Sartre, um pensador em movimento “Ser livre é não ter medo.”Jean-Paul
Sartre
Há cem anos, no dia 21 de junho de 1905, nascia em Paris,
capital francesa, um homem que dedicou a vida e a obra para fustigar
a liberdade e suas possibilidades. Jean-Paul Sartre, escritor,
filósofo, ativista, foi sobretudo um pensador em movimento.
Deu pernas, braços e voz a idéias tão caras à humanidade
como a liberdade, a determinante fundamental de toda a existência. “Ele
foi um modelo de filósofo que soube pensar muito além
dos muros da academia. Ele soube canalizar as inquietações
sociais e existenciais de sua época e traduzi-las em linguagem
filosófica e literária”, analisa Ricardo Timm
de Souza, professor do programa de pós-graduação
em filosofia da PUC-RS. Para ele, Sartre foi um exemplo de coragem
civil, um pensador, onde pensar e agir se conjugavam da mesma forma.
A obra sartreana é um espelho das grandes questões
do século XX, transitando da angústia do existencialismo
ao questionamento dos dogmas totalizantes do marxismo. É uma
obra em permanente inquietação.
Renato Dalto
professor Ricardo Timm
organiza um seminário,
ainda sem data definida, onde se discutirá alguns aspectos do pensamento
de Sartre. Um pensamento livre que era uma forma aberta de comunicar-se com o
mundo. Porque a vida de Jean-Paul Sartre também é uma obra aberta.
Ele atribuía isso ao fato de ter perdido o pai apenas aos dois anos de
idade. Costumava dizer que não tinha superego.
A base filosófica de Sartre ergue-se em torno da questão da liberdade,
um tema que passa a acompanhá-lo desde que ingressa no curso de filosofia
da Escola Normal Superior, em 1924. Foi nessa escola que conheceu a companheira
de toda a vida, Simone de Beauvoir. A partir de 1933, em Berlim, teve contato
com as obras de Edmund Husserl e as teorias existencialistas de Heiddegar e Karl
Jaspers, até chegar a Kierkegaard. É dessas influências que
nasce a mais forte vertente literária da sua obra.
É
daí que nasce A náusea, publicado em 1938. “Esse livro é tudo, é o
testemunho de uma época. Coloca, de um lado, o horror de um período
sem deixar de ter a capacidade de detectar certas sementes do futuro.” Nesta
obra, o personagem central, Antoine Roquentin, vive nos extremos da solidão,
do sem sentido, do absurdo.
Paulo Hecker Filho, poeta e crítico literário, viveu todo um período
de influência da filosofia de Sartre entre os intelectuais brasileiros. “Depois
da II Guerra Mundial, ele ensinou o mundo a pensar. Ele apostou na liberdade,
no homem com liberdade e criou a psicanálise existencial bem mais provável
que a freudiana.” Hecker cita Le Mur (O muro) como a grande obra literária
sartreana. É o homem na situação extrema, através
do personagem Pablo Ibietta, combatente republicano na Espanha, torturado pelas
tropas do general Franco, nos limites da coragem e da fidelidade a uma causa.
O viés existencialista, porém, imprimirá na obra de Sartre
uma dinâmica de não separar o indivíduo das grandes questões
coletivas. A filosofia se expressa em obras como A transcendência do ego,
O imaginário e chega ao seu auge com O ser e o nada, publicado em 1943.
Mas a história de Jean-Paul Sartre é também a história de um século sacudido
por duas grandes guerras mundiais, pelo avanço da Guerra
Fria, pelo horror do Holocausto da II Guerra, pela ascensão
e esperança no socialismo. Um século de grandes movimentos.
Um século onde era preciso opinar, se posicionar, combater
com armas ou idéias.
“Ele sempre tomou partido”, lembra Timm. Foi assim que se
filiou ao Partido Comunista Francês e chegou a apoiar o regime
de Stalin na União Soviética. Lutou na II Guerra,
foi prisioneiro dos campos de concentração, flertou
e rompeu com o PC Francês e fundou o grupo Socialismo e Liberdade.
Preocupado com as grandes questões coletivas, tentou dar
um viés mais amplo ao existen-cialismo, aproximando-o do
marxismo em Crítica da razão dialética. Para
ele, o dilema humano da miséria e da penúria fazia
do marxismo uma escola insuperável em sua época,
embora enxergasse, para além disso, um caminho para a liberdade.
“ Logo que existir para todos uma margem de liberdade real
para além
da produção da vida, o marxismo deixará de
viver; uma filosofia de liberdade tomará seu lugar. Mas
não temos nenhum meio, nenhum instrumento intelectual, nenhuma
experiência concreta que nos permita conceber esta liberdade
ou esta filosofia”, escreveu Jean-Paul Sartre. Quando morreu,
no dia 15 de abril de 1980, Sartre tinha quase a idade de vida
do agitado século XX. Um século no qual viveu e pensou
em permanente movimento. E deixou uma obra onde incita uma grande
questão: só a busca da liberdade justifica a esperança
no futuro.
Um
homem de idéias e causas
Poucos pensadores transformaram de forma tão contundente
suas idéias em ações como Jean-Paul Sartre.
Inquietou gente de todos os matizes, da direita à esquerda.
Sua biografia mostra-o sempre ao lado de alguma causa, coletiva
ou particular. Sua vida pessoal com Simone de Beauvoir expunha
a dor e a delícia de uma relação aberta, que
levava ao extremo as premissas que todo o amor deveria ter: a capacidade
de cada um de se manter próximo e distante. Ambos se permitiram
ter outros parceiros e continuar juntos. Foi a liberdade praticada
na intimidade, coerência entre a palavra e a ação.
Ao longo da vida, também foi rompendo os muros que separam
a academia da realidade das ruas. Em 1941, ao mesmo tempo em que
combatia na resistência francesa, fundava o movimento Socialismo
e Liberdade. Com o fim da guerra, em 1945, dissolve o movimento
e funda, com Merleau-Ponty, a revista Les Temps Modernes. Tempos
depois, ingressa e rompe com o Partido Comunista Francês.
O desencanto o leva a escrever O fantasma de Stalin. Em 1960, publica
Crítica da razão dialética e, em 64, As palavras,
uma espécie de testamento de sua obra. Nesse mesmo ano,
recusa o Prêmio Nobel de Literatura. Mas em 68, mais uma
vez, não recusa o chamado das ruas.
Na Paris conflagrada, explodem as revoltas estudantis. No Maio
de 68 que entrou para a história, lá está Sartre
ao lado dos estudantes nas barricadas do Quartier Latin. Também
engaja-se na luta contra a Guerra do Vietnã. É um
homem em movimento, francamente contra a opressão, a guerra,
o capitalismo e o imperialismo. Seus movimentos agora são
públicos e notórios. Em 1970, com a prisão
dos diretores do jornal Le Cause de Peuple, assume simbolicamente
a direção do jornal. Em 1973, colabora na fundação
do jornal Liberatión.
É
esse jornal que anuncia, em abril de 80, a morte de Sartre. Na
capa, estampa uma foto emblemática. Ele está “com
ar brincalhão, as mãos pousadas nos joelhos, à espera
de prestar depoimento num enésimo processo, sentado num
banco do Palácio da Justiça”, descreve Annie
Cohen-Solal em Sartre, biografia editada no Brasil pela L&PM,
em 1986.
Após a morte, começa a se revelar o inventário
de uma grande obra. Comparado a Voltaire e Victor Hugo pelos franceses,
incensado como modelo de pensador engajado e coerente, o nome de
Sartre voltará à tona dezoito meses depois da sua
morte com a publicação de Le Cérémonie
des Adieux (A cerimônia do adeus), depoimento íntimo
e corajoso de Simone de Beauvoir. É um relato dos últimos
dez anos da vida de Jean-Paul Sartre. Mais um capítulo – não
o derradeiro – de uma obra que se estenderá para muito
além da vida do seu autor. Biografias, relatos, republicações
vão espoucar nos anos seguintes. Sartre seguirá atual
e revisitado, porque a grande existencial humana, a liberdade,
continua sendo um dilema sem fim.
Para o envio de cartas,
sugestões e comentários
para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br
- Extra Classe é uma publicação mensal do
Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul
- SINPRO/RS
- Av. João Pessoa, 919 - CEP 90040-000 - Bairro Farroupilha
- Porto Alegre - RS - BRASIL - Fone (51) 4009.2900 - Fax (51)
4009.2917
- http://www.sinprors.org.br