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As
sucessivas crises de Yeda
Conforme o Dicionário Houaiss da
Língua Portuguesa, a etimologia da palavra
parlamento remete ao idioma francês,
mais precisamente ao termo parler,
que significa falar. Não por acaso, a conversa
ao pé-do-ouvido e o acerto de
pontos nos is em confiança fazem parte
dos ritos que viabilizam e sustentam
acordos políticos. Ao gravar em segredo
e depois tornar público um diálogo entre
quatro paredes com o ex-chefe da
Casa Civil do Palácio Piratini, Cézar
Busatto, o vice-governador do Estado,
Paulo Afonso Feijó, feriu uma das regras
básicas da política tradicional, que nem
sempre se pauta pela ética. Mais que
isso, ele acomodou na ante-sala do gabinete da governadora Yeda
Crusius a crise aberta pelas denúncias de corrupção
nas autarquias estaduais. Acuada, a tucana tenta salvar o mandato
sacudido por sucessivas crises. Ao mesmo tempo,
observa o vice impulsionar a candidatura de Onyx Lorenzoni, do
DEM, à prefeitura de Porto Alegre, e quem sabe preparar
terreno para apresentar-se ele próprio como candidato outsider à sucessão
estadual em 2010.
Por Paulo César Teixeira
final,
qual é a razão que motivou o vicegovernador
a divulgar o relato de Busatto
sobre a utilização ilícita de Detran,
Banrisul e Daer para financiamento de campanhas
políticas de partidos aliados, como PP e
PMDB? Analistas políticos não costumam reduzir
as escaramuças palacianas a uma luta
entre o bem e o mal. Para Eduardo Corsetti,
professor de Ciências Políticas da Ufrgs, Feijó age
mais como lobista do que como político. “Ele
tenta articular o interesse do segmento
empresarial dentro da esfera do poder, ao invés
de preocupar-se com o interesse público”. Já Carlos Arturi,
chefe do Departamento de Ciências
Políticas da Ufrgs, custa a crer que o
vice-governador não tenha ambições políticas,
como alega: “Seria bizarro se ele não as tivesse,
depois de tudo o que aconteceu”. O cientista político
Juliano Corbellini, da Ulbra, afirma que Feijó se posicionou como um player
para a sucessão de
Yeda em 2010. “Ele conseguiu projetar-se como
personagem marcante junto à opinião pública.
Mas perdeu a confiança do sistema partidário.
Talvez tenha que pagar o preço do isolamento
político”.
KANT EXPLICA – De fato, embora as
pesquisas mostrem, em um primeiro momento,
a aprovação da opinião pública à atitude
de
Feijó, a repercussão do fato ainda está longe
de se esgotar. No imaginário popular, a divulgação
da fita pode também soar como um ato
de traição. E se levarmos em conta uma cultura
política que valoriza o fio do bigode como
garantia de cumprimento da palavra, ocultar
um gravador no bolso do casaco pode equivaler
a uma punhalada pelas costas. “Se Feijó enviasse
a fita somente para o Ministério Público
e o Tribunal de Contas, vá lá. Mas entregá-la
para a oposição é dar um passo a mais”,
comenta
Arturi. Denis Rosenfield, professor do
PPG de Filosofia da Ufrgs, vale-se de um princípio
do filósofo alemão Immanuel Kant para
defender Feijó: “No campo da política, tudo
aquilo que não pode ser tornado público é injusto
ou imoral”. Como se tratava de um diálogo
entre agentes públicos em um local público,
e não um bate-papo entre amigos, Feijó teria o
dever de revelar o que ouviu. “Se você sabe de
um ato ilícito, nada mais normal que registrar
esse ato ilícito. E se tiver provas, tanto melhor.
A imoralidade está no conteúdo do relato”.
No calendário eleitoral, os reflexos da atitude
do vice poderão fazer-se sentir já na eleição
para a prefeitura da capital gaúcha, em
outubro. O beneficiário de sua imagem de político
incorruptível é o deputado federal Onyx
Lorenzoni, candidato dos Democratas (DEM),
partido de Feijó (leia entrevista à pg 6). Contudo,
a transferência de popularidade não é automática,
como frisa Flávio Silveira, diretor do
Instituto de Pesquisa Meta. O eleitorado ainda
se prende mais à figura pessoal do candidato
que às orientações partidárias. Conforme
Silveira, o episódio da divulgação da fita reforçou
a visão simplificada de que todos os políticos
são corruptos, mentirosos e preocupados
unicamente com benefícios pessoais na vida
pública. “Contrapondo-se a essa idéia arraigada
no senso comum, o eleitor quer o antipolítico,
alguém que não compactue com o jogo político,
pelo menos da maneira como ele vem sendo
feito. A posição de Feijó vem sendo exatamente
esta. Onyx está mais próximo da imagem
tradicional do político e, além disso, teve
participação lateral e coadjuvante nas denúncias
de corrupção".
Um chopp ao cair da noite
O alarde provocado pelo vicegovernador,
de qualquer modo,
pegou no contrapé um governo
que tentava se recuperar de uma
longa trajetória de crises, que começou
antes mesmo da posse.
Não custa lembrar que Yeda teve
um começo de campanha dificílimo
na eleição de 2006. Contratado
para assessorá-la, o
marqueteiro Chico Santa Rita
abandonou a candidata por falta
de pagamento ainda no primeiro
turno e levou junto boa parte da
equipe que fazia o programa de
televisão. “Ela chegou ao governo
apoiada por uma coalizão
minoritária formada por PSDB e
DEM, partidos que sempre foram
pequenos no estado, porque disputam
espaço com PP e PTB, legendas
tradicionalmente fortes no
Rio Grande”, observa Arturi. A
busca de apoio parlamentar e a falta
de quadros para suprir postoschave
na máquina administrativa
levaram Yeda a se abastecer de
siglas como PMDB, PP e PDT,
cujos indicados dividiam-se entre
o compromisso com o governo e a
perspectiva de suas carreiras pessoais
na política, destaca Corsetti.
A primeira crise de Yeda com
a base de apoio ocorreu em 28 de
dezembro de 2006, ainda antes da
posse, quando foi enviada à Assembléia
Legislativa a primeira
proposta de aumento de impostos,
contrariando o discurso de campanha
da candidata. Além da rejeição
dos parlamentares, a
tucana amargou a renúncia de
dois secretários (os deputados
Berfran Rosado, do PPS, e
Jerônimo Goergen, do PP). Mal o
governo havia iniciado, Yeda sofreu
nova baixa, desta vez, o secretário
de Segurança Pública,
Enio Bacci, do PDT, que abandonou
o cargo alardeando que havia
corrupção no Detran. No final
de 2007, a governadora perdeu
mais uma queda de braço com
a Assembléia para elevar as
alíquotas de ICMS. Para domar a
insubordinação da base aliada,
convocou em janeiro deste ano
nomes com maior trânsito junto
aos parlamentares, como o ex-secretário
estadual da Fazenda
Cézar Busatto (PPS) e o ex-presidente
da CEEE Delson Martini,
para ocuparem, respectivamente,
a Casa Civil e a Secretaria de
Governo. Ambos acabaram exonerados.
Busatto caiu na armadilha
de Feijó e Martini foi citado
em conversas grampeadas pela
Polícia Federal entre envolvidos
no escândalo do Detran. Antes,
o secretário de Planejamento e
Gestão, Ariosto Culau, já havia
sido flagrado tomando chopp ao
cair da noite em um shopping com
o empresário Lair Ferst, indiciado
no escândalo do Detran. Culau
alegou que se tratava apenas de
um encontro entre amigos, mas foi
demitido.
Ninguém pode afirmar com
certeza aonde a crise política, policial
e judiciária vai desembocar,
mas até a oposição mostra-se cautelosa
quanto à hipótese do
impeachment da governadora. “Se
ficar comprovado que houve
responsabilização do Executivo no
achaque aos cofres públicos, aí sim, teremos
que considerar essa possibilidade”, diz o deputado
Adão Villaverde, do PT. Parece
claro que os partidos apontados
como favorecidos pelo financiamento
ilícito de suas campanhas
não têm interesse em ver o circo
pegar fogo. “PMDB e PP não
apostariam em uma crise
agudíssima, porque ela abriria
portas para incógnitas”, afirma
Arturi. Se a governadora deixasse o cargo antes de completar
metade do mandato, haveria eleição
antecipada para a indicação
do sucessor. Neste caso, aparentemente,
o PT seria o único grande
partido a se beneficiar. E se o
impeachment viesse na segunda metade do mandato, ela seria obrigada
a dar posse ao vice. Considerando
o perfil extremamente
conservador de Feijó, nem o PT
apoiaria esta solução, analisa
Arturi.
A confissão e o perdão
A crise política fez com que Yeda perdesse
apoio até mesmo de aliados de primeira
hora de sua candidatura ao
Piratini. Um deles é o filósofo Denis
Rosenfield, que admite sentir-se “frustrado” e “decepcionado” com
a governadora. “Freqüentemente,
ela adota uma postura arrogante, que não cai bem
do ponto de vista da população. Quando
tentou aumentar os impostos, deveria
ter sido humilde, pedindo desculpas
por haver mudado de idéia. A religião
cristã inventou a confissão e o perdão
para dar conta disso. Como ela não
confessou, quem vai perdoar”?
O cientista político Juliano
Corbellini foi um dos principais responsáveis
pelo marketing da campanha de
Yeda ao Piratini. Em entrevista à revista
Voto, afirmou que o governo do estado “alterna comportamentos
autistas
com surtos psicóticos, politicamente falando, é
claro. Ora parece viver em um
outro mundo, ora entra em uma imensa
ebulição”. Procurado pelo Extra Classe,
ele mostrou-se mais comedido: “Como analista, constato
que o governo
tem enorme dificuldade de se estabilizar
politicamente. Desde Collares
(Alceu Collares governou o estado de
1991 a 1994), talvez seja o que amargue
os piores índices de aprovação popular”.
Ele entende que, embora Yeda
tenha queimado grande parte de seu
capital político-eleitoral, a fase mais crítica
do incêndio já começa a ser debelada. “Logo,
será preciso recolher o que
sobrou entre os escombros”.
Antes de ajudar a eleger Yeda,
Corbellini havia trabalhado no
marketing da campanha de José Fogaça à
prefeitura de Porto Alegre, em 2004.
Apesar de fazer questão de ser identificado
como analista político e não
marqueteiro, o professor da Ulbra não
descarta participar de outra campanha
eleitoral. “Alguém vai me querer”. No
meio político, tem-se como provável sua
participação no marketing da deputada
federal Manuela D’Avila, do PC do
B, coligada com o PPS, na disputa pela
prefeitura da capital gaúcha.
| "A
geração política de Busatto acabou" |
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Em entrevista ao Extra Classe,
o candidato do DEM à prefeitura
de Porto Alegre, Onyx Lorenzoni, afirma que a crise
do governo
Yeda marca o ocaso da geração de
políticos gaúchos representada
pelo ex-chefe da Casa Civil, Cézar Busatto.
Extra Classe – A luta contra a corrupção
será uma bandeira do
partido nas eleições municipais?
Onyx Lorenzoni – O combate à corrupção
não deve ser uma
bandeira de campanha. Esse é um posicionamento
presente ao longo
de toda a minha vida pública.
Extra Classe – A imagem do vice como figura
pública que não se
submete à política tradicional poderá ser
transferida para os candidatos
do partido?
Lorenzoni – A sociedade gaúcha aplaudiu
a atitude do vicegovernador.
Quase 70% apoiaram o gesto dele. Porém,
acredito que
governadores e vices não têm que estar
em campanha. O vice tem
que cuidar do governo do estado.
Extra Classe – Qual é a sua avaliação
do futuro do governo de
Yeda?
Lorenzoni – Eu sempre olho para as crises
para ver o que há de
bom nelas. O que se tem de bom é que a velha
política que o exsecretário
Cézar Busatto descreveu com crueza e a qual
ele representa
acabou. A prática e a geração
política de Busatto acabaram.
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Comportamento
errático da economia
A crise política atrapalhou o
plano da governadora de construir
uma agenda positiva a partir
do crescimento de 7% na economia
gaúcha em 2007. Depois
de atrasar sistematicamente o
pagamento dos servidores no primeiro
ano de governo, Yeda pretendia
inaugurar uma nova fase
recheada de boas notícias. Para
o economista Ricardo Franzoi,
coordenador técnico do Dieese/RS, o crescimento do RS
em 2007
se deve à alta dos preços de
commodities no mercado internacional,
principalmente a soja, e à
expansão do mercado interno
do país. “Apenas na indústria
metalúrgica, ligada ao setor
automotivo, foram criados 18 mil
novos postos de trabalho no estado,
incremento de 20% em um
ano”. Já o economista Alfredo
Meneghetti Neto, da PUCRS,
afirma que Yeda soube aproveitar
a “janela de oportunidades”: “Como
gestora política, ela tem
influência ao manter incentivos
fiscais para facilitar a entrada de
capital estrangeiro”. Esta política
fiscal, no entanto, contribui
para que o Rio Grande do Sul
continue em penúltimo lugar
entre os estados brasileiros, atrás
apenas de Alagoas, na relação
entre arrecadação de ICM e PIB,
de acordo com Franzoi, do
Dieese/RS.

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