Ano 9 - nº 82
Junho 2004



Luis Fernando Verissimo:
Estou há mais de um mês fora do Brasil. Informações sobre o que acontece aí não faltam, na Internet e nas notícias de familiares e amigos. Mas, se fosse depender da imprensa local para saber do Brasil, poderia desconfiar que ela deixou de existir quando eu viajei...



Nei Lisboa:
– Err... ham... Bom dia.
– Hã? Ah, desculpe, eu estava concentrada aqui no meu tricô. Casaquinho pro neto, sabe? É o jeito, com os juros ao consumidor como estão. Se importa de eu terminar só mais essa carreira? Quero ver se apronto ainda hoje.



Elisa Lucinda:

Adoro o mar de minha terra
É bom dormir ao pé dele
Ao som, à sua cantiga, ao bater das ondas
Esse ninar
O mar de minha terra foi babá antes de ser mar
Foi preta velha, deu de mamar
Depois é que virou mar
Adoro ele, é meu quintal!





Jornalistas americanos

Estou há mais de um mês fora do Brasil. Informações sobre o que acontece aí não faltam, na Internet e nas notícias de familiares e amigos. Mas, se fosse depender da imprensa local para saber do Brasil, poderia desconfiar que ela deixou de existir quando eu viajei, ou existe como a Mongólia ou Luxemburgo, vagas curiosidades geográficas à margem de qualquer interesse sério. Desde que estou na Europa, só li três notícias sobre o Brasil. Uma pequena tratava da vitória brasileira na Organização Mundial do Comércio na questão dos subsídios. A outra nem me lembro qual foi, provavelmente sobre música ou futebol. A que teve destaque foi a reação desproporcional do governo à matéria do The New York Times.

O que é desprezível deve ser desprezado, não transformado em caso internacional de previsível péssima repercussão. Na minha opinião, era tão inaceitável pensar em expulsar alguém do país daquele jeito, que quem teve a idéia deve ser expulso do país imediatamente para não ter outra idéia parecida.

O enfoque e o tom da matéria do correspondente do Times (não li, me contaram) não são novidade – como não são novidade as sugestões de que ele seguia sombrios desígnios americanos de represália e desmoralização. Pior do que mal-intencionada ou secretamente dirigida, a matéria é tradicional, apenas outro jornalista americano sucumbindo aos estereótipos de sempre sobre estes pitorescos latinos – com a vantagem de, no caso, mirar num presidente especialmente pitoresco. A própria arrogância da peça não é maliciosa, é um hábito de pensamento senhorial, como o da elite brasileira, que não consegue ver um ex-torneiro mecânico ou qualquer outro de origem popular no poder a não ser como um acidente social, um vexame sempre prestes a nos envergonhar diante dos estrangeiros. Pois nossos pobres não são por natureza cachaceiros sem linha? O americano não escreveu que o Lula é vergonhoso. Mas tomou o preconceito de classe que a figura e a história do Lula atiçam como subsídio para os seus próprios simplismos pré-fabricados, que são os mesmos de quase todos os seus antecessores.

Um jornalista americano que realmente merece atenção, Seymour Hersh, já tinha contribuído para mudar a história do seu país com reportagens sobre o desastre americano no Vietnã e está fazendo história outra vez com seu jornalismo investigativo para a revista New Yorker sobre outro desastre, o que Bush e seus neoconservadores armaram no Iraque. Suas revelações atuais sobre os responsáveis graúdos pela tortura de prisioneiros iraquianos e pela tragédia iraquiana em geral aumentam a preocupação nacional com a conduta no cargo de um presidente, filho da aristocracia do seu país, que, como se sabe, abandonou a bebida há anos. Também merece ser dito que Seymour Hersh não corre perigo de ser expulso de lugar algum.



 
José Luis Fiori

O quebra-cabeça da esquerda (I)
Gerrard Winstanley – soldado e líder radical do exército revolucionário de Cromwell – foi quem traduziu o sonho de todas as grandes utopias igualitárias da história para a linguagem e a agenda política moderna. Para Winstanley, os homens só seriam livres e iguais quando todos tivessem acesso à propriedade da terra e dos seus frutos.





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