
Enlevo

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ouvia o José Miguel Wisnik falar para uma multidão
sobre um conto do Guimarães Rosa chamado
O recado do
morro lá em Parati e pensava numa palavra para descrever
o que nos acontecia, dentro daquela grande tenda, naquela manhã de domingo.
Estávamos embevecidos? Embasbacados? Embestados? Decidi por enlevados.
Grande palavra. Estávamos todos em estado de enlevação,
que combina os sentidos de tangidos para o assombro, maravilhados e – com
sua sugestão de desprego do chão – embalados. Para quem não
sabe (e confesso que até há pouco tempo eu também não
sabia), o Wisnik é um talento raro, músico, compositor e professor
de literatura, e ouvindo-o eu só imaginava como seria ser seu aluno, ou
ser enlevado daquele jeito regularmente, semestre a semestre.
Ele nos guiava pelo universo poético de Guimarães Rosa apontando
todas as suas riquezas e às vezes, com uma estocada da sua mente afiada,
furando um veio novo de alusões e significados do qual ninguém
desconfiara. E tudo com uma clareza didática que nunca tolhia o simples
prazer da descoberta compartilhada. Algumas das suas sacadas foram aplaudidas
em cena aberta, como se diz de solos de ópera extraordinários.
No fim foi ovacionado de pé. Olhei em volta e vi gente com lágrimas
nos olhos. Não estava ali, exatamente, um microcosmo deste outro universo
complexo atrás de bons explicadores que é o Brasil, mas não
dá para desesperar de um país onde as pessoas se comovem com a
inteligência.
Não há nada mais emocionante do que o talento. Não precisa
ser o de um mestre ou de um tenor. Pode ser o de um camelô, ou de uma menina
negra que desafia todas as fatalidades, a da gravidade e a da sua própria
origem, e salta mais alto e com mais graça do que todo o mundo. Mas nosso
enlevo com a palavra bem escolhida, com a habilidade mental – uma letra
engenhosa do Chico Buarque, um
insight (ver dentro?) do Millôr, uma exegese
brilhante do Wisnik – talvez seja uma maneira de nos consolarmos pela pobreza
do resto, pela reincidente falta de talento da nossa classe política,
ou classe retórica, para nos salvar da suprema burrice da desigualdade
e da miséria. Até o encanto de um Guimarães Rosa tem esta
conotação de compensação pela palavra inspirada da
mediocridade que nos governa desde as caravelas. O talento brasileiro nos comove
também pelo desperdício – tanta gente boa, tanta criatividade
e discernimento, e tão pouco disso passa da palavra para a política,
da poesia para o poder. Mas não desesperemos. Virá.
Tem um disco recém-lançado (*) de uma cantora nova, Eveline Hecker,
só com músicas do Wisnik, que também é ótimo
pianista e competente cantor. O disco, da
Biscoito Fino, é produzido pela
Patrícia Pillar, como se faltassem mais razões para enlevo.
(*) Texto escrito em julho de 2004.
