Fragilidade
política e
violência policial
A crise política envolvendo o governo Yeda Crusius (PSDB),
atingido por sucessivas denúncias de corrupção,
veio acompanhada
por um recrudescimento da violência policial no
estado. As ações repressivas da Brigada Militar contra
o
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e
outros movimentos sociais tornaram-se rotina. O “
interlocutor” do governo para lidar com protestos sociais
passou a ser o coronel Paulo Roberto Mendes, novo comandante-geral
da Brigada Militar. E a interlocução de Mendes
tem sido uma só: a força. A ação desencadeada
por promotores
do Ministério Público do Rio Grande do Sul, defendendo
a dissolução do MST, só agravou esse quadro.
O atual
cenário político no estado mostra que a fragilidade
política
do governo estadual é inversamente proporcional à violência
com que vem lidando com manifestações de protesto.
Marco Aurélio Weissheimer
situação
política no RS virou tema de
interesse nacional. A colunista Maria
Inês Nassif, do jornal Valor Econômico,
escreveu: “a ação articulada e rápida
do MP
estadual, da Justiça e da polícia gaúcha está
cassando direitos civis e políticos de cidadãos
brasileiros. Inclusive o direito ao voto”. Na
revista Carta Capital, o cientista político Aldo
Fornazieri afirmou: “Nem na ditadura militar
proibiu-se que um movimento social negociasse
com o poder público em torno de reivindicações.
Nunca vi isso”. E Mauro Santayana
escreveu, no Jornal do Brasil, a propósito da
ação do MP: “O documento, em seu radicalismo,
e em sua minuciosa construção de um
fantasioso projeto revolucionário, em pouco
difere do famoso Plano Cohen, redigido pelo
então capitão Olímpio Mourão Filho,
para
uso dos integralistas, e que serviu de pretexto
para o golpe do Estado Novo, em 1937”.
Em artigo publicado no jornal Zero Hora
(29 de junho, 2008), o procurador da República,
Flávio Santanna Xavier, criticou duramente
a decisão do MP e a situação política
no estado. “Repugna à consciência republicana
que no limiar do terceiro milênio
a questão agrária, em nosso estado, seja
tratada como mero caso de polícia. É da
democracia que segmentos sociais ou grupos
políticos se contraponham à concretização
da reforma agrária, que parcela
da opinião pública mire seu descontentamento
em determinado método de
luta pela terra ou que advogue melhores
resultados nos projetos de assentamentos
então existentes”, escreveu. A raiz do problema
no campo, acrescentou, é a total incapacidade
estatal em promover a reforma
agrária no estado, manietado – com o
silêncio de todos, inclusive dos Ministérios
Públicos – que está em promover esta
importante política pública.
Retórica política obscurantista
Outro a se manifestar contra a escalada
de autoritarismo no estado foi o sociólogo
Zander Navarro, do Departamento de Sociologia
da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, que escreveu um artigo manifestando
solidariedade irrestrita ao MST e à reação
ao “abuso de poder que vem tentando
encurralar os trabalhadores rurais semterra
de exercerem um direito constitucional
de organização”. Ele também critica
o
Ministério Público estadual que fez graves
acusações ao movimento, sugerindo o seu cerceamento,
e condena a citação de seu nome
na ação do Ministério Público de forma
distorcida. Para Zander Navarro, a ação do
MP revelou uma “surpreendente retórica
politicamente obscurantista”: “Em sua essência,
o MP desenvolve uma fantasiosa teoria
sobre as formas de luta social que vêm sendo
organizadas há tantos anos pelos trabalhadores
rurais sem-terra no estado”.
Na mesma linha, o procurador do Estado
aposentado, Jacques Alfonsin, afirmou que
a ação do Ministério Público gaúcho
ressuscita
práticas da ditadura no Brasil. Para
Alfonsin, há uma ação orquestrada no Rio
Grande do Sul, baseada na perseguição ideológica. “Nós
estamos enfrentando uma situação de violação
flagrante dos direitos
humanos, de uma infidelidade manifesta do
MP às suas próprias finalidades. Quem lê a
petição inicial vê que o MP vestiu a camisa
dos latifundiários. Na Constituição Federal,
a função do MP não é perseguir pobre,
nem
evitar pressão social de gente que está reivindicando
reforma agrária”. Para Alfonsin,
está em curso no RS um processo de abuso
de poder e de autoridade. O relatório secreto
do Conselho Superior do MP estava preparando
essas ações desde dezembro de 2007,
tendo como objetivo a dissolução do MST,
denunciou.
Senado
investiga violência no estado
A violência do estado contra os movimentos
sociais foi tema da audiência pública
da Comissão de Direitos Humanos
do Senado Federal, dia 24 de junho, na
Assembléia Legislativa gaúcha. No encontro,
foi exibido um vídeo com 13 atos de
violência contra os movimentos sociais. Na
audiência, também foi divulgada a ata
do
Conselho Superior do Ministério Público
que deliberou a formulação de uma política
de intervenção do MP pelo fim do MST,
de suas escolas, pela investigação do
Incra,
da Conab e da Via Campesina. O documento
de três páginas sugere o impedimento
de marchas, de deslocamentos dos agricultores,
assim como a desativação de acampamentos.
Também sugere o cancelamento do
alistamento eleitoral dos agricultores sem-terra
nas regiões em conflito e a formulação
de
uma política oficial do MP com a finalidade
de “proteção da legalidade no campo”.
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