
Jornalistas americanos

Estou há mais de um mês fora do Brasil. Informações
sobre o que acontece aí não faltam, na Internet e
nas notícias de familiares e amigos. Mas, se fosse depender
da imprensa local para saber do Brasil, poderia desconfiar que
ela deixou de existir quando eu viajei, ou existe como a Mongólia
ou Luxemburgo, vagas curiosidades geográficas à margem
de qualquer interesse sério. Desde que estou na Europa,
só li três notícias sobre o Brasil. Uma pequena
tratava da vitória brasileira na Organização
Mundial do Comércio na questão dos subsídios.
A outra nem me lembro qual foi, provavelmente sobre música
ou futebol. A que teve destaque foi a reação desproporcional
do governo à matéria do The New York Times.
O que é desprezível deve ser desprezado, não
transformado em caso internacional de previsível péssima
repercussão. Na minha opinião, era tão inaceitável
pensar em expulsar alguém do país daquele jeito,
que quem teve a idéia deve ser expulso do país imediatamente
para não ter outra idéia parecida.
O enfoque e o tom da matéria do correspondente do Times
(não li, me contaram) não são novidade – como
não são novidade as sugestões de que ele seguia
sombrios desígnios americanos de represália e desmoralização.
Pior do que mal-intencionada ou secretamente dirigida, a matéria é tradicional,
apenas outro jornalista americano sucumbindo aos estereótipos
de sempre sobre estes pitorescos latinos – com a vantagem
de, no caso, mirar num presidente especialmente pitoresco. A própria
arrogância da peça não é maliciosa, é um
hábito de pensamento senhorial, como o da elite brasileira,
que não consegue ver um ex-torneiro mecânico ou qualquer
outro de origem popular no poder a não ser como um acidente
social, um vexame sempre prestes a nos envergonhar diante dos estrangeiros.
Pois nossos pobres não são por natureza cachaceiros
sem linha? O americano não escreveu que o Lula é vergonhoso.
Mas tomou o preconceito de classe que a figura e a história
do Lula atiçam como subsídio para os seus próprios
simplismos pré-fabricados, que são os mesmos de quase
todos os seus antecessores.
Um jornalista americano que realmente merece atenção,
Seymour Hersh, já tinha contribuído para mudar a
história do seu país com reportagens sobre o desastre
americano no Vietnã e está fazendo história
outra vez com seu jornalismo investigativo para a revista New Yorker
sobre outro desastre, o que Bush e seus neoconservadores armaram
no Iraque. Suas revelações atuais sobre os responsáveis
graúdos pela tortura de prisioneiros iraquianos e pela tragédia
iraquiana em geral aumentam a preocupação nacional
com a conduta no cargo de um presidente, filho da aristocracia
do seu país, que, como se sabe, abandonou a bebida há anos.
Também merece ser dito que Seymour Hersh não corre
perigo de ser expulso de lugar algum.
