Educação e rendimento no Brasil
Marcio Pochmann*


divisão
social do trabalho tem sido, historicamente, um dos principais
responsáveis pelo desenvolvimento de grupos ocupacionais
relativamente homogêneos e com diferencial de produtividade.
Essa homogeneidade é devida à relação
direta e positiva entre a evolução da produtividade
do trabalho, da educação e da remuneração.
No caso mais recente do Brasil, no entanto, verifica-se que a educação,
o salário real e a produtividade do trabalho não
registraram comportamentos semelhantes. Somente no período
referente à estabilidade monetária, por exemplo,
a produtividade acumulou ganho de 37,1%, enquanto o número
médio de anos de estudos da população com
10 anos e mais de idade subiu 29,4% (de 5,1 para 6,6 anos) e a
remuneração média dos ocupados com rendimento
decaiu 16,6% (de R$ 879, em 1995, para R$ 733, em 2004).
Além da queda na remuneração total dos ocupados,
nota-se que foram justamente as ocupações com os
mais anos de escolaridade que apresentaram as maiores diminuições
no poder aquisitivo. Para o caso do ocupado com curso superior
completo, a redução no rendimento foi de 21,1%, enquanto
o salário do trabalhador com somente o primeiro grau teve
elevação de 2,6%.
Parece difícil entender como foi possível haver avanço
educacional e da produtividade sem o acompanhamento da elevação
do salário real. Deve-se considerar, todavia, que educação,
mesmo sendo fundamental para uma melhor disputa no interior do
mercado de trabalho, não é – por si só – suficiente
para sustentar o nível de emprego decente e salário
digno. Inegavelmente, outras variáveis devem ser levadas
em consideração, como o crescimento econômico
e a própria forma de dividir a produtividade alcançada.
Tendo em vista que o Brasil possui anualmente o ingresso médio
de 2,3 milhões de pessoas no mercado de trabalho, é necessário
que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) seja superior
a 5% ao ano para que não seja aprofundada ainda mais a competição
no interior do mercado de trabalho, gerando a diminuição
do rendimento. Da mesma forma, também se deve levar em conta
o tipo de crescimento econômico, pois a concentração
de bens e serviços de contido valor unitário e reduzido
conteúdo tecnológico tende a expandir fundamentalmente
a ocupação de baixo custo de mão-de-obra.
Em relação à divisão da produtividade,
deve-se considerar que sem instituições de representação
de interesses fortes e dinâmicas do mundo do trabalho, capazes
de pressionar e cooperar no processo de divisão mais eqüitativo
possível do excedente econômico, dificilmente se altera
a concentração de renda. Ademais, têm papel
decisivo as políticas públicas, como a do salário
mínimo e a de garantia de renda à população
de baixa renda.
Em síntese, observa-se que nos últimos 10 anos, o
PIB brasileiro cresceu abaixo de 3% ao ano (uma das piores performances
do mundo), enquanto o país se especializou na produção
de bens primários, cujo determinante da competitividade é a
abundante oferta de matéria-prima e o diminuto custo da
mão-de-obra. Para piorar, convém destacar que nem
todas as negociações trabalhistas conseguem obter
ganhos reais de salário.
* Professor do Instituto de Economia (IE) e pesquisador do
Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) da
Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp). SP, Brasil. (Tel.: (19) 3788.5802 – e-mail:
pochmann@eco.unicamp.br).