
Outra
carta da Dorinha

ecebo
outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como
se sabe, não revela a idade, mas insiste que todas as especulações
a respeito são exageradas. Diz que é verdade que
carregou Getúlio Vargas no colo, mas ele já era presidente
na
ocasião. Dorinha decretou que nas reuniões do grupo
que lidera,
as Socialaites Socialistas, que lutam pela implementação
no
Brasil do socialismo soviético no seu estágio mais
avançado, a
volta ao tzarismo, todas usem crachás com seus nomes, pois
com
o botox ninguém reconhece mais ninguém. O grupo acompanhou
atentamente as eleições presidenciais americanas e
torceu
por Barack Obama, cuja vitória, todas concordaram, representou
o ápice da emocionante luta dos negros americanos contra a
discriminação racial. Tatiana (Tati) Bitati era a mais
entusiasmada
com a vitória de Obama e declarou que aquilo deveria
servir de exemplo para todas e ser imitado pelo grupo, só havendo
um problema: ninguém conhecia um negro americano, ainda
mais depois que o Ron Carter deixou de vir com tanta freqüência
ao Brasil. Foi quando a... Mas deixemos que a própria Dorinha
nos conte. Sua carta veio, como sempre, escrita com tinta lilás
em papel turquesa perfumado, com um aviso para não aspirar
demais o perfume, “Mange Moi”, o que poderia levar a
cenas de
furor sexual e a embaraço público.
“Caríssimo! Beijos centrifugais. Amo minhas colegas
das Socialaites Socialistas mas elas costumam duvidar do que eu
digo, embora eu nunca minta. Nunca acreditaram no meu caso
com Randolph Scott e Marguerite Duras – ao mesmo tempo! A
inveja, hélas, é um ácido social que tudo corrói.
Foi assim quando
convidei-as para conhecer o Picasso que acabara de comprar.
Custaram a acreditar que era mesmo um sobrinho-neto do Picasso
que estava pendurado na minha sala, apesar da certidão de
nascimento
e do Jean-Paul, que era como se chamava o rapaz, jurar
que era autêntico. E foi assim quando, durante a discussão
sobre
a lição que a eleição do Barack Obama
nos trouxera e como
aproveitá-la, revelei que conhecia um negro americano a quem
poderíamos demonstrar a mesma ausência de discriminação.
Não
vem ao caso como conheci o antropólogo Gideon ou qual foi
o
grau do nosso relacionamento, só posso dizer que ele aprendeu
muitos costumes tropicais exóticos comigo e me ensinou a correta
pronúncia da palavra ‘Uau!’. Pelo que eu sei,
Gideon ainda
está no Brasil, tentando nos compreender. Apesar da incredulidade
de Tati e das outras, anunciei que o trarei para a nossa
próxima reunião, quando poderemos fingir que ele é o
Obama e
nós somos americanas. Agora só tenho uma preocupação.
Preciso
avisar ao Severino, meu porteiro, que o Gideon é americano.
Senão ele pensa que é brasileiro e manda subir pelo
elevador de
serviço. Da tua democrática Dorinha”.
