A
imagem de um moleque com um gibi escondido dentro do
livro é superconhecida.
Tornou-se um clichê para designar o estudante que
tenta ludibriar o professor. Essa idéia, porém,
está ultrapassada. Cada vez mais, as histórias
em quadrinhos tornam-se fortes aliadas na hora de fazer
o conteúdo entrar na cabeça dos alunos.
Eduardo Nasi
uando
se trata de História, por exemplo, a parceria já vem
de tempos. Hiron
Goidanich, o Goida, mais célebre dos críticos de
quadrinhos do Rio Grande do Sul, diz que, no Brasil, essa relação
começou com o lendário editor Adolfo Aizen. Ainda
no Suplemento Infantil, encarte de quadrinhos que acompanhava
o jornal A Nação (e, 15 números mais tarde,
por causa do sucesso, ficaria independente sob o nome Suplemento
Juvenil), surgiram as primeiras adaptações de episódios
históricos para o formato de HQs.
–
Dizer que só se pode aprender História nos livros é a
mesma coisa que dizer que só se ouve sinfônica em
concertos – compara Goida.
A partir de 1945, quando fundou a Editora Brasil-América
Limitada (Ebal), consagrada por popularizar os super-heróis
no Brasil, Aizen tomou para si a empreitada de verter a História
para os quadrinhos, em séries como Epopéia e Grandes
Figuras Brasileiras. Não só isso: passou a adaptar
clássicos da literatura. Na série Edição
Maravilhosa, aos clássicos universais, cujos direitos
de publicação eram comprados do estrangeiro (da
Ilíada de Homero à Guerra dos Mundos, de H. G.
Wells), misturavam-se os grandes livros da literatura brasileira.
E aí se tinha Iracema, Os Sertões, O Ateneu, Senhora
e até obras de Jorge Amado, como Gabriela, Cravo e Canela
e Mar Morto, na época ainda fresquinhas. Mas o destaque
fica mesmo para o trabalho esplendoroso que André LeBlanc
fez com O Guarani em 1950 – o haitiano radicado no Brasil
se consagrou como ilustrador da obra infanto-juvenil de Monteiro
Lobato para a editora Brasiliense. No total, foram mais de 200
edições, que só encontraram seu fim já nos
anos 1980, quando a Ebal reduziu significativamente a envergadura
de seu trabalho.
Foto:
Inês Arigoni
Hiron
Goidanich,
o Goida,
um
colecionador de HQs
No exterior, o trabalho de Aizen ocorreu concomitante com grandes
transformações na forma de se ver os quadrinhos – e
na sua relação estreita com a educação.
A Profa. Dra. Maria Beatriz Furtado Rahde, da cadeira de Técnicas
Gráficas: Abordagem Pedagógica do curso de Pedagogias
Multimeios da PUCRS, estudou em seu doutorado a relação
de Alex Raymond (autor do desenho mais antológico do herói
espacial Flash Gordon) com o francês Philippe Druillet – segundo
ela, representantes, respectivamente, do moderno e do pós-moderno
nas HQs. O trabalho está publicado no livro Imagem: Estética
Moderna & Pós-Moderna (Coleção Comunicação,
Edipucrs, 2000).
Segundo a professora, depois da Segunda Guerra, os quadrinhos
levaram a culpa de tudo que aconteceu aos soldados no campo de
batalha. A partir daí, foram implementados códigos
de ética que regulavam o que as revistas em quadrinhos
poderiam ou não mostrar:
–
Na Modernidade, toda HQ deveria ser educativa, exaltando o maniqueísmo.
O herói e o vilão eram figuras bem definidas.
A mudança surgiu no início dos anos 1960, quando
o semanário norte-americano Time colocou o Snoopy na capa
de uma edição.
–
Houve uma revolução. Começou-se a debater
para entender por que a Time, uma revista sisuda de tal renome,
teria feito uma coisa dessas. O Snoopy foi o começo da
Pós-Modernidade nas HQs, e aí que começou
a mudar o que se pensava de quadrinhos. Isso coincidiu com a
entrada de novas tecnologias nas escolas! Havia o retroprojetor
e o projetor de slides como novidades. Todos queriam usar a imagem
na sala de aula, e as HQs entraram como mais um recurso audiovisual.
Beatriz Rahde diz que, no Brasil, essa revolução
chegou nos anos 1970. E, embora reconheça que há alguns
professores reticentes, diz que o uso de HQs em sala de aula é bastante
popular. E dá o exemplo de quem ensina a ensinar:
–
Trabalho as possibilidades gráficas e as relações
que elas podem ter com a sala de aula. Os meus alunos, quando
se formam, vão para escolas com recursos e, bem, outros
vão para escolas sem recursos. Como vou trabalhar só com
computação? Trabalho desde o cartaz de cartolina
até o de computador. No meio do caminho, estão
as histórias em quadrinhos.
Jornalista, crítico de quadrinhos e editor do principal
site de notícias do gênero no país (o Universo
HQ, www.universohq.com),
Sidney Gusman, diz que nos quadrinhos há excelentes adaptações sobre a História
do Brasil.
–
É evidente que, assim como em outros meios de comunicação,
também há algumas “liberdades poéticas”,
mas, no geral, os gibis são uma ótima ferramenta
educativa, quando bem utilizados.
Um problema para essa boa utilização é a
distância entre as editoras especializadas em quadrinhos
e as escolas:
–
Elas estão pensando demais no “agora” e esquecendo
o “amanhã”. E, sem leitores novos, o “amanhã” ficará pra
lá de comprometido. Raras são as editoras brasileiras
que se preocupam em lançar quadrinhos que possam ser aproveitados
em salas de aula, mas, ainda bem, há exceções,
como a Companhia Editora Nacional (que, não por acaso,
não é uma editora de quadrinhos), que lançou
durante a Bienal o livro Pindorama: A Outra História do
Brasil, de Lailson de Holanda Cavalcanti, e pretende adotá-lo
com fins didáticos.
No Japão e na Europa, os quadrinhos têm outro status
Na
Europa e no Japão, a relação com os quadrinhos
já é bem diferente. Em primeiro lugar, porque o
gênero não é considerado uma leitura prioritariamente
infanto-juvenil, como ocorre no Brasil – provavelmente
ecoando o modelo da indústria norte-americana, que fomenta
o mercado nacional. Até na vizinhança, na Argentina
e no Uruguai, os adultos compram muita HQ.
O crítico Hiron Goidanich lembra que a própria
História sempre teve destaque nas HQs européias,
e o exemplo é justamente a dupla de maior sucesso de lá:
Asterix e Obelix, que dão o clima de resistência
dos ancestrais dos franceses à dominação
do Império Romano. Também da França vêm
coleções portentosas como L’Histoire de France
en Bande Dessinée (entre 1976 e 1979), uma série
em 20 volumes pela Larousse.
–
Fez tanto sucesso que depois eles fizeram a História do
Mundo e A História da China, sempre em vários álbuns.
Em Portugal, por conta dos 500 anos da América, saiu a
coleção Relatos do Novo Mundo, da Planeta D’Agostini,
com 56 volumes – recorda Goida.
A profa. Beatriz Rahde complementa: A escola francesa é bastante
tradicional, mas trata da HQ de uma maneira muito séria.
Segundo ela, a França também é pródiga
na pesquisa de quadrinhos. Antoine Roux, já nos anos 1970,
lançou a possibilidade de que a HQ poderia ser educativa.
Já a pesquisadora Evellyne Sullerot (no livro La Bande
Dessinée), por exemplo, constatou, no início dos
anos 1990, que a HQ é importante na educação.
O motivo é simples: de acordo com o levantamento, “o
jovem que lê quadrinhos é o jovem que lê”.
A obra é concluída ao afirmar que a HQ estimula
a percepção e desenvolve outras cognições
em sala de aula.
Não é só na Europa e no passado que a História
entra nos quadrinhos. Goida lembra de um título brasileiro
recente: Fawcett, HQ de André Diniz desenhada por Flavio
Colin, que conta a história de um aventureiro da vida
real, coronel do exército britânico, que se embrenhou
na Amazônia, em 1925. A revista, produzida pela editora
independente Nona Arte, está à venda no site www.nonaarte.com.br,
em que pode ser lida em formato digital pela internet. Colin é um
capítulo à parte na adaptação de
História para o formato HQ – é dele a arte
de A Guerra dos Farrapos, revistinha com roteiro do escritor
Tabajara Ruas que teve 100 mil exemplares distribuídos
gratuitamente pelos postos Ipiranga em 1985 e mais 20 mil recentemente
em edição destinada às bibliotecas das escolas
públicas gaúchas. Além disso, houve uma
versão ampliada em álbum. Todas, lamentavelmente,
fora de catálogo.
Temas com profundidade
Foto:
Inês Arigoni
Profa. Dra. Maria
Beatriz Furtado Rahde
Recentemente,
o Brasil viu chegar às livrarias outros títulos bem interessantes
apontados por Goida: O Último Dia no Vietnã,
de Will Eisner, e as obras do repórter Joe Sacco,
Palestina e Gorazde, que são, na verdade, reportagens
em quadrinhos realizadas em zonas de guerra e, portanto,
atualíssimas. Já Gen: Pés Descalços
também se passa numa guerra: mais precisamente no
fim da Segunda Guerra, e mostra a vida de um menino japonês
antes e depois da bomba atômica.
Sidney Gusman completa a lista com títulos nacionais:
Adeus, Chamigo Brasileiro, de André Toral (Companhia das
Letras): Casa Grande e Senzala, o livro de Gilberto Freyre adaptado
para as HQs por Estêvão Pinto e Ivan Wasth (Abegraph);
Zumbi: A Saga de Palmares, de Antonio Krisnas e Allan Alex (Marques
Saraiva); e O Segredo da Jurema, de Carlos Patati e Allan Alex
(Marques Saraiva).
A professora Beatriz Rahde, porém, adverte que não
basta largar uma revistinha na mão dos alunos:
–
O professor tem de estudar a história das HQs, técnica
narrativa, estética visual. Não dá pra largar
nas mãos dos alunos e só. Afinal, nem toda HQ é boa,
assim como nem todo filme é bom. Nosso dever é desenvolver
espíritos críticos.
Gibiteca
básica
História Mundial
O Último Dia no Vietnã:
Reminiscências, de
Will Eisner
• O Último
Dia no Vietnã:Reminiscências,
de Will Eisner (Devir Livraria)
O criador do Spirit conta histórias de soldados no Vietnã,
enfocando
o lado mais humano da batalha.
Gen: Pés Descalços,
de Keiji Nakazawa
• Gen:
Pés Descalços, de Keiji Nakazawa (Conrad,
quatro volumes)
Um jovem japonês vê sua cidade ser destruída por uma bomba
atômica e precisa se enquadrar nessa terra devastada. Um clássico
dos mangás editado no mundo todo.
• From Hell, de Alan Moore e
Eddie Campbell (Via Lettera, quatro volumes)
Na Inglaterra vitoriana,
os crimes de Jack, o Estripador, formam uma
atmosfera que prenuncia
o século XX.
História
do Brasil
Adeus, Chamigo
Brasileiro - Uma História da Guerra do
Paraguai de André
Toral
• Adeus,
Chamigo Brasileiro – Uma História
da Guerra do Paraguai, de André Toral
(Companhia das Letras)
A partir de dois vaqueiros baianos, um jornalista carioca e um paraguaio que
estudava em Londres, Toral traça um amplo cenário da Guerra do
Paraguai.
• Fawcett,
de André Diniz
e Flavio Colin (Nona Arte)
Em 1925, um coronel
do exército britânico
explora a região em que hoje fica o Parque
Nacional do Xingu.
• Subversivos,
de André Diniz
e outros (Nona Arte)
Série que enfoca a
atividade da luta armada contra a ditadura no
Brasil.
Atualidades
• Palestina
e Gorazde, de Joe Sacco (Conrad,
em três álbuns)
O autor faz reportagens sobre guerras e conflitos
pela ótica das vítimas
e registra em forma de quadrinhos.
Para o envio de cartas,
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