Parece, mas não é

ai
parecer precipitação, dito assim pouco
mais de um mês depois do último cigarro,
mas o fato é que parei de fumar. Há quem sugira que se espere dois
anos antes de fazer tal afirmação. Posso colocar de outra forma,
então, que até mais me agrada – simplesmente, eu não
fumo. Aliás, nunca fumei. Aquele que não passava meia hora do dia
sem acender um cigarro, aquele que estava condenado a carregar um pacotinho e
um isqueiro para onde quer que fosse, aquele que acumulava problemas respiratórios
e circulatórios, que não tinha fôlego para nada, que habitava
todas as estatísticas funestas de incidência de câncer no
pulmão e na laringe, aquele era outro. E foi esse outro quem parou de
fumar. Eu, simplesmente, não fumo.
Mas isso também pode parecer coisa de cristão-novo, alardeado assim
dessa maneira. Como também parei de beber (o que no meu caso era um forte
pré-requisito para parar de fumar), já andam perguntando o que
mais pretendo deixar de fazer, e se por acaso Jesus encontrou um lugar no meu
coração. Nada disso, e não pretendo virar apóstolo
do ministério da saúde, nem esqueci o quanto podiam se tornar chatos
alguns ex-fumantes, a ponto de fazer a gente pitar em dobro só pra exorcizar
aquela preleção beneditina. Aliás, nessa matéria
estou seguindo os passos de uma conhecida que já há muitos anos
largou o vício. Tal como ela, não censuro ninguém, tampouco
evito ou fujo de lugares e tribos de fumantes. Ao contrário, tiro proveito,
encosto do lado e sinto o cheirinho, hmm, é bom sentir aquele cheirinho.
Sei que isso pode parecer masoquismo, ou uma certa temeridade da minha parte,
mas não me causa nenhum frisson especial e nenhuma saudade, pode acreditar.
Porque, em mim, enquanto fumante, não se tratava de um cheirinho. Era,
sim, um fedor. Era, sim, uma crosta de alcatrão que se instalava nas narinas,
nas cordas vocais, nos alvéolos. Era, sim, uma nuvem de fumaça
que estava sempre ao meu redor, impregnando a minha casa, as minhas relações,
o meu bem-estar, a minha felicidade. Nunca fui um fumante feliz. Fumei durante
vinte e oito anos ininterruptos, uns vinte e sete deles altamente contrariado
e de mal-humor. Claro, ser escravo de tal vício representava não
apenas enormes danos à saúde mas também uma permanente sabotagem
ao meu trabalho de cantor. Então, tinha vários e bons motivos para
me livrar dessa praga. E consegui. Parei de fumar. E isso até parece mentira,
mas não é.
