
SANTO ÂNGELO
A
pintura e a inquisição
Augusto Franke Bier*
epois
da demolição contínua
e sistemática de prédios históricos
em Santo Ângelo,
onde a política de tombamento
nunca foi exatamente o ponto forte
das administrações, a mais recente
agressão ao patrimônio ocorre
dentro de uma igreja. Recentemente
“
reinaugurada”, a Catedral
Angelopolitana abriu suas portas
para os fiéis e os turistas ostentando
uma mutilação. A pintura mural
executada no altar central, há
menos de 20 anos, pelo artista plástico
Tadeu Martins, desapareceu.
Todos lembram que a grande
polêmica se dava em torno da imagem
de uma índia de seio desnudo.
Nada mais adequado ao sétimo
povo missioneiro que tivesse
dentro de sua catedral a marca
maior de sua obra, numa referência à
evangelização dos índios
Guaranis. Justamente pela fidelidade
histórico-astística dessa representação,
onde os verdadeiros
donos desta terra aparecem em estado
puro, despreocupados de pudor, a
comunidade não só perde uma obra
de arte magistral, como também reproduz
o preconceito do colonizador
para com as culturas diferentes.
Na tarefa cruel da submeter
povos gentios à tutela do Deus cristão –
que se desenvolvia paralelamente
na busca por ouro e territórios –
, muito sangue nativo foi
derramado. Levou tempo até que
os Guaranis tivessem que optar
entre cair nas mãos dos bandeirantes
escravizadores e se deixar “domesticar” no
aldeamento das missões
jesuíticas. Mas a glória da experiência
missioneira, sempre
evocada na arquitetura monumental
e nas artes remanescentes,
tem nos nativos uma história de
resistência que a própria Santa
Madre Igreja evoca com desconforto –
quando o faz! E isso vem à baila quando perguntamos
o seguinte:
Por que, em quase século
e meio de dominação, as reduções
não produziram um único padre índio?
A resposta, ironicamente, vem
de um jesuíta paraguaio, padre
Bartolomeu Meliá, talvez a maior
autoridade em estudos missioneiros
ainda viva. Escreve ele que a religiosidade
dos índios não reconhecia
o pecado. Logo, desprovidos de
culpa, não teriam como ser submetidos
pelos padres, porque o
maior instrumento de coerção da
cristandade – a ameaça do castigo
eterno – não surtia efeito. Essa
pureza ainda pode ser observada
por aqueles que convivem com os
atuais Guaranis da região
missioneira. No entanto, os esforço
pela descaracterização dessa
cultura hoje prossegue quando autoridades
mal-intencionadas ou ignorantes
estendem luz elétrica e
televisão até os acampamentos. Perdendo
o status de índios, que ainda
os protege um pouco, e isolados
de sua identidade, tornam-se párias
a esmolar na porta do templo.
A nudez na índia de Tadeu
Martins foi acusada de ofender a
sacralidade do altar. Mas como fica
esse mesmo respeito ao sagrado
quando tantos sacerdotes são
pedófilos, delatores, omissos ou
legitimadores de desmandos
aboletados no regaço confortável
dos coronéis de plantão? Há uma
moral hipócrita flutuando entre
as naves da catedral, reeditando
valores ancestrais da inquisição.
Nem estamos evocando o bom selvagem
idealizado por Rousseau,
mas um povo verdadeiro a cuja
sabedoria a Igreja deveria se curvar.
No entanto, aquele preconceito
doentio deixa seus herdeiros. E
Jesus Cristo, que, numa metáfora
pela inocência, pedia que deixassem
ir a ele os pequeninos, vê a
representação dos seus indiozinhos
apartada de sua companhia justamente
por obra de um religioso.
Não é uma incoerência?
* Jornalista e chargista