Ano 9 - nº 82
Junho 2004



Luis Fernando Verissimo:
Estou há mais de um mês fora do Brasil. Informações sobre o que acontece aí não faltam, na Internet e nas notícias de familiares e amigos. Mas, se fosse depender da imprensa local para saber do Brasil, poderia desconfiar que ela deixou de existir quando eu viajei...



Nei Lisboa:
– Err... ham... Bom dia.
– Hã? Ah, desculpe, eu estava concentrada aqui no meu tricô. Casaquinho pro neto, sabe? É o jeito, com os juros ao consumidor como estão. Se importa de eu terminar só mais essa carreira? Quero ver se apronto ainda hoje.



Elisa Lucinda:

Adoro o mar de minha terra
É bom dormir ao pé dele
Ao som, à sua cantiga, ao bater das ondas
Esse ninar
O mar de minha terra foi babá antes de ser mar
Foi preta velha, deu de mamar
Depois é que virou mar
Adoro ele, é meu quintal!





Tricô e economia

– Err... ham... Bom dia.

– Hã? Ah, desculpe, eu estava concentrada aqui no meu tricô. Casaquinho pro neto, sabe? É o jeito, com os juros ao consumidor como estão. Se importa de eu terminar só mais essa carreira? Quero ver se apronto ainda hoje.

– Ahm... Sem problema, eu passo pra outro caixa e...

– Esse é o único caixa aberto, moço. Dispensaram os funcionários. Mas fique aí que eu já lhe atendo. Sabe como é, ninguém mais vem ao supermercado em meio de mês. Vai ser assim enquanto a relação dívida/PIB não melhorar, é o que dizem. Que rancho, o seu, hein? O senhor não é daqui, pelo que vejo. Tem certeza de que vai levar isso tudo?

– Cheguei de viagem. Bem... pra falar a verdade eu estava, sim, em dúvida sobre os vinhos.

– Ah, eu sabia. Ficam os vinhos, então, pro seu bem. O risco-país subiu dezoito por cento essa semana, e a BM&F vai de mal a pior. Enquanto a recuperação da economia americana não mostrar solidez maior do que a bolha imobiliária, melhor não arriscar, é o que falam por aí. Se eu fosse o senhor deixava também aquele queijo, dá só uma olhada no preço. Posso terminar a manguinha? Falta bem pouco.

– Claro. O queijo... Pois é, pensando bem, talvez...

– Fica o queijo também, então. Pra evitar um buraco maior no seu cheque especial, que o spread bancário não está pra brincadeira. E quem insufla isso tudo é o financiamento do setor público mais a dependência de fatores externos agravada pela crise do petróleo, é como eles explicam. Agora vamos lá, deixa eu atender o senhor. Mas vai levar mesmo esses congelados? Não prefere pensar melhor?

– Bom...

– Enquanto o senhor pensa, eu faço um pedacinho da gola, tá? Como eu dizia, o superávit em conta-corrente e as cotações das commodities não vão se sustentar se a China pisar no freio do crescimento. E o que se projeta é que o Greenspan aumente em breve os juros primários, estancando o fluxo de investimentos para os países emergentes. Olha só o preço desse macarrão, não vou deixar o senhor ser assaltado desse jeito, vá por mim. Deixe ali, que eu já vou terminar essa carreira e lhe atendo. Então, se a dívida líquida interna não vai ser abatida pelo aumento de carga tributária, teremos que aguardar pelo comportamento do mercado de títulos frente á nova situação, pelo menos é isso o que se comenta. Pronto, agora vamos lá. Uma margarina e...

– A margarina também fica. Mas deixa eu lhe perguntar uma coisa, como é que a senhora conhece tanto de economia?

– Vai só o pãozinho, então? Faz muito bem. Sabe, moço, trabalhei anos num supermercado de Brasília. Aprendi muito só de ouvir os fregueses, aprendi inclusive que quanto mais eles explicam, pior a coisa fica. E, além de falar e tricotar, alguém precisa fazer alguma coisa pelo nosso povo, não é? Guarde o seu troco, moço, e tenha um bom dia.



 
José Luis Fiori

O quebra-cabeça da esquerda (I)
Gerrard Winstanley – soldado e líder radical do exército revolucionário de Cromwell – foi quem traduziu o sonho de todas as grandes utopias igualitárias da história para a linguagem e a agenda política moderna. Para Winstanley, os homens só seriam livres e iguais quando todos tivessem acesso à propriedade da terra e dos seus frutos.





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