O grande banheiro eletrônico
Alvo de chacotas de colegas e professores,
dois jovens sem antecedentes criminais, alunos do colégio
Columbine High School, no Colorado (EUA), invadem a escola, matam
13 pessoas e depois se suicidam. Um estudante de Remanso, na Bahia, é assassinado
após jogar um balde de lama em um colega de aula. Em Taiúva,
interior de São Paulo, um ex-aluno volta à escola
com revólver na mão e fere gravemente cinco pessoas,
antes de se matar. Obeso, ele era motivo de piadas no colégio.
Os três episódios trágicos, ocorridos entre
1999 e 2004, são desdobramentos do bullying, fenômeno
tão antigo quanto a humanidade, mas que cresce e preocupa
cada vez mais os educadores. Na internet, espaços como o
Orkut e seus similares acabam por substituir as clássicas
paredes dos banheiros escolares como mídia para agressões
escritas contra alunos e professores, porém em uma proporção
nunca antes vista.
Paulo César Teixeira

palavra
inglesa
bullying não tem similar no idioma português,
mas pode ser compreendida como
uma violência praticada
de forma sistemática e intencional por crianças e adolescentes
no ambiente escolar, com o intuito de amedrontar, difamar, discriminar, tiranizar
e excluir.
Apelidos pejorativos – “baleia”, “rolha de poço”, “pintor
de rodapé”, etc. –, empurrões, tapas, ofensas e roubos
de pertences se enquadram no conceito. O que diferencia o bullying de brincadeiras
inocentes é a repetição da atitude agressiva, sem motivação
aparente, causando dor, angústia, vergonha, sensação de
impotência e ansiedade em suas vítimas.
Apesar de raros, episódios com desfecho trágico sinalizam os riscos
de um fenômeno mundial, que afeta escolas públicas e privadas, freqüentadas
por alunos pobres ou ricos. “Quando iniciei meus estudos, em 2000, os índices
internacionais apontavam envolvimento de 7% a 24% dos estudantes. Hoje, os percentuais
são de 5% a 35% e, o que é mais grave, com a participação
de crianças da mais tenra idade escolar”, afirma Cleo Fante, pesquisadora
e educadora, autora de Fenômeno bullying: como prevenir a violência
nas escolas e educar para a paz (Editora Verus).
Aparência é
motivo de discriminação
No Brasil,
não existem pesquisas de abrangência nacional, mas
dois estudos recentes dão mostras significativas da gravidade
da questão. Entre 2000 e 2003, a própria Cleo Fante
coordenou pesquisa em cinco escolas das redes pública e
particular da região de São José do Rio Preto
(SP), analisando o comportamento de 2000 estudantes. O resultado
revelou que 49% estavam envolvidos com o bullying e, neste universo,
22% atuavam como vítimas, 15% eram agressores e 12% desempenhavam
ambos os papéis.
Já a pesquisa da Associação Brasileira Multiprofissional
de Proteção à Infância e à Adolescência
(Abrapia) foi desenvolvida de setembro de 2002 a outubro de 2003,
envolvendo 5.875 alunos de 5ª à 8ª séries
de onze escolas do município do Rio de Janeiro. O levantamento
evidenciou que 40,5% dos estudantes estavam diretamente envolvidos
em atos de bullying, sendo que 16,9% como alvos, 12,7% como autores
e 10,9% como alvos/autores.
Um dos aspectos que chamou atenção dos pesquisadores
foi o fato de que a maior parte dos episódios ocorria dentro
da sala de aula, e não no horário de recreio ou de
entrada e saída da escola. “É uma situação
diferente da que é relatada em estudos realizados no Exterior.
Isso aumenta a responsabilidade do professor na prevenção
e detecção precoce do fenômeno”, diz o
pediatra Aramis Lopes, fundador da Abrapia e coordenador da pesquisa
sobre bullying no Rio de Janeiro.
Os tipos de discriminação de maior incidência
na pesquisa da Abrapia foram os apelidos, com 52% dos casos, seguidos
de agressões físicas, difamações e ameaças.
Para Marcelo Slomka, mestrando em Psicologia na PUCRS, o comportamento
agressivo sempre existiu na escola, mas agora se intensificou graças
ao bombardeio da mídia e da propaganda sobre supostos padrões
estéticos de normalidade.
“O bullying passa pelas características da aparência
física da pessoa. Qualquer coisa que saia do padrão
cultural vigente é motivo de discriminação.” A
dissertação de Slomka sobre corpo e juventude tem como
base pesquisa com alunos do 2º ano do Ensino Médio do
Colégio Aplicação, da capital gaúcha.
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Cyberbullying: ofensas e difamações na rede
Nos últimos anos, o bullying ganhou maior amplitude com o uso de ferramentas
tecnológicas avançadas, como a telefonia celular e a internet. “O
modelo virtual do bullying é o mais difícil de interromper, devido
a seu poder propagador”, diz Cleo.
Em algumas escolas dos Estados Unidos, já existe a orientação
de proibir o ingresso de alunos com telefones celulares. Tornou-se comum a divulgação
de fotos de estudantes nus em vestiários, obtidas através de câmeras
digitais embutidas em celulares e depois popularizadas em torpedos ou expostas
na internet.
A principal ferramenta do cyberbullying, entretanto, são as comunidades
formadas por alunos em sites da internet, como o Orkut. Elas têm como objetivo
difamar ou atacar professores e colegas de aula. Grosso modo, essas comunidades
virtuais exercem papel semelhante ao das paredes ou portas de banheiros, onde
tradicionalmente os estudantes costumavam exercer sua verve difamatória.
A diferença é que, agora, os ataques ganharam visibilidade planetária.
Entre os pesquisadores, a sensação diante do bullying virtual é de
perplexidade. “Ninguém sabe o que fazer para erradicá-lo”,
admite Lopes, da Abrapia. Em junho de 2005, ele representou o Brasil em uma conferência
internacional on-line sobre cyber-bullying, com a participação
de 34 especialistas de 17 países, que não chegaram a nenhuma conclusão
efetiva sobre as formas de prevenção. “O que sabemos é que
a ferramenta tecnológica por si só não é culpada,
e sim o uso inadequado que as pessoas fazem dela”, ressalta o pediatra.
Fenômeno se espalha pela Capital e Interior
Um garoto tímido, com dificuldades de relacionamento, foi alvo de ataques
em uma comunidade do Orkut, criada por seus colegas de uma escola de classe média
alta de Porto Alegre. Curiosamente, ele próprio fazia parte da comunidade
e assistia às agressões sem tomar qualquer atitude. “Apesar
de sofrer, aceitava o jogo dos colegas, provavelmente, porque pensava que, agindo
assim, seria aceito pelo grupo. Chegou uma hora em que não agüentou
a pressão e abriu o jogo em casa”, relata a diretora do colégio.
Inconformados, os pais da vítima ingressaram com processo judicial por
dano moral contra a família do adolescente que havia fundado a comunidade
do Orkut.
Os agressores utilizam o Orkut não só para atacar colegas, mas
também professores e diretores das escolas. Basta clicar a expressão “odeio
o professor” no comando de busca do site para constatar que existem centenas
de comunidades criadas por alunos para difamar docentes em todo o país.
Uma das vítimas é uma professora de Educação Física
de uma escola religiosa da capital gaúcha.
“No início, era apenas uma implicância de algumas alunas. Elas bagunçavam
as aulas e me xingavam. Como não aceitei o mau comportamento, criaram
duas comunidades no Orkut contra mim”, conta a professora, que registrou
em cartório as páginas da internet e não descarta a hipótese
de processar as famílias por calúnia e difamação.
As comunidades foram retiradas do ar por interferência da direção
da escola.
Em Rio Grande, uma professora que se destaca por ser exigente em sala de aula,
cobrando rigor dos estudantes no cumprimento das obrigações escolares,
foi alvo de chacota em outra comunidade do Orkut, onde os alunos fizeram comentários
jocosos atingindo sua vida privada. A página da internet foi retirada
do ar, mas os estudantes não foram responsabilizados.
Em outro colégio do interior gaúcho, um aluno do Ensino Médio
foi expulso após chamar a diretora da escola de “vadia” na
comunidade oficial da instituição no Orkut. Ela interpelou o estudante
em sua sala e avisou: “Aqui você não fica mais. Comunique
seus pais que é hora de procurar outra escola”.
Pais podem ser responsabilizados
Em dezembro, o deputado federal Wladimir Afonso da Costa Rabelo (PMDB/PA) obteve
liminar para retirar do ar mensagens ofensivas nas comunidades do Orkut, denominadas
Eu tenho vergonha do Wlad,
Odiamos o Wlad e
Eu odeio o
populista do Wlad. A ação
considera a empresa Moun-taury Pimenta Machado & Lioce S/C Ltda. como representante
do Google (provedor do site do Orkut) no Brasil.
Esta não é a primeira vez que o Orkut se envolve com questões
judiciais no país. Em novembro de 2004, as freiras do Colégio São
Paulo, da capital paulista, conseguiram liminar para suprimir o nome e a logomarca
da escola em uma comunidade criada por ex-alunos. A comunidade chamava-se
Holden
Caulfield (personagem do romance
O apanhador no campo de centeios, de J. D. Sallinger)
e continha ataques pessoais às religiosas e aos professores, além
de críticas aos métodos de ensino do colégio.
De acordo com a advogada Liza Bastos Duarte, autora de
Hermenêutica jurídica,
uma análise de temas emergentes (Editora da Ulbra) e especialista em processos
judiciais envolvendo a internet, não há como responsabilizar as
escolas em caso de agressão a alunos ou professores nas comunidades do
Orkut. “A escola pode punir administrativamente os infratores, mas a responsabilidade
civil é dos pais dos estudantes. Também o provedor pode ser responsabilizado”,
adverte ela.
Embora não exista legislação específica sobre os
crimes na internet, os episódios envolvendo comunidades do Orkut devem
ser enquadrados no artigo 186 do Código Civil, que trata do dano moral. “Em
todo o mundo, a legislação não consegue acompanhar o avanço
tec-nológico. Quando uma lei é sancionada, já caiu em desuso.
Por isso, precisamos menos de leis e mais de hermenêutica jurídica.”
A questão é que, nos crimes praticados na internet, existe grande
dificuldade para provar a autoria. “O conjunto pro-batório é frágil
e vulnerável, à medida que o acusado pode alegar que outra pessoa
usou seu nome e se fez passar por ele para criar, por exemplo, uma comunidade
difamatória no Orkut”, afirma Liza.
Estudantes criam código de convivência no Rio
Algumas pistas sobre o que deve fazer a escola são encontradas nas duas
pesquisas de maior amplitude realizadas no Brasil sobre
bullying. A educadora
Cleo Fante implantou em São José do Rio Preto o “Programa
Educar para a Paz”, obtendo índices significativos de redução
do
bullying. “Após dois anos, o percentual de vítimas caiu
de 22% para 4%.” O “Educar para a Paz” sistematiza estratégias
psicopedagógicas fundamentadas em princípios de solidariedade,
tolerância e respeito às diferenças, envolvendo toda a comunidade
escolar.
No Rio de Janeiro, a Abrapia ajudou as escolas a desenvolverem medidas de prevenção,
que incluíam palestras de especialistas para alunos, professores e pais,
além de atividades artísticas como teatro e artes plásticas.
Algumas turmas chegaram ao refinamento de firmar um contrato de convivência,
que era exposto em um cartaz colado na parede da sala de aula ou transcrito em
papel ofício assinado por todos os estudantes. O termo de compromisso
fixava punições cabíveis em casos de bullying – penas
leves, como suspensão do recreio durante dois dias. Outras turmas criaram “grupos
de fiscalização”, que vigiavam o comportamento agressivo
dos colegas e socorriam as vítimas de
bullying.
A campanha funcionou. Um ano depois de implantada, o índice de estudantes
envolvidos em
bullying foi reduzido de 40,5% para 30%, e os casos em sala de
aula diminuíram de 60% para 35%. Melhor do que isso, 64% dos alunos tiveram
participação ativa na campanha de prevenção. Os casos
de sucesso no atendimento às vítimas de agressão subiram
de 20% para 40%. “A possibilidade de êxito de uma campanha contra
o
bullying está diretamente ligada ao grau de envolvimento da comunidade
escolar. É fácil lidar com a situação quando a escola
está sensibilizada para o tema”, conclui o pediatra Aramis Lopes.
Escolas
podem e devem adotar medidas de prevenção
Se a escola não pode ser responsabilizada criminalmente,
o que ela pode fazer para prevenir e erradicar o bullying? A diretora
do Colégio João XXIII, de Porto Alegre, Anelori Lange,
entende que os educadores não devem se omitir diante da
gravidade do fenômeno. “Cabe à escola alertar
os pais e desenvolver atividades de conscientização.
No caso do cyberbullying, é necessário realizar um
trabalho de formiguinha para que possam ter noção
da ferramenta que têm à disposição.”
O João XXIII promove palestras sistemáticas com psiquiatras
sobre bullying para professores, alunos e familiares dos estudantes,
através do Serviço de Orientação e
Psicologia da escola. “Às vezes, os pais entram no
quarto do adolescente e não percebem o que ele está fazendo
em frente ao computador.” Por medida de precaução,
os PCs da biblioteca e do laboratório de informática
do colégio não dão acesso ao Orkut.
No Colégio Bom Conselho, também da capital gaúcha,
a direção afirma que, diante da ocorrência
de episódios de bullying, o papel da escola é criar
um momento de reflexão com os alunos sobre as questões éticas. “Uma
das medidas importantes é a discussão do tema em
sala de aula, ampliando o debate em torno do uso das tecnologias.
O avanço tecnológico deve estar a serviço
da humanidade e do respeito à dignidade de cada pessoa”,
afirma Irmã Ilse, diretora do Bom Conselho.
Irmã Esperança, diretora do Colégio Maria
Imaculada, nota que o comportamento dos alunos mudou radicalmente
nos últimos anos. “Isso é evidente. Eles estão
mais agressivos, inquietos, desatentos, se ofendem com nomes pesados,
pontapés e empurrões.” Para ela, as causas
do fenômeno passam pela desestruturação das
famílias e pela falta de limites na educação
das crianças. “Outro dia, um estudante disse que queria
matar a professora”, espanta-se Irmã Esperança.
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