ENADE Ensino superior privado tem desempenho fraco
ensino
superior privado concentra o maior
número de cursos que receberam os conceitos
mais baixos, numa escala de 1 a 5, no primeiro Exame Nacional de Desempenho dos
Estudantes (Enade) divulgado em maio. Dos 148 cursos que obtiveram os dois piores
desempenhos (1 e 2), 104 são de instituições privadas, o
equivalente a 70,3%. As federais lideram no conceito mais alto, com 57%, enquanto
as instituições privadas têm apenas18% de cursos com o conceito
mais alto.
Dos 2.184 cursos avaliados, apenas 1.427 receberam conceitos, porque muitos ainda
não tinham alunos concluindo os cursos. Dos 1.427 que foram conceituados,
33 (2,6%) obtiveram o conceito 1, o mais baixo, enquanto 150 (10,5%) receberam
o conceito 5, o mais alto. A maioria dos cursos (1.129) recebeu conceitos intermediários,
3 e 4, e 115 ficaram com o conceito 2.
Estão localizados no Nordeste 45,7% dos cursos que obtiveram conceito
4 e 13,6% dos que têm o 5. Ao mesmo tempo, essa é a região
com o maior percentual de conceitos baixos: 5,4% no 1 e 11,4% no 2, o que demonstra
uma grande polaridade. A região Sul tem o segundo maior percentual de
cursos com conceitos 4 (37,7%) e 5 (10,3%). O mais baixo desempenho é o
do Centro-Oeste. A região tem 5,2% de seus cursos com conceito 1, 13,8%
com conceito 2 e apenas 7,8% com conceito 5. No quesito organização
acadêmica, as universidades concentram 13,8% dos conceitos 5 e os centros
universitários 1,8%. Nas IES (instituições de ensino superior)
estaduais e federais os percentuais de conceitos altos chegam a cerca de 78%,
enquanto nas instituições privadas este percentual fica em torno
de 38%, menos da metade.
REFORMA – Menos de um mês depois de divulgar o resultado do Enade,
o MEC retirou da proposta de reforma universitária pontos que aumentariam
o controle de instituições particulares, após uma grande
pressão do setor. Na nova redação apresentada no dia 30
de maio, foram excluídas a criação dos conselhos administrativos
e a necessidade de eleição direta de dirigentes das universidades
e dos centros universitários particulares. A nova versão, porém,
tenta coibir uma prática que tem ocorrido no setor privado: instituições
ditas sem fins lucrativos, beneficiadas por isenções fiscais, burlam
a lei alugando imóveis ou contratando serviços de parentes ou sócios,
o que permite a obtenção de lucros.
OPINIÃO
Uma análise
preliminar João Pedro Schmidt e Ana Karin Nunes*
m
dos princípios básicos
mencionados pelo Ministério da Educação
nas diretrizes
que instituíram o Sinaes, em 2004, é que a avaliação
institucional contemple a
globalidade dos aspectos. Não há condições, neste
momento, de fazer um julgamento consistente sobre o conjunto do Sinaes, nem sobre
os seus instrumentos em particular – o Enade (Exame Nacional de Desempenho
dos Estudantes), a ACG (Avaliação dos Cursos de Graduação)
e o Avalies (Avaliação das Instituições de Ensino
Superior). Pode-se apenas tecer considerações sobre aspectos particulares
do processo transcorrido desde a criação do Sistema em lei.
No caso do Enade, uma novidade positiva, em nosso entendimento, é que
ele busca aferir o desempenho do aluno mediante a comparação do
grau de conhecimento dos alunos iniciantes e concluintes, tanto em conhecimentos
gerais como específicos. Esse aspecto é importante. Daí devem
se retirar as conclusões devidas, especialmente no que tange à necessidade
de fortalecer o ensino médio, além da implementação
de políticas de fortalecimento dos próprios cursos de graduação.
Mas, há também dúvidas e incertezas, decorrentes, por exemplo,
da forma de divulgação dos resultados do Enade. Assim como outras
instituições, não esperávamos uma divulgação
pela mídia dos resultados do Enade à semelhança do Provão.
As falas dos representantes do MEC vinham no sentido de uma outra lógica,
que evitasse um ranqueamento simplista, baseado em apenas um instrumento isolado,
e aferindo apenas um aspecto institucional, o desempenho dos estudantes. O Enade,
esperávamos, teria seus resultados associados aos dos demais instrumentos,
concretizando aquilo que constituiria o núcleo da “qualidade superior” do
Sinaes: a visão de conjunto, resultante de diversos olhares e formas de
aferição da qualidade de uma instituição.
Continuamos acreditando que o discurso do MEC está correto e que a prática
deve ser aperfeiçoada. O que ocorreu neste ano com a publicização
dos resultados do Enade foi basicamente a repetição da lógica
do Provão. A comprovação disso é que os cursos que
tiveram boa pontuação estão utilizando-a novamente como
selo de qualidade. Nada de novo, sob este aspecto.
Na nossa visão, para que a sociedade tenha condições de
saber se um curso de graduação preenche os requisitos de qualidade
terá que ter conhecimento de outras dimensões. Além das
notas dos alunos em um exame – que sempre é discutível enquanto
forma de aferição de conhecimentos, como qualquer exame – há indicadores
que não podem deixar de ser considerados, como o perfil dos docentes,
a infra-estrutura, a produção científica, entre outros.
Ou seja, mesmo no caso de um curso de graduação, a avaliação
deve ser feita a partir de vários olhares e não de um único
instrumento, para preencher o requisito da globalidade.
Outro aspecto com o qual não concordamos é a utilização
da dicotomia público x privado na apresentação dos resultados
das instituições em nível nacional pelo Inep. Recusamo-nos,
como instituição comunitária, a sermos incluídos
entre as instituições privadas. Fazemos parte de um conjunto de
iniciativas bem-sucedidas de educação pública não-estatal,
comprometida com o desenvolvimento das suas regiões. Assim, esperamos
que os órgãos governamentais levem em conta a nossa especificidade,
tratando-nos como uma categoria específica de instituições
educacionais. Em síntese, até agora o Enade ainda não demonstrou
de forma consistente suas reais virtudes em relação ao Provão,
e a sua forma de divulgação comprometeu o objetivo de afirmação
dos novos princípios do Sinaes.
Na Unisc, participaram no Enade alunos ingressantes e concluintes dos cursos
de Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia,
Nutrição, Odontologia e Serviço Social. Os resultados obtidos
foram bastante bons e estão servindo para a melhoria e o aperfeiçoamento
desses cursos. Coerentes com a argumentação acima desenvolvida,
buscaremos continuar mostrando à comunidade que a qualidade da universidade
vai muito além de boas notas em exames. Que ela passa, necessariamente,
por condições apropriadas para o ensino, a pesquisa e a extensão,
e por um compromisso vigoroso com as necessidades da região e do país.
* Pró-Reitor de Planejamento e Desenvolvimento Institucional
da Unisc; Assessora de Avaliação Institucional
da Unisc.
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