De onde vem a ficção?
O especialista francês em televisão,
François Jost, lança seu primeiro livro em língua
portuguesa apesar de já ter sua obra bastante conhecida
pelos pesquisadores brasileiros. O artigo abaixo é um fragmento
de seu livro Seis Lições sobre Televisão,
que está sendo lançado nacionalmente pela Editora
Sulina, do Rio Grande do Sul.
François Jost*

odo mundo sabe mais ou
menos o que é mentir.
Cada um, exceto patologia mais ou menos leve, traça a fronteira entre
o que vive e o que inventa, mesmo para a ficção, que vem se prestando
a infindáveis discussões, há algumas dezenas de séculos,
acredito ser possível entender ficção a partir de uma definição
simples como “criação, invenção de coisas imaginárias,
irreais” (Larousse,1996).
Que razões levam, então, quando intervém a imagem, ao fato
de que nossas certezas vacilam? Alguns afirmam sem pejo que as imagens mentem:
outros, que elas são manipuladas, sem se darem sistematicamente conta
de que não é a mesma coisa tê-las como responsáveis
de todos os males, ou acusar aqueles que delas se utilizam.
E as coisas não ficam mais claras quando consultamos especialistas, quer
se tratem de teóricos ou de cineastas. Metz afirma que “todo filme é um
filme de ficção” (1979), Godard que “o cinema é vinte
e quatro vezes a verdade por segundo”. A primeira tese é por demais
geral e bem pouco coincide com a nossa intuição: se todo filme
for uma ficção, alguns são mais ficção que
outros?! Teríamos vontade de acrescentar: Star Wars mais do que meus filmes
de férias; Jurassic Park, mais do que o telejornal... Se o cinema é a
verdade, de que verdade estamos falando? A verdade de uma tomada Lumière
será aquela de Amarcord?
As recentes evoluções dos gêneros televisivos nos trazem
de volta à realidade: quando a reivindicação de uma mídia
de falar em nome do real se torna tão insistente que acaba por convencer
parte do público de que toca o real melhor do que qualquer do-cumentário
antes dela, a ponto de se falar em telerrealidade ou em real televisão,
torna-se urgente substituir os slogans por uma concepção que permita
pensar o audiovisual na sua diversidade. Em 1983, Eco (1985) já observava
que o próprio da neotelevisão, precisamente, era abolir essa fronteira
realidade/ficção. Não se tem certeza de que a televisão
tenha tido êxito; mas, em todo caso, ela conseguiu perfeitamente nos fazer
acreditar nisso. E faltam palavras para caracterizar todas as formas mistas que
proliferam há mais de duas décadas.
Para se examinar essa questão com mais clareza, pode-se substituir a questão
tradicional “O que é a ficção?” pela seguinte: “De
onde vem a ficção?”. Se não é habitual formulá-la, é forçoso
constatar que muitas teses opostas respondem a ela implicitamente. Vem da imagem?,
perguntam-se os defensores de sua verdade ou de sua falsidade. Vem de seus usuários?,
interrogam-se os contendores da manipulação.
Se é arriscado definir diretamente a natureza da imagem, tentemos outro
caminho. Façamos o retrato falado de três usuários: o pintor,
que procura representar a realidade; o repórter, que traz a imagem de
um acontecimento; o copista, que valoriza qualquer imagem através de uma
assinatura.
Em latim medieval,
fictio significa engano e, paralelamente, um fato imaginado,
oposto enquanto tal à realidade. Filosoficamente, a assimilação
da imagem com semelhante acepção do termo, remonta a Platão.
E o que diz o filósofo? “O criador de imagens, o imitador, nada
compreende a realidade, apenas conhece a aparência.” E, para se
fazer entender, Platão compara o trabalho do artesão que fabrica
um objeto àquele do artista que o representa. O marceneiro, para construir
uma cama, deve ter idéia da forma, de sua essência, de que o móvel
será apenas uma realização particular. Ele não
a inventa, mas a reproduz (tal como o pedreiro constrói uma casa a partir
de uma planta). Agora, qual é o caso do pintor que desenha essa cama?
Ele não somente se contenta em imitar um objeto que não fez,
e não sabe como se faz, como também se limita a o imitar, não
segundo a realidade, como o artesão que se inspira na forma, mas, sim,
segundo o que o ângulo e o ponto de vista deixam ver, ou seja, ao que é visível. “O
pintor”, conclui Platão, “nos representará um sapateiro,
um carpinteiro e, mostrando-o de longe, enganará as crianças
e os homens desprovidos de razão, porque terá dado à sua
pintura a aparência de um carpinteiro verdadeiro”. O quadro não é mais
do que uma imagem refletida em um espelho. Platão visa aos pintores
e aos poetas, esses imitadores que quer banir da Cidade Ideal. Não temos
a impressão de já ter ouvido alguns desses discursos quando vemos
as discussões que hoje suscitam as imagens de síntese e a informação
televisiva?
Analistas da virtualidade visual sustentam que, com efeito, a imagem se tornou
pura aparência, já não atestando de forma alguma a realidade
do objeto: “Não se está mais dentro do espelho, está-se
dentro da tela”, diz Baudrillard (1995), fazendo eco ao filósofo
grego. Indo um pouco além, constata-se que a confusão temida
por Platão entre realidade e imitação agora é total: “Como
fazer para educar as pessoas nesse novo mundo, evitando acentuar nossa tendência
em confundir virtual e real?¹ ”.
Quanto ao telejornal, embora pretenda falar da realidade, observa-se freqüentemente
que ele a reduziu ao visível, a ponto de, às vezes, a existência
dos acontecimentos depender de sua capacidade de ser visua-lizado². Pensemos
na situação seguinte, diária na televisão: um jornalista,
inquirindo sobre a vida dos italianos, entrevista um marceneiro e mostra algumas
imagens do seu trabalho (ele está fazendo uma cama). Platão não
lhe censuraria por estar confundindo a aparência visual e a realidade
dessa profissão ou dessa categoria social?
A imagem, portanto, é, na tradição platônica, ontologicamente
um engano, porque nunca atinge o nível de existência de seu modelo.
Ela é uma ficção, no sentido de que não pode ser
a realidade: a representação supõe uma relação
entre um signo e seu objeto.
¹ Perguntas dos Humains associés a Philippe Quéau, n°7,
1995.
² Por isso a impressão seguidamente expressa de que a Guerra do Golfo
não ocorreu (título de um livro de J. Baudrillard). Ver também: “Só se
acredita no que se vê a imagem sendo avalista da verdade [...]. É o
paradigma do ao vivo, ou paradigma CNN. Acham-se aí todos os ingredientes
da racionalidade ocidental: o domínio sobre o tempo, a dicotomia verdadeiro-falso,
que aqui se traduz pela oposição mostrar-ocultar”(Wolton,
1991, p.85).
* Professor de semiologia audiovisual na Sorbonne Nouvelle - Paris III