
or
solicitação de nossa reportagem, os pesquisadores
da
UnB fizeram um recorte do estudo destacando os benefícios concedidos aos
educadores da rede privada no Rio Grande do Sul, onde a realidade é semelhante
ao resto do país, porém com algumas peculiaridades: uma média
maior de afastamentos do que a nacional, a incidência de apenas um caso
de depressão, nenhum caso de afastamento por problema vocal e a maior
parte dos benefícios concedidos por doença ocupacional para os
professores universitários. Para a responsável pela pesquisa e
coordenadora do Laboratório de Saúde do Trabalhador, professora
Anadergh Barbosa-Branco, além dos índices também serem baixos,
a média maior no Rio Grande do Sul pode apontar para maior consciência
dos direitos, uma organização sindical mais forte e acesso a um
plano de saúde. “São fatores que podem influenciar”,
frisa.
Nacionalmente, além da educação, foram pesquisados registros
dos trabalhadores dos ramos de atividade de fabricação de produtos
químicos, fabricação de produtos de metal, intermediação
financeira, metalurgia e saúde. Só para se ter uma idéia
da discrepância, para cada professor que recebe um benefício acidentário,
são contemplados 4,27 profissionais da intermediação financeira
(bancários), mesmo a diferença de vínculos empregatícios
entre essas atividades sendo quase o dobro: 756.894 docentes e 445.199 bancários.
As concessões previdenciárias por problemas na voz também
comprovam a baixa incidência. Enquanto os docentes são 3,2 vezes
mais acometidos que os bancários com disfunções nas cordas
vocais, estes últimos tiveram cinco vezes mais afastamentos caracterizados
como relacionados ao trabalho. “Isto demonstra que os bancários
estão melhor organizados que os professores e, por isso, acabam tendo
mais facilidade de terem suas doenças reconhecidas como do trabalho”,
avalia Anadergh Barbosa-Branco.
Para o chefe do Serviço de Medicina Ocupacional do Hospital de Clínicas
e professor da Ufrgs, Damásio Trindade, a falta de programas de controle
médico sobre as doenças ocupacionais é a principal dificuldade
para fazer o nexo entre a enfermidade e o trabalho. “Os médicos
ainda não estão preparados para ver o paciente na sua integralidade,
averiguando, além dos sintomas, a relação de uma doença
com o desenvolvimento de determinadas tarefas, o meio e a qualidade de vida”,
analisa Trindade, exemplificando com lesões como a tendinite que nos professores,
por exemplo, pode estar relacionada com o esforço constante da escrita
no quadro e o carregamento de peso. Ele alerta ainda que, como outras profissões,
a atividade de docência tem fatores de risco, sim. “Muitas pessoas
acham que não, mas a exposição crônica ao trabalho
gera fator desencadeador de problema de saúde, como é o caso do
professor que diariamente está exposto a algumas pressões e repetição
de movimentos”, avalia Trindade. Entre os riscos das tarefas desenvolvidas
pelos educadores, ele aponta o estresse, problemas na voz e lesões por
esforço repetitivo como as principais doenças que podem acometer
esses trabalhadores.
Professores trabalham doentes para garantir o emprego
Vínculo afetivo com o aluno,
compromisso com a escola e com os pais ou medo de perder emprego?
Quais dessas opções pesam mais na hora de o professor
encarar a sala de aula mesmo doente? Nem mesmo eles sabem apontar
as causas desse comportamento. No entanto, essa realidade pode
explicar por que os docentes são os profissionais que menos
se ausentam do trabalho por causa de doença. Eles também
ficam no último lugar da fila quando o que está em
jogo é relacionar o seu afastamento a uma doença
ocupacional. Esse dado foi constatado em uma pesquisa realizada
pelo Laboratório de Saúde do Trabalhador da Universidade
de Brasília (UnB). No estudo, foram levantados os benefícios
concedidos pelo INSS em 2002 a partir do 15º dia de afastamento,
tanto os referentes ao auxílio-doença como os acidentários,
aqueles decorrentes de acidentes de trabalho, incluindo os que
acontecem entre percurso de ida e volta para a empresa, assim como
as doenças causadas pelo trabalho. Médicos e psicólogos
alertam que, por trás da estatística, o que acontece
de fato é que, para garantir o emprego, os professores extrapolam
o limite do recomendável, colocando em risco a própria
saúde.
Stela Rosa
Afastamento entre docentes gaúchos está acima da média nacional
Dos 51.653 docentes
registra-dos em todos os níveis de educação
(pré-escolar e infantil, fundamental, médio, universitário
e formação permanente – professores de educação
especial, de supletivo, educação a distância,
etc.) no Rio Grande do Sul, foram concedidos 1.258 benefícios,
e os por doenças ocupacionais (incluindo acidente de trabalho),
153 casos. Mesmo o número sendo pequeno, é maior
que a média nacional, visto que, enquanto no Brasil somente
8% dos benefícios concedidos foram por doenças ocupacionais,
no Estado foram contabilizados 12,18%. Anadergh Barbosa-Branco
explica que na prática isto significa que os docentes gaúchos
conseguiram estabelecer mais o nexo da sua doença com o
trabalho.
Por outro lado, as lesões (fraturas de membros, de pés,
tornozelos, braços, pernas, etc.) e as doenças osteomusculares
(tendi-nites, tenossinovite, etc.) destacam-se entre as principais
causas de afastamento reconhecidas pelo INSS, tanto nos benefícios
de auxílio-doença como os das enfermidades decorrentes
do trabalho, semelhante ao restante do país. No caso específico
dos reconhecidos como doenças ocupacionais, 60,13% foram
registrados entre os professores universitários, to-talizando
92 casos. Para a pesquisadora, isso é resultante de um patamar
salarial mais alto, condições de fazer acompanhamento
médico e o acesso a informações. “Os
professores universitários acabam tendo mais consciência
dos diretos e se sentem mais seguros de lutar por eles”,
ressalta. Outro fato que chama atenção é que
nenhum professor gaúcho recebeu auxílio acidentário
por problemas nas cordas vocais, e na educação infantil
todos os auxí-lios acidentários foram concedidos
apenas por lesões, ou seja, fratura de algum membro, decorrente
de acidente.
Em relação à voz, Anadergh Barbosa-Branco
explica que as disfunções nas cordas vocais não
constam na lista de doenças relacionadas ao trabalho. Essa
razão talvez aponte o porquê da inexistência
de afastamento por problema na voz no Rio Grande do Sul, porém
a pesquisadora afirma que “quando os médicos justificam
como doença ocupacional, o nexo é aceito pelo INSS”,
diz. Já a fonoaudióloga e ex-professora, Andréa
Ortiz Corrêa, alerta para o fato de que os próprios
docentes não percebem que podem estar desenvolvendo uma
doença, situação que conheceu bem de perto.
Ela é um dos casos que acabou em uma mesa de cirurgia para
tirar um nódulo, resultado do uso abusivo da musculatura
vocal. “Voz rouca e cansada no final do dia é vista
com normalidade. Sinal de que trabalhou bastante. Mas não é saudável”,
destaca Andréa Ortiz, ressaltando que o docente precisa
se dar conta de que a voz é o seu principal instrumento
de trabalho, fato que os coloca no primeiro lugar da fila de risco,
e em último nas estatísticas. “O radialista,
por exemplo, se estiver com a voz rouca, não vai gravar
um programa, mas o professor entra na sala e força ainda
mais”, conclui. O medo de perder a vaga, para Andréa,
desponta como um dos principais motivos que leva o professor a
continuar trabalhando e, somado a isso, o fato de estabelecer um
vínculo. “E quanto menor os alunos, maior a ligação”,
afirma.
Já contrariando a estimativa da Organização
Mundial de Saúde (OMS), que prevê que até 2020
as doenças mentais serão a segunda causa de incapacidade
para o trabalho, apenas um caso de afastamento por depressão
foi constatado. Para Ana Maria Rossi, presidente da ISMA-BR, um
braço da International Stress Management Association no
Brasil, associação que estuda o estresse e suas formas
de prevenção, tal fato deve-se ao preconceito existente
em torno dessa enfermidade. “Algumas pessoas escondem ou
terminam se automedicando por medo de serem rotuladas e perderem
o emprego”, analisa. O estresse, segundo Rossi, é uma
das causas que pode acarretar a depressão, e os profissionais
vêm cada vez mais apontando o trabalho como um fator gerador
de situações estressantes. Em uma pesquisa realizada
pela ISMA-BR em 2004, que será lançada em junho próximo
em Porto Alegre, dos 752 profissionais de diversas empresas, 48%
apontaram como motivos de estresse a carga horária extenuante
de 50 a 52 horas por semana e 57% associaram, também, com
o medo de perder o emprego.
| Doenças
Ocupacionais (Brasil) |
Principais
Causas |
|
| Lesões |
71,5% |
| Doenças Osteomusculares |
16,75% |
| Convalescença |
3,47% |
| Doenças Neurológicas |
1,31% |
| Doenças do Aparelho Respiratório |
0,93% |
| Doenças Mentais |
0,39% |
 |
Vínculos empregatícios declarados: 756.894*
Benefícios concedidos: 14.770
Benefícios concedidos por doenças
ocupacionais e acidentes de trabalho: 1.181,60 |
 |
*Dados
referentes ao levantamento dos benefícios concedidos em 2002 pelo INSS aos professores
da rede privada em território brasileiro. O universo pesquisado
inclui, além dos docentes de educação infantil
até superior, os profissionais considerados pelo INSS como
de formação permanente (educação a distância,
de auto-escolas, cursos de pilotagem, educação especial,
educação supletiva, etc.). |
|
Fora das estatísticas
Professor realmente não adoece. Conclusão que poderia se tirar
da investigação feita pela nossa reportagem em algumas universidades
e escolas privadas de Porto Alegre e da Região Metropolitana: não
foi localizado sequer um docente afastado das instituições por
doença. Já dentro das salas foi fácil encontrá-los,
como o caso da professora universitária que preferiu não se identificar.
A rouquidão e uma leve tosse revelam que as cordas vocais sentem o esforço
ao término de cada aula. “Minha voz não era assim tão
rouca”, conta. Mesmo com necessidade de fazer uma cirurgia para retirada
dos nódulos vocais, optou por esperar as férias. Após tirar
licença de 15 dias, quando perdeu totalmente a voz, não cogita
em se ausentar novamente. “Pega mal, é complicado”, desabafa.
O próprio médico do Serviço de Engenharia e de Segurança
Médica do Trabalho (SESMET) da universidade aconselhou-a a não
entrar em benefício. “É difícil se afastar, há uma
pressão velada da instituição e um certo preconceito dos
colegas e dos alunos”, avalia. Esse é apenas um entre os milhares
de casos que não serão contabilizados pelo INSS.
No limite do corpo
Se houvesse alguma forma de contabilizar os professores que trabalham no limite,
de acordo com os próprios educadores que conversaram com o Extra Classe,
seriam milhares. Um deles seria Enécio da Silva, professor de nível
médio. Ele viveu a experiência de sair da sala para o hospital.
Com problema cardíaco genético, não deu a atenção
devida ao alerta dos médicos de diminuir o ritmo, depois de ter passado
mal e sido hospitalizado. A rotina permaneceu igual até que o corpo o
fez parar: no meio de uma aula, sentiu tontura e a pressão baixou. “Sentei
na cadeira e ainda cheguei a comentar com os alunos que era uma indisposição
passageira. Saí de ambulância para o hospital”, conta.
Em função do vínculo afetivo, a professora de educação
infantil, Leila da Silveira Barcelos, trabalhou com dores durante um ano e não
deixou de dar aulas nem quando sentiu que estava piorando dia a dia. De outubro
a dezembro, as dores aumentaram, e o braço e o peito incharam. Somado
a isso, também pesava o fato de ser separada e responsável pelos
três filhos. “Eu nem conseguia pensar em abandonar minha turma. É complicado,
e quanto menor o aluno, mais responsável a gente se sente”, diz.
No final do ano, foi detectado um câncer entre o pulmão e o coração
e, em janeiro, ela foi operada. Atualmente, ainda sente dores no braço,
continua de auxílio-doença e não sabe se volta a dar aulas
ou se vai se aposentar.
A sobrecarga de trabalho levou o professor de educação física,
Cláudio Mitchell Neis, a uma cirurgia no joelho. Ele pretende voltar à rotina
antes dos 15 dias de licença. Inclusive, informalmente, já esteve
na escola participando de reuniões. Coordenador do setor de esporte, sente-se
de tal forma responsável que é difícil parar, mesmo conhecendo
os riscos. Tempo atrás foi vítima de uma depressão ocasionada
por questões pessoais e continuou trabalhando até que um dia teve
uma crise na escola. Ele sabe que passar dos limites é perigoso e que
pode trazer um comprometimento ainda mais sério, mas reconhece que entre
os professores isso é comum. “Tem muita gente trabalhando doente,
com depressão”, afirma Cláudio, que também é presidente
da Associação de Professores da escola.
Berenice Lamas, especialista em psicologia do trabalho, explica que por trás
dessas situações há também uma questão da
auto-idealização de que, como professor, ele tem de dar conta do
recado, “mesmo com febre, mesmo com dor”, ressalta Lamas. Segundo
a psicóloga, tal fato é gerado pela responsabilidade social com
a educação e a formação dos alunos assumida perante
a sociedade. “O educador trabalha com o conhecimento e o sujeito é o
ser humano”, destaca. A exigência de contato diário com o
aluno faz com que “raramente um professor se permita adoecer”, analisa
Lamas, destacando também que a complexidade das pessoas, as diversas realidades
sociais com as quais convive e a extensa carga horária acarretam um alto
nível de estresse. “A obrigatoriedade de equilíbrio emocional
constante deixa esse profissional mais suscetível a doenças emocionais
e físicas”, pontua Lamas, que também é professora
da PUC.
| Doenças
Ocupacionais (Rio Grande do Sul) |
Principais
Causas
|
|
| Lesões e Envenenamentos |
66,7%
|
| Doenças Osteomusculares |
24,18%
|
| Convalescença |
2,61%
|
| Doenças Neurológicas |
2,61%
|
| Doenças Mentais |
0,65%
|
| Doenças Infecciosas e Parasitárias |
0,65%
|
| Neoplasia |
0,65% |
| Doenças de Pele e do Tecido Subcutâneo |
0,65% |
| Doenças do Aparelho Geniturinário |
0,65% |
| Doenças do Olho e Anexos |
0,65% |
 |
Vínculos declarados
da educação privada do RS: 51.653*
Benefícios concedidos: 1.258
Benefícios concedidos por doenças
ocupacionais e acidentes de trabalho: 153 |
 |
*Dados
referentes ao levantamento dos benefícios concedidos em 2002 pelo
INSS aos professores da rede privada do Rio Grande do Sul. Os
totais apresentados incluem, além dos docentes de educação
infantil até superior, os profissionais considerados pelo
INSS como de formação permanente (educação
a distância, ensino em auto-escolas, cursos de pilotagem,
educação especial, educação supletiva,
etc.).
|
|
| Doenças
Ocupacionais - professores ficam
em último lugar no Brasil |
Entre ramos de
atividades pesquisados, os trabalhadores
em educação são os que menos se afastam por doença
ocupacional. Menos de 2 a cada mil. |
 |
Atividade
|
incidência / 1.000 |
| Fabricação de produtos de metal |
17,51
|
| Metalurgia básica |
13,55
|
| Fabricação de produtos químicos |
7,28
|
| Intermediação financeira |
6,79
|
| Saúde |
3,76
|
| Educação |
1,59
|
|
Mais Educação:
ENADE
- Ensino superior privado tem desempenho fraco