não funcionam assim. Os
trabalhadores possuem representações
sindicais
que negociam às vezes para dois ou três
anos”,
explica. Segundo Franzoi, o fato de no Brasil os
salários em geral serem bastante baixos também
pode funcionar como uma garantia à movimentação
da economia. “Quando a pessoa ganha
pouco, ela não destina os recursos ao entesouramento,
mas sim ao consumo”.
Juros baixos e crédito farto
no centro do problema
Juros baixos e crédito farto são o centro da crise.
Ao retomar as origens do colapso, os
analistas costumam partir da fase de expansão do mercado
imobiliário dos Estados Unidos
ocorrida após a crise das empresas ‘pontocom’,
em 2001, quando o Banco Central norteamericano,
o Federal Reserve, reduziu taxas de juros para baratear empréstimos
e financiamentos
e encorajar o consumo. As instituições financeiras
partiram para cima do cliente
subprime (como o nome já diz, aquele que, devido a sua menor
capacidade de pagamento de
dívidas, apresenta maior risco de calote). Estes clientes
passaram a ter acesso a financiamentos
imobiliários com valores bem acima de sua capacidade.
BOLHA – Com juros baixos e crédito à vontade,
os imóveis se valorizaram. Nos EUA, os
mutuários tinham a opção de refinanciar hipotecas – aquelas
que, em muitos casos, já estavam
acima de sua capacidade real de pagamento. O dinheiro do empréstimo
era destinado à aquisição de
outros bens, movimentando a economia e mantendo o consumo aquecido.
Para
captar dinheiro e seguir emprestando, os bancos criaram títulos
lastreados nas hipotecas.
Devido ao risco da inadimplência do segmento ao qual estavam
atrelados, eram títulos com
altas taxas de retorno, ou seja, lucros mais altos e rápidos
para investidores e instituições.
Esses títulos eram comercializados a investidores que emitiram
seus próprios títulos, e assim
sucessivamente, em operações roladas diversas vezes,
inclusive em outros países, mas sempre com
títulos lastreados nos primeiros. Começava o que
viria a se transformar na exportação da crise.
QUEDA – A partir de 2006, os preços dos imóveis
começaram a cair e os juros frearam o
crédito. O comprador subprime começou a ter dificuldades
para quitar suas dívidas, gerando
uma espécie de efeito dominó por falta de lastro
em moeda. “O que houve lá foi que perderam
a noção do perigo e, eufóricos, passaram a
financiar imóveis de valores altíssimos para trabalhadores
informais, por exemplo. Isso começou antes de 2001. Em 1999
os primeiros sinais
ficaram evidentes ainda no ano passado”, enumera a diretora
da Associação dos Analistas e
Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec/Sul),
Débora Morsch.
História:
os reais paralelos com 1929
Para o professor Enrique Padrós,
do Departamento
de História da Ufrgs, não há como
dissociar a
crise atual daquelas enfrentadas pelo capitalismo
ao
longo do século 20, em especial a crise de
1929 e
aquela do final dos anos 60 e início dos 70,
quando
o chamado capitalismo de bem-estar social se esgotou
e a retórica neoliberal, que estava em pauta
desde
os anos 40, ganhou corpo. A de 29, destaca o professor,
começou na verdade alguns anos antes, a partir
de 1922. Na agricultura, a superprodução
de gêneros
ocorrida durante os anos da 1ª Guerra Mundial
foi mantida mesmo após o término do
conflito. Para
não baixar os preços, os produtores
optaram por fazer
estoques ao invés de diminuir a produção.
Passadas
duas ou três safras, os agricultores, falidos,
foram aos
bancos para obter financiamentos que permitissem
que continuassem produzindo. Deram as terras como
garantia. A quebradeira ocorreu entre os anos de
1924 e 25, quando os bancos tomaram as terras dos
inadimplentes. Não tinham para quem vender
e os
preços caíram, dando início
ao colapso registrado
quatro anos depois.
PARIDADE – Nos anos 60, com a recuperação
econômica da Europa e do Japão, os Estados
Unidos
começaram a perder competitividade e anularam
a
paridade dólar/ouro, desvalorizando a moeda,
como
forma de se recuperarem, e passando ao sistema de
moeda flutuante, lastreado, em última instância,
nos
títulos da dívida pública. Para
baratear custos, os
EUA deslocaram inicialmente capitais produtivos
para outros países e, em um segundo momento,
também
os capitais financeiros, em busca de maiores rendimentos.
São da década de 70 as políticas
de
desregulação dos mercados financeiros
que deram
início ao processo de globalização.
Conforme Padrós,
estes fatores, aliados ao desenvolvimento tecnológico
e à difusão da internet, tornaram a exportação
das
crises inevitável.
“Há o ingresso de um exército de
trabalhadores no mercado, que ganham salários
muito baixos, e os
capitais especulativos sobrevivem dentro de uma
cultura que é a cultura do crédito, que
começa a
ser outorgado de forma irresponsável não
apenas para
corporações, mas também para as
pessoas”.
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