pós
um ano marcado por sucessivas crises
e denúncias de corrupção, o governo
Yeda Crusius (PSDB) chega ao final
de 2008 tentando imprimir uma “agenda
positiva”. A governadora e seus aliados apresentam
o “déficit zero” como o carro-chefe
dessa agenda que estaria saneando as finanças
do Estado. Mas o que é, afinal de contas,
o “déficit zero” e qual o custo dessa política
para a população que precisa dos serviços
públicos do Estado?
É
sintomático que, no mesmo momento
em que tal política é comemorada pelo governo,
categorias importantes do serviço público,
como professores e policiais, intensifiquem
sua mobilização com greve, paralisações,
marchas e protestos denunciando o
sucateamento do Estado. A pauta dominante nos meios de comunicação
do RS é marcada por um ruidoso silêncio sobre
as
condições de trabalho dessas categorias e
sobre a qualidade dos serviços públicos que
vêm sendo prestados à população. E não é a
falta de dados e testemunhos que alimentam
esse silêncio.
O Ministério Público de Contas, que emitiu
parecer prévio desfavorável à aprovação
das
contas do governo Yeda no exercício de 2007,
identificou uma série de problemas gerados pela
política do “déficit zero”. Vejamos alguns
deles:
–
Descumprimento dos limites constitucionais
mínimos de gastos com saúde, educação
e pesquisa científica e tecnológica.
–
Pendência de repasses aos municípios,
referentes às quotas de salário-educação,
multas
de trânsito, ICMS, IPVA, entre outros itens,
totalizando R$ 90,090 milhões.
–
Sucessivas prorrogações de contratos
emergenciais, burlando a exigência de realização
de concursos públicos.
–
Não-repasse integral ao Ipergs do produto
das contribuições previdenciárias retidas
junto à folha de pagamento dos servidores.
–
Suplementação das despesas com publicidade
em 55,01%.
Desmonte
das políticas sociais
Outro exemplo do impacto dessa
política
aparece na área de políticas sociais
sob
responsabilidade do governo estadual.
Líderes do governo Yeda na Comissão de
Finanças da Assembléia Legislativa, Nelson
Marchezan Jr. (PSDB) e Adilson Troca
(PSDB), rejeitaram, dia 13 de novembro, a
emenda que propunha uma reserva mínima
para o atendimento de 300 famílias de desempregados
em 2009. Com a decisão, o projeto
de Orçamento do Executivo para 2009,
em tramitação na Assembléia, destinará zero
de recursos para financiar as Frentes
Emergenciais de Trabalho (FETs). Com isso,
pelo terceiro ano consecutivo, a governadora
descumprirá a legislação, aprovada
em
2001, que garante as frentes para desempregados
organizados.
Déficit
Zero na Segurança
O Sindicato dos Escrivães,
Inspetores e Investigadores de Polícia
do RS (Ugeirm) divulgou alguns dados relativos à situação
dos servidores da área da Segurança Pública,
que refletem o impacto
da política do déficit zero para o setor:
A Polícia Civil trabalha muito além da
sua carga horária legal
e opera, hoje, com menos da metade do número
de policiais
necessários. São cerca de 5 mil ativos,
quando seriam necessários
cerca de 15 mil. A Brigada Militar vive situação
semelhante.
O governo do Estado não paga horas-extras aos
policiais há mais de
cinco meses. Antes disso, pagava, em média,
5 horasextras
por mês. Os policiais civis fazem mais de 40
horas por mês
em várias oportunidades (o excesso de jornada
extraordinária é vedado
pela Lei 10.098/94).
Cerca de 200 cidades do estado não têm
plantão de prontoatendimento.
Nesses municípios, os policiais ficam de sobreaviso –
prática que não tem qualquer previsão
legal para a Polícia Civil.
O Estado não paga nada pelo sobreaviso, que
o policial é obrigado
a cumprir, sob pena de ser punido. Segundo o Ugeirm,
o Estado é conivente
com uma situação análoga
a de escravos no tratamento
que dispensa aos policiais.
Esse debate está ligado à definição
do papel que o Estado deve
desempenhar na sociedade. Uma das questões centrais
que marca
esse debate é: ao se reduzir as funções
e serviços do Estado a
uma condição de precariedade, como a
descrita acima, não se
está inviabilizando a própria função
do Estado como promotor do
bem comum?
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