CARL HONORÉ
Crianças sob pressão
Depois do best seller Devagar, que em 2004 foi traduzido
para mais de 30 países e disseminou pelo mundo a Slow
Movement, filosofia de resistência à compulsão moderna
pela pressa, o jornalista escocês criado no Canadá, Carl
Honoré, 42 anos, está lançando no Brasil Sob Pressão (Editora
Record, 368 páginas), que polemiza o resgate da infância
a partir da cultura dos hiperpais. Formado em História e
Italiano pela Universidade de Edimburgo, Carl Honoré atuou
em programas de intercâmbio e ONGs no Ceará, foi colaborador
de publicações como The Globe and Mail, National
Post, The Guardian e The Economist. Desde 1991, escreve
para jornais da Europa e América Latina, tendo passado três
anos como correspondente em Buenos Aires. “Estamos matando
a simples alegria de ser criança, transformando a infância
em uma corrida muito distante de um mundo mágico”,
afirma o autor nesta entrevista concedida por email
de sua casa, em Londres.
Por Gilson Camargo
Com tradução do inglês de Grazieli Gotardo
Extra Classe - O senhor afirma
que o enfoque da infância na
sociedade contemporânea é um fracasso.
Por quê?
Carl Honoré – Considerando
tempo, dinheiro e energia que investimos
em nossas crianças, deveríamos
ter a mais feliz, saudável
e habilidosa geração que o mundo
já viu. Mas não é isso que está acontecendo. A começar com a
saúde. Presos dentro de casa ou
transportados nos bancos de trás
dos carros, as crianças estão crescendo
cada vez mais rápido. As
esportistas são as que mais sofrem
e estão desgastadas com o excesso
de treinamento desde a primeira
infância. As lesões no ligamento
cruzado anterior dos joelhos, características
de atletas profissionais,
são abundantes na escola secundária
e cada vez mais acometem
crianças atletas na faixa dos dez
anos de idade. E para onde vai o
corpo, segue a mente. Depressão e
ansiedade infantil – e o abuso de
drogas, automutilação e suicídio
que muitas vezes vêm com eles – agora não são mais comuns somente
na periferia, mas nos grandes
centros e bairros nobres onde a
classe média aumenta a pressão
sobre seus filhos. Atualmente, um
número recorde de crianças está usando medicamentos como
Ritalina (marca mais conhecida do
metilfenidrato, a “droga do bom
comportamento”, que estimula o
sistema nervoso central no combate
ao Transtorno de Déficit de
Atenção com Hiperatividade – TDAH) todos os dias para sobreviver.
Quando uma sociedade chega
a ponto de medicar seus filhos
nesta escala é um sinal de que algo
está seriamente errado. Isso não é culpa das crianças – e sim da sociedade
em que elas estão inseridas.
EC – E como as crianças e jovens
estão reagindo?
Carl Honoré – Crianças excessivamente
controladas podem ficar
perdidas quando precisam tomar
decisões sozinhas. Os serviços de
aconselhamento das universidades
reportam que os estudantes estão
cada vez mais fragmentados. Professores
dizem que alunos de 19
anos costumam pegar o telefone
celular no meio de entrevistas e
dizer: “por que você não resolve
isso com a minha mãe?” O cordão
umbilical ainda está intacto após
a graduação. Para recrutar estudantes
universitários, empresas
como a Merrill Lynch estão enviando “kits para pais” ou promovendo
dias de boas-vindas para que o
pai ou a mãe possam conhecer os
escritórios dos filhos. Os pais estão
até mesmo participando de entrevistas
de trabalho para ajudar seus
filhos a negociar salário e pacotes
de férias. Apesar disso, algo precioso
e difícil de mensurar está sendo
perdido aqui. Estamos matando
a simples alegria de ser criança – o que Willian Blake chamava de “ver o mundo num grão de areia
eternamente na palma de sua
mão”. Estamos transformando a
infância em uma corrida muito distante
de um mundo mágico.
EC – De que forma os pais usam
os filhos para satisfazer suas próprias
expectativas ou compensar frustrações?
Carl Honoré – Os pais sempre
tiveram orgulho das realizações de
seus filhos e sempre usam os filhos
para compensar a sua própria frustração.
Mas hoje isso é mais extremo
do que nunca. Muitos pais colocam
adesivos em seus carros com
slogans como “Meu filho é um estudante
de honra da Escola X”.
Um cartoon recente no Jornal New
Yorker satirizou essa tendência de
tratar os nossos filhos como projetos
de vaidade gerenciados desde
o nascimento. Um jovem casal está orgulhosamente ao lado do berço
de seu bebê recém-nascido e a mãe
suspira: “ah, olha, ele é um advogado”.
Estamos vivendo para os
nossos filhos mais do que qualquer
outra geração na história. Investimos
emocionalmente em seu sucesso,
olhamos para eles para nos sentir
orgulhosos, felizes, para compensar
nossas falhas. Estamos tão ligados
em suas vidas que até mesmo
falamos de nossas crianças na terceira
pessoa do plural: “nós temos
muita lição de casa”, “nós jogamos
futebol no domingo”, “estamos concorrendo
para Harvard”. Como pais,
precisamos garantir que nossas próprias
neuroses e frustrações não estejam
guiando nossos filhos. Uma
maneira de fazer isso é sempre perguntar
a si mesmo como um pai:
estou fazendo isso porque é o melhor
para meu filho ou será que tenho
outro motivo oculto?
EC – Quais as consequências de
se criar um filho como quem
gerencia um projeto?
Carl Honoré – Crianças que
estão sob pressão para serem perfeitos
podem acabar menos criativas.
Elas não têm o tempo ou o espaço
para explorar o mundo em seus
próprios termos, para aprender a
correr riscos e cometer erros. Elas
não aprendem a pensar por si mesmas,
apenas fazem o que é dito.
Também não aprendem a olhar
para dentro de si para descobrir
quem são, porque estão muito ocupados
tentando ser o que nós queremos
que sejam. Elas também podem
sofrer de mais estresse e
exaustão. E não aprendem a usar o
tempo, ou como preencher o tempo
por conta própria – então se
entediam mais facilmente. Crianças
que tiveram todos os momentos
de suas vidas gerenciados, organizados,
controlados e programado
pelos adultos, dificilmente conseguirão
andar com seus próprios
pés. Em outras palavras, eles nunca
crescem. É por isso que os estudantes universitários estão sofrendo
problemas de saúde mental em
números recordes.
EC – Na sua opinião, por que
as novas gerações de adultos têm
mais dificuldades em impor limites
aos seus filhos e, ao mesmo tempo,
tentam gerenciar a infância para a
competitividade?
Carl Honoré – A disciplina corre
contra esta geração. Temos uma
geração pós-60 do ‘viva e deixe viver’.
A cultura Peter Pan glorifica
a juventude e não os incentiva a
crescer. Estamos tão próximos emocionalmente
de nossos filhos – muitos pais os descrevem como seus “amigos” – o que torna mais difícil
dizer “não”. Penso também que nos
sentimos culpados por toda a pressão
que colocamos em nossas crianças
para competir e ser ‘o melhor’ – e isso significa que nós preferimos
não dizer “não” a eles em
outros aspectos da vida.
EC – Qual foi a sua motivação
para escrever Sob Pressão?
Carl Honoré – Tudo começou
em uma noite “pai-professor”. O
desempenho do meu filho de
sete anos na escola era bom, mas
a professora de arte dele realmente
queria atingir um ponto
mais alto. “Ele se destaca na
classe”, disse ela emocionada. “Seu filho é um jovem artista
talentoso”. E lá estava ela, a
palavra que deixa o coração de
qualquer um acelerado:
Superdotado. Naquela noite,
passei a madrugada na internet à procura de cursos de arte para
ajudar meu filho. Visões de que
ele estaria ao lado de Picasso
povoaram minha mente até a
manhã seguinte. “Eu não quero
um tutor, eu só quero desenhar”,
disse o menino no café da manhã. “Por que os adultos
sempre têm de assumir tudo?” Isso bateu como um cinto no
meu traseiro. Meu filho adora
desenhar. Ele pode passar horas
debruçado sobre um pedaço de
papel, inventando formas de vida
alienígenas, projetando histórias
em quadrinhos ou desenhando
David Beckham jogando futebol.
Ele desenha bem e isso o faz feliz.
Mas alguma coisa não estava bem.
Parte de mim queria aproveitar
essa felicidade, para aprimorar e
polir seu talento, para transformar
sua arte em uma conquista. Meu
filho tinha razão: eu estava tentando
assumir. E esse foi o momento
em que eu soube que tinha perdido
o rumo como pai e que precisava
mudar.
EC – O senhor afirma que o livro
não é um manual para pais, mas
aponta um caminho a ser seguido.
Que caminho é esse?
Carl Honoré – Nós queremos a
mesma coisa: que nossos filhos sejam
felizes e saudáveis e alcancem
seu pleno potencial. E isso é possível
se relaxarmos um pouco, se
conseguirmos o equilíbrio entre
fazer muito e nada fazer para nossos
filhos. Ignore o pânico e a pressão
dos colegas. Seu filho vai ficar
bem. Confie nos seus instintos.
Encontre sua própria forma de ser
pai ou mãe. Ouça e observe seu
filho. Uma criança não é um projeto,
produto, troféu ou um pedaço
de argila que você pode moldar
como uma obra de arte. Uma criança é uma pessoa que vai prosperar
se você permitir que ela seja
protagonista de sua própria vida.
Os pais desta geração perderam
confiança. Isso nos torna presas
fáceis para empresas vendendo ferramentas
educativas desnecessárias
(capacetes para proteger crianças
de dois anos, que estão aprendendo
a andar, de quedas e
ferimentos, alguém se interessa?).
E a pressão de pais vulneráveis.
Escrevi Sob Pressão para recuperar
a minha própria confiança e ajudar
outros pais a fazerem o mesmo.
Pais confiantes são capazes de resistir
ao alarmismo e à pressão para
encontrar sua própria maneira de
educar seus filhos. Não existe uma
fórmula mágica para criar filhos.
Cada criança e cada família são únicas. O segredo é encontrar a
forma, o estilo que funciona melhor
para você e seus filhos e não
fazer exatamente o que todo mundo
está fazendo.
EC – Existe algum indicador de
que é possível agir diferente?
Carl Honoré – Eu definitivamente
vejo a mudança chegando. Na
verdade, este é exatamente o tema
de Sob Pressão: a mudança positiva
que está ocorrendo em todo o mundo.
As escolas estão reduzindo a
obsessão pelos exames e trabalhos
acadêmicos e descobrindo que
quando os alunos têm mais tempo
para relaxar, refletir e tomar conta
de sua própria aprendizagem, eles
aprendem melhor. Não muito tempo
atrás, Cargilfield, uma escola privada,
na Escócia, proibiu a lição de
casa para alunos de três a 13 anos.
Em um ano, as notas nas provas de
Matemática e Ciências aumentaram
quase 20%. Para dar um descanso
para as crianças mais atarefadas,
cidades de todo o mundo estão
criando um dia especial em que
todos os trabalhos de casa e atividades
extracurriculares são canceladas.
Muitas famílias estão tão aliviadas
de, pelo menos por uma tarde, não precisar sair correndo para
acompanhar as atividades extraclasse
de seus filhos, que estão revendo
seus planos durante o resto do
ano. Universidades de elite também
estão agindo de forma semelhante.
O Instituto de Tecnologia de
Massachusetts recentemente renovou
seu formulário de candidatura,
reduzindo a ênfase sobre o número
de atividades extracurriculares
e permitindo que o candidato
fale mais sobre o que ele realmente
gosta. A nossa propensão
de envolver as crianças numa bolha
para mantê-los seguros está sendo
revista. Em uma nova pré-escola,
na Escócia, crianças de três anos
passam o dia em uma floresta sob
duras condições meteorológicas, em
campo aberto, com incêndios e fungos
venenosos. Claro, elas correm
riscos, mas retornam mais felizes,
mais confiantes e menos propensas
a doenças e alergias. Veja o sucesso
mundial de O Perigoso Livro para
Garotos, um manual cheio de dicas
sobre como desfrutar de todos os
tipos de passatempos perigosos, de
corridas de kart a estilingues e
catapultas.
EC – De que forma a mídia influencia
essa cultura – criar filhos
como quem gerencia um projeto – e
qual a responsabilidade da escola e
dos educadores em uma mudança
de comportamento?
Carl Honoré – A mídia retrata
as crianças como acessórios de
moda. Você vê celebridades como
David Beckham ou Brad Pitt exibindo
seus filhos para os paparazzi.
Atrizes fazem fila para mostrar suas
barrigas e mais tarde seus bebês
recém-nascidos nas revistas de fofoca.
E, claro, as imagens são todas
perfeitas, todo mundo parece
feliz, saudável, rico e bem sucedido.
Isto coloca uma grande pressão
sobre os pais normais para fazer
seus próprios filhos tão perfeitos.
Impõe-se um padrão impossível,
que todo mundo acha que tem que
alcançar. A mídia também adora
o pânico e o medo e exagera o
quão perigoso o mundo é para
nossas crianças. As escolas e os
professores desempenham um papel
muito importante nesse sentido.
Eles podem explicar aos
pais a necessidade de descanso
e tempo livre, que cada criança é diferente e única. Acredito
que os professores estão tomando
a liderança no enfrentamento
da cultura de pressionar
as crianças – porque são eles
quem mais enxergam as consequências.
EC – De que forma Sob Pressão
se insere na Slow Movement?
Carl Honoré – A filosofia
Slow não significa fazer tudo no
ritmo de um caracol. Significa
fazer tudo na velocidade certa.
Isso implica qualidade sobre a
quantidade; reais e significativas
conexões humanas, estar
presente e no momento presente.
A proposta da filosofia Slow é dar às pessoas a visão e a coragem
para mudar a forma de como
fazer tudo: trabalho, esporte, saúde,
comida, sexo, design... e, claro,
a educação. Para mim, a educação
paciente é a que traz equilíbrio para
a casa. As crianças precisam se esforçar,
mas isso não significa que a
infância seja uma disputa. Pais pacientes
dão aos seus filhos mais tempo
e espaço para explorar o mundo
com seus próprios limites. Eles mantêm
o calendário familiar sob controle
de modo que todos têm tempo
para descansar, refletir e sair juntos.
Aceitam que dar o melhor de
tudo pode não ser sempre a melhor
política, porque nega uma lição de
vida muito mais útil de como fazer
o melhor com aquilo que temos.
Educação paciente significa permitir
que os nossos filhos trabalhem
quem eles são e não o que nós queremos
que eles sejam. Isso significa
deixar as coisas acontecerem em
vez de forçá-las. Significa aceitar
que as mais ricas experiências de
aprendizagem não podem ser resumidas
em um currículo. Pais pacientes
entendem que a educação não
deve ser um cruzamento entre um
esporte competitivo e um produto
em desenvolvimento. Não se trata de
um projeto, é uma viagem de descoberta.
Educação paciente é dar muito
amor e atenção às crianças, sem
impor quaisquer condições.