RETROSPECTIVA 2005
Idéias não perecíveis
Fragmentos das entrevistas de 2005 com respostas de prazo de validade
indeterminado
Ao
longo de 2005 foram dez edições e por elas passou
igual número de personalidades que utilizaram nossas páginas
para expressar suas idéias. Neste início de 2006,
estamos destacando um fragmento de cada uma destas entrevistas,
em que o único critério foi o de que contivessem
respostas, cujo prazo de validade não as tivesse tornado
obsoletas. Freqüentaram as páginas do Extra Classe:
o cientista social Manuel Castells, que fala sobre sociedade tecnológica
contemporânea e Internet; o pacifista e consultor Dominic
Barter explica o conceito de Comunicação Não-Violenta;
Michel Prieur, um dos maiores especialistas do mundo em direito
ambiental afirma que o meio ambiente precisa de uma globalização
do bem; entrevista inédita do Extra Classe com o ícone
da literatura latino-americana Augusto Roa Bastos, por ocasião
da sua morte; o promotor de Justiça Ricardo Herbstrith explica
a ação do Ministério Público no caso
de vendas de cirurgias do SUS para hóspedes de albergues
mantidos por deputado estadual; o glaciólogo Jéfferson
Simões alerta sobre os perigos do aquecimento global; o
jornalista Lucas Figueiredo, que escreveu um livro sobre a história
do serviço secreto brasileiro, diz que Abin é poder
paralelo; o escritor Jostein Gaarder, de O mundo de Sofia, afirma
que a Filosofia pode ser popular; o escritor e editor Rovílio
Costa, Frei Capuchinho, fala de seu trabalho na edição
de livros sobre a constituição étnica do RS;
o físico austríaco Fritjof Capra, um dos mais influentes
pensadores do movimento ecológico mundial expõe seu
pensamento. Enfim, algumas idéias que podem ser levadas
para 2006, não apenas para ficarmos alertas, como é o
caso dos albergues, mas também para mantermos a reflexão
e o debate.
Da Redação
Extra Classe – Vivemos hoje um processo semelhante ao processo
da acumulação primitiva (expressão cunhada
no século XIX, por Karl Marx, em O capital) caracterizada
pelo monopólio agrário ocorrido nos séculos
XIV e XVI. Ou seja, passamos do monopólio agrário
para o monopólio tecnológico das grandes corporações.
Quais as formas de desmontar esse monopólio, se é que é possível?
Manuel Castells – Gosto da comparação com
o monopólio agrário. Chamo de latifundiários
da Era Tecnológica os controladores da tecnologia. O que
se deve fazer para evitar o controle do monopólio da tecnologia?
A primeira coisa é dar-se conta da importância da
questão e de que não é um assunto para especialistas.
Isto é um assunto que a sociedade, entretanto, não
sabe. Por que é importante o software livre? Porque a vida
das pessoas pode ser determinada por quem controla e se apropria
da tecnologia. Então, é preciso dar-se conta de
que não é um problema tecnológico, é um
problema de controle das forças produtivas da sociedade
e da capacidade de comunicação autônoma da
sociedade e da liberdade de expressão da sociedade. Ou
seja, é todo o mundo. É economia, é comunicação, é política, é cultura.
Segundo ponto, em função disso, é um movimento
contra as grandes corporações e burocracias administrativas
que não entendem e vão sempre pelo mais fácil.
E terceiro, falta que os governos tomem consciência do que
está acontecendo, que tenham inteligência e, em alguns
casos, a coragem de apoiar seriamente o software livre. E nisso
o governo do Brasil está se transformando num exemplo no
mundo pelo apoio a uma autêntica transformação
tecnológica e cultural que é o software livre; mas
não está ganha a batalha, porque há uma parte
do governo atual do Brasil que não entende isso.
Extra Classe – Na prática, quais as palavras-chaves
da Comunicação Não-Violenta?
Dominic Barter – Observações, sentimentos,
necessidades e pedidos são os quatro ingredientes principais
da Comunicação Não-Violenta. Ou seja, trabalha
com uma linguagem não judicial e baseia-se nestes quatro
ingredientes. Aprende-se a expor os fatos de uma situação
sem interpretação ou opinião; reconhecem-se
os sentimentos implícitos; identificam-se quais necessidades
humanas estão ou não estão sendo atendidas;
e apontam-se quais ações se gostaria de ver executadas
para satisfazê-las.
Extra Classe – Nesse contexto de globalização
da questão ambiental, qual é o papel do
Estado e qual é a importância do território?
Michel Prieur – O Estado torna-se um ator como qualquer
outro. Ele não tem mais o monopólio da decisão, é uma
região do mundo e tem de fazer compromissos, submeter-se
a obrigações. Tudo isso abala os princípios
tradicionais de soberania estatal – da independência
estrita e rigorosa em que cada um é dono de seu
nariz e desprovido do direito de olhar o que se passa
na casa do vizinho. Isso não é mais possível
no campo ambiental e nem no âmbito da cultura. Com
a comunicação das idéias e com a
internet, não existem mais lugares isolados. Esta
comunicação mundial facilita o trabalho
coletivo, mas afeta o Estado. Obriga-o a mudar sua maneira
de pensar e agir.
Extra Classe – Antônio Skár-meta refere-se
em um texto à sombra terrível de Borges,
que assombraria os latino-americanos. Isso existe? Qual é o
escritor latino-americano mais influente na América
Latina? E em sua obra?
Augusto Roa Bastos – Se a sentença é verdadeira,
o juízo é fatal. Toda arte é imitação
e é inútil escapar de uma sombra como a
de Borges. É inexorável. Mas eu acho que
a influência de Borges é mais de fundo que
de forma. Certamente, ali estão esses magníficos
giros de linguagem, mas isso está na superfície.
E, por sorte, nós escritores gostamos muito mais
de reler que ler Borges. Então, essa ornamentação
formal vai dando lugar ao verdadeiro problema que nos
traz toda a imensa e inesgotável obra de Borges.
As grandes respostas que levam às últimas
perguntas. Este questionar continuamente ao espelhismo
que confundimos com a realidade. Por isso, sempre digo
que esta influência de Borges (como toda grande
influência) tem seus prós e seus contras.
Ao mesmo tempo, sempre saímos ganhando da escola
de Borges. Com relação à influência,
acho que Borges e Rulfo são os mais influentes
para os que fazem literatura na América Latina.
Desgraçadamente conhecemos muito pouco da literatura
do Brasil. Na verdade, conhecemos muito pouco do Brasil
todo. Como dizia o genial Guimarães Rosa, “somos
como gêmeos unidos pelas costas, que nunca olharam
no rosto um do outro”; a América hispânica
e a lusitana. Como dois irmãos grudados pelas costas
que jamais se viram nem se reconheceram. Preste atenção
que esta imagem é terrível. Muito mais ameaçadora
que a “sombra” de Borges em quem eu jamais
vi sombras, mas unicamente a vivíssima luz de sua
inteligência criadora. Mas esta espécie de
fatalismo entre os dois mundos da América Latina,
o imenso Brasil (quase um continente) por um lado e a
hispano-américa por outro, sem poder ver um ao
outro, ou seja, sem reconhecer-se. Vejo com felicidade
que lentamente se estejam dando os passos para nos aproximarmos.
E é natural compartilharmos os mesmos problemas.
In-teressamo-nos mutuamente. Eu gostaria muito de ver
uma publicação de autores da região,
poderia começar sendo um volume de contos de autores
de Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai.
Seria uma linda idéia. Quando escrevemos O livro
da Guerra Grande (com Alejandro Maciel), tive este especial
interesse de reunir autores de quatro nações
que estiveram enfrentadas até a morte em uma guerra
espantosa. E agora, por outro lado, produzem um livro. É um
avanção, não? Com relação à influência
em minha obra, se é deliberada (coisa que duvido).
Há outro autor que não quero deixar de lembrar:
o anarquista Rafael Barret, que escreveu uma obra genial:
El dolor paraguayo. Fez-me ver a fundo algumas coisas
que eu apenas percebia na superfície. Josefina
Plá me ensinou a ser crítico comigo mesmo.
Isso é saudável.
Extra Classe – Como surgiu a investigação
sobre cobrança de propina para furar a fila do
SUS, com envolvimento de médicos, políticos
e assessores do deputado Vilson Covatti (PP)?
Ricardo Herbstrith – Isso surgiu em setembro de
2003, quando uma pessoa foi encaminhada para a nossa promotoria,
pela Comissão de Direitos Humanos da Assembléia
Legislativa, noticiando exatamente a existência
de cobrança para a realização de
cirurgias e outros tipos de procedimentos no âmbito
do Hospital Cristo Redentor. Essa pessoa denunciava também
que havia sido encaminhada a um indivíduo que faria
esse agen-ciamento por meio dos encarregados da pousada
Nossa Senhora Aparecida, um intermediário, que é vinculado
ao deputado Vilson Covatti. Trata-se de uma senhora de
Ho-rizontina, que veio para ficar na pousada, e o procedimento
a que ela deveria se submeter iria demorar se não
tivesse essa facilitação. Ela se inconformou
com isso e sua filha veio nos procurar e, a partir de
então, nós desencadeamos uma série
de investigações, fizemos filmagens da própria
senhora, ainda em 2003, sendo levada da pousada para o
hospital, num carro pertencente a um médico, dirigido
por esse intermediário.
Extra Classe – Quais seriam as conseqüências
dessa elevação prevista de 4 graus centígrados
na temperatura média da Terra nos próximos
cem anos?
Jéfferson Simões – Quem não
mora no Norte do Canadá ou da Escandinávia
não tem com o que se preocupar. O aquecimento em
alguns graus centígrados vai ampliar a área
para a agricultura e poupar a energia gasta com aquecimento.
A biodiversidade nesses casos não sofre tanto.
Agora, à beira de um deserto como o Saara, onde
as condições climáticas estão
no limite, ou no caso do Cerrado, os organismos terão
que se adaptar rápido ou aumentará a área
afetada pela seca no Nordeste em mais alguns milhares
de quilômetros quadrados. Regiões tradicionalmente úmidas
começam a se tornar mais secas, alterando toda
a teia ambiental. Está comprovado que o centro
da Antártida está aumentando, enquanto a
periferia está derretendo. É de se prever
o derretimento de cumes congelados das montanhas rochosas
no extremo norte da Antártida e extremo sul da
Groenlândia. O Monte Kilimanjaro, que tem uma das
menores geleiras do mundo e já estava no limite,
com esse aquecimento deve sumir em 15 anos.
Extra Classe – O que é preciso para transformar
a linguagem dos filósofos numa linguagem mais acessível?
Jostein Gaarder – Talvez eu tenha uma crença
muito forte no uso de palavras simples, em acreditar que
os pensamentos claros podem ser mais facilmente expressos.
Eu diria que tenho até um sentimento muito ingênuo...
Veja A roupa nova do imperador, história de Hans
Christian Andersen. Os adultos, na história, faziam
teorias e comentários complexos sobre as roupas
do imperador, mas a criança disse: “Ele está pelado”.
E era uma espécie de verdade nua e crua. Eu estive
recentemente numa conferência onde encontrei uma
mãe americana, e ela contou que sua filha de seis
anos estava assistindo à televisão, e o
presidente George W. Bush, como sempre, disse: “Deus
abençoe a América”, ou “Que
Deus continue abençoando a América”.
A criança perguntou à mãe por que
o presidente sempre diz “Deus abençoe a América”,
e não “Deus abençoe o mundo?”.
Posso afirmar que contar, na estrutura de um romance,
toda a história da Filosofia em 500 páginas
pode ser uma super simplificação, mas quando
alguém me diz (e os professores dizem) que eu simplifico,
algumas vezes eu respondo que, se você está pedindo
carona entre Copenhague (Dinamarca) e Roma (Itália),
e um motorista pára o carro e diz que vai até Milão,
você não deve reclamar. Ele vai levar você mais
do que metade do caminho até Roma, e é de
graça. E você pode fazer o resto do caminho
de qualquer forma. Então, depois de ler um ensaio
de introdução à Filosofia, você pode
ser encorajado a ler sobre os filósofos com os
quais você tem mais afinidade.
Extra Classe – Para que serve o serviço
secreto brasileiro hoje, a Abin?
Lucas Figueiredo – Essa é uma boa pergunta.
A minha opinião é que não serve para
nada. É um organismo que possui um orçamento
de 40 milhões de dólares/ano, retirados
do orçamento da União, que é dinheiro
proveniente de impostos, nosso dinheiro, e que fica elegendo
cidadãos brasileiros para investigar, para buscar
um inimigo que, na verdade, não existe. Em geral,
nos países democráticos e desenvolvidos,
os serviços secretos servem para prevenir contra
os chamados inimigos externos. E quem seriam esses inimigos?
Empresas estrangeiras interessadas em fazer biopirataria
ou espionagem industrial, estados com interesses contrários
aos brasileiros e espiões estrangeiros que atuam
livremente em território nacional, assim como acontece
em outros países. No caso da Abin, 98% de sua energia é gasta
contra o inimigo interno e apenas 2% para combater o externo.
Extra Classe – Existe uma tendência a se avaliar
as questões históricas a partir dos fatos
excepcionais?
Frei Rovílio Costa – Sim. Se eu pegar um
livro acadêmico e entregar para a minha mãe,
o que vai significar para ela – “O que está falando
isso aqui?”. Minha mãe não iria ler.
Eu quero escrever algo que seja agradável para
todos. Então cheguei a uma grande conclusão:
nós trabalhamos com o excepcional da cultura e
propomos isso como natural e normal. Todos nós
nascemos com o hábito da leitura, é só não
cultivar a morte do hábito da cultura. Todos nós
nascemos curiosos. Se você coloca uma criança
diante de uma floresta de livros, você vai ver como
ela olhará para todos eles, ainda mais se tiver
desenhos, animais, etc. Poderá notar por onde ela
desenvolve sua curiosidade, por onde ela desenvolveria
sua cultura. Aí o leitor já nasceu, visto
que todos nós nascemos com o hábito da leitura
porque nascemos com o hábito da curiosidade. A
partir do momento em que você desenvolver essa curiosidade
de uma maneira mais científica, sistemática,
indo para o acadêmico, você garante o leitor
para toda a vida. Mas no instante em que você impõe
critérios de instituição, da educação,
você mata o significado da cultura. Por exemplo,
a Revolução Farroupilha: nós todos
nos tornamos revolucionários durante a Semana Farroupilha;
você aprova uma revolução? Mas se
criou uma idéia tão boa, tão positiva,
de que numa semana, todos os anos, alguns de nós
são revolucionários. Durante as comemorações
uns dizem: “Isso é ingenuidade, isso é frescura,
isso é gauchismo, isso são tradições
obsoletas, isso são invenções”.
Mas tem acampamento, tem churrascada, tem charque, tem
carreteiro, tem comes e bebes, tem danças, tem
prendas, tem passeatas, tem cavalgadas. Ora, tudo isso é positivo,
isso é o que interessa: que cada fato não
seja a morte de si mesmo.
Extra Classe – No seu último livro, As conexões
ocultas, o senhor tenta integrar as ciências biológicas
com o cognitivismo e as ciências sociais. Qual é o
ponto comum entre estas três áreas?
Fritjof Capra – O padrão básico de
organização dos sistemas vivos é a
rede. Se entendermos as redes, podemos aplicar esta compreensão às
redes biológicas e sociais. É importante
entender que estas redes não são estruturas
físicas. Quando você fala da teia da vida,
não tem como fotografá-la. É uma
idéia abstrata. É um padrão de relação
entre vários processos de vida. Em um ecossistema,
por exemplo, temos uma teia alimentar. Organismos se alimentam
um do outro. Ao mapear esta estrutura, descobre-se uma
rede. Para entender o que ocorre, não basta só entender
a estrutura da rede, mas também seus processos.
Em redes biológicas, os processos são químicos.
O metabolismo é um processo químico. Então
temos que entender bioquímica. Em uma célula,
o exemplo mais simples de um sistema vivo, há uma
rede metabólica envolvendo as moléculas
da célula. Numa rede social, não falamos
mais de reações químicas, mas de
comunicação. Uma rede social é uma
rede de comunicação. O que é comunicado?
A rede biológica faz troca de moléculas.
Numa rede social, nós trocamos idéias, pensamentos,
informações. Para entender uma rede social,
não basta desenhar um mapa mostrando quem fala
com quem. É preciso saber o que é dito.