A
sustentabilidade deve
ser planejada
Em 1972, Michael Shaw era um promissor engenheiro de uma grande
indústria de construção. Havia tomado um avião
de
Sidney para Londres, onde morava, quando resolveu dar uma espiada
no livro Limits to Growth (Os limites do crescimento,
de Donella e Dennis Meadows) que acabara de ganhar de presente.
O impacto que lhe causou a leitura transformou sua
vida. Do alto do avião, ele descobriu que com seu trabalho
estava destruindo o planeta ao retirar da natureza todo tipo de
recursos naturais, sem se preocupar com o futuro. “Coincidentemente,
estava voando sobre a Ásia, a Índia e a Europa e
pude ver o tamanho da destruição”, lembra.
Descobriu que não podia mais investir sua vida nesta atividade.
Em 1974,
comprou cem cópias do livro e distribuiu para antigos clientes,
despediu-se do trabalho na indústria, e partiu para uma
jornada em busca de alternativas. Mudou-se para uma ecovila, a
Findhorn, na Escócia, da qual tornou-se um membro
atuante. Fundada há 46 anos, a Findhorn é um exemplo
de sustentabilidade no mundo. Lá, fundou o Ecovillage Institute
e
tornou-se diretor da Findhorn Foundation. O engenheiro inquieto
que desceu do avião com um pensamento diferenciado,
aos 69 anos virou uma referência em design integrado e tem
ajudado a construir sistemas ecológicos de tratamento e
recuperação de esgotos de baixo custo e eficiência
comprovada. “Com o aquecimento global, e todos seus efeitos
conhecidos, a emissão de toneladas de gás carbônico
por pessoa, precisamos
de alternativas”, diz Shaw. “Há uma necessidade
de planejar a
sustentabilidade, desde a energia que usamos nos prédios,
a comida
que plantamos, os transportes, e a forma como lidamos com os
dejetos. É importante que tudo seja concentrado num sistema único”.
Seus projetos estão na Rússia, na Índia,
na China, nos
Estados Unidos e, inclusive, no Brasil. Atualmente, entre outros
trabalhos, está ajudando a planejar uma cidade-modelo em
Harlow North, no sul de Londres. Shaw falou ao Extra Classe
após fazer a palestra de abertura da Semana de Meio
Ambiente de Porto Alegre, no dia 2 de junho.
Por Clarinha Glock
Extra Classe – Qual a diferença
entre a experiência em Findhorn
e a experiência que você tinha antes?
Michael Shaw – Foi um tipo de “alívio” dar
um passo para fora da corporação. Eu ganhava milhões
de dólares por ano, mas me dei
conta de que estava no caminho
errado. É difícil descrever
Findhorn. Na época, eram 250 a
270 pessoas que trilhavam um caminho
particular, filosófico, espiritual
e ao mesmo tempo havia uma
cooperação grande entre elas. Costumávamos
chamar de um “experimento
em vivência cooperativa”.
Antes de eu entrar para Findhorn,
eu estava muito focado nas coisas
fora de mim: estava na indústria
de construção, vivia em Londres.
Findhorn tem a ver com um olhar
para dentro de mim mesmo e com
a descoberta do que eu sou como
um ser humano e como parte da
consciência.
EC – E como estas pessoas influenciaram
seu trabalho de agora?
Shaw – Acho que tenho uma
atitude mais impessoal com meu
trabalho. Não existe tanto o “eu”. É
como a ecologia acontece. Não
significa que você perde a sua
identidade, mas há mais consciência
do que identificação com o
indivíduo. É muito mais fácil se
envolver com algo maior, não só com o meu pequeno mundo.
EC – Que soluções Findhorn
encontrou que podem ser
disponibilizadas para outros grupos?
Shaw – Findhorn tem uma longa
história de cooperação com
natureza, em muitos modos. É diferente
de dominar ou usar a natureza,
ou ser dominado por ela. É
ter a natureza como uma parceira,
uma professora. Pode-se
aprender com seus processos, sintonizar
com a terra, sentar em silêncio
e ouvir. Você recebe isso
espontaneamente, intuitivamente.
Por exemplo: estávamos construindo
uma nova área para concertos.
E eu estava trabalhando
na parte elétrica do edifício. E o
arquiteto, que era mais velho que
eu, decidiu que não haveria telefones
no edifício. E a razão era
que, se houvesse telefones, não se
estaria usando as habilidades intuitivas
para se comunicar. Se
houver um telefone, você apenas
vai levantar o telefone e discar.
Se não houver, e você estiver no
lugar certo e na hora certa, poderá falar com
alguém. Esta é uma arte, ele disse,
que você precisar
refinar. Lembro que uma vez
quebrou uma peça e eu precisava
achar outra para substituir. E havia
um grande almoxarifado bem
organizado, e no departamento
em que estava trabalhando naquela é
poca eu perguntei: como
acho esta peça? E ele disse: “Não
tenho idéia. Você só tem que entrar
na sala, fechar seus olhos, e
usar sua intuição”. Eu pensei: isto é
loucura, mas vou tentar. Entrei
na sala, fechei meus olhos, peguei
a peça, e era a certa.
EC – Como equilibrar esse respeito à
natureza com os princípios
do Capitalismo, sem se tornar
um radical?
Shaw – Existe um entendimento,
mesmo no Ocidente, de
que o Capitalismo tem mais de
um foco de interesse. Tem o financeiro
que algumas pessoas
pensam que é o único. E você pode
jogar este jogo, ou não. Mas é
preciso haver um equilíbrio, e
acho que existe uma consciência
crescente, mesmo nos países
mais capitalistas, de que se não
se adotar mais projetos sustentáveis,
haverá uma perda. O projeto
com que eu e Jorge Geras
nos envolvemos na Amazônia
previa tratar e reciclar a água de
volta para a terra, em áreas completamente
destruídas pela criação
de gado, que estavam desertas,
na cidade de Parauapebas. A
idéia era retomar a floresta. Politicamente,
o contratante decidiu
não fazer isso. Interessava mais a
ele manter o controle sobre a á
gua. O projeto não aconteceu.
Teria um custo, seria muito menor
para fazer o que sugeríamos,
mas era uma questão de controle
e poder.
EC – O senhor desenvolveu sistemas
ecológicos eficientes e baratos
para tratamento de água e
esgotos. Qual seria o sistema mais
recomendável para cidades como
Porto Alegre ou São Paulo?
Shaw – De modo geral, tem
que levar em conta a cultura local
de sustentabilidade. Se as administrações passadas
não fizeram
projetos sustentáveis, vai
custar muito mais dinheiro agora
do que custaria há dez anos.
Mas não se pode mais dizer: vamos
deixar para as próximas gerações
fazerem, ou para o próximo
prefeito. O design atual de sistemas
de tratamento vai depender
da realidade de cada cidade.
Se for construir um sistema
numa área nova, é relativamente
mais fácil. Você pode criar a
infra-estrutura, reciclagem, isso
tudo é parte do design. Se for em
uma parte da cidade que não tem
nenhum tratamento, então tem
que ser muito pragmático, avaliar
se tem terra suficiente, financiamento
e todo o resto. De uma
forma geral, o que eu encorajaria é
fazer em pequenas áreas, em
vez de fazer algo massivo. Em vez
de investir num sistema de 100
milhões de dólares, faça em 2 milhões
de dólares, em partes, e ao
menos mantenha o projeto em
andamento, uma parte por vez.
Fazendo desta forma, descentralizada,
mas conectada uma com
a outra, você pode fazer a
reciclagem com um envolvimento
local.
EC – O modelo utilizado, por
exemplo, na China, poderia ser
reproduzido em capitais e cidades
brasileiras?
Shaw – Claro. Primeiro você tem que fazer
uma pesquisa para saber qual é o problema. E é muito
difícil saber isso, a não ser que você coloque
instrumentos na água
e meça o nível de poluição. Nós
temos de medir a velocidade da água em cada
seção, a cada 15
metros, para traçar um perfil. E tirar
amostras químicas nestas áreas.
Na China, vários canais recebem
dejetos de milhões de pessoas.
Mesmo no Brasil há muitas favelas
que recebem os dejetos das
cidades De que forma podemos
atacar estes problemas? Usando
engenharia ecológica: utilizando
os seres vivos na água para fazer o
tratamento da própria água. Para
tratar a água poluída num rio ou
num canal, você tem adicionar oxigênio.
As bactérias que fazem a
limpeza precisam de oxigênio. Esse
sistema é constituído de forma a
filtrar o cheiro que seria exalado
pela água poluída. As bactérias se
fixam nas raízes da plantas. Usamos
um sistema de ilhas flutuantes,
que acompanham a elevação
do nível das águas. Existe uma camada
submersa de areadores, que
ejetam ar na superfície. Como é embaixo
da água, não fazem barulho.
Ali há bactérias que crescem,
plantadas como se fosse um jardim.
As plantas têm duas funções: as
que têm suas raízes na água servem
para que as bactérias que se
alimentam da poluição se fixem
nelas. E as que estão na superfície
são também muito eficientes para
fixar energia fotossintética e
transformá-la em enzimas que as
bactérias gostam, produzindo colônias
maiores. As bactérias fazem
o tratamento. Este sistema pode ser
usado em qualquer lugar e em
grandes extensões também. Vou
agora a Budapeste, porque existe
lá um grande lago a ser tratado. O
proprietário só poderá desenvolver
algo em torno deste lago e deste canal
se fizer o tratamento. Vamos
limpá-lo e permitir que desenvolva. É
um modelo muito econômico. Pela
minha experiência, posso dizer que é
mais barato que construir um sistema
tradicional. Custa cerca de R$
75 por pessoa, enquanto um sistema
normal custaria o dobro, porque teria
de construir os tanques. A energia
usada é de um kilowat por hora,
o que não é muito.
EC – E este sistema pode ser
usado mesmo em áreas muito contaminadas
por poluição industrial?
Shaw – A demanda de oxigênio
bioquímico é uma medida da
poluição. O sistema de areação vai
colocar mais oxigênio para atender à
demanda. Uma tragédia
(como a falta de oxigênio que causa
a mortandade de peixes) pode
atrapalhar um pouco o sistema, e
demorar mais, mas ele vai compensar
a falta de oxigênio.
EC – O senhor está ajudando a
construir uma nova cidade no sul
de Londres, Harlow North. Qual é o objetivo
desta cidade?
Shaw – Muitas pessoas aposentadas
tinham propriedades, porque
era um investimento seguro. The
British Petroleum Pension Fund tinha
esta terra há 30 anos. O governo
de Londres disse que era
preciso aumentar o número de moradias.
Fomos contratados como
consultores para desenvolver uma
cidade ecológica, carbo neutra
(sem emissão de carbonos) porque
esta é uma green zone (área verde).
A cidade é dividida em distritos,
e cada distrito tem cerca
duas mil casas. Cada uma tem tratamento
de água e esgoto,
interconectados. A água potável
vai vir de poços. E a água não potável
será reaproveitada da chuva
e de esgoto tratado para lavar carros,
dar descarga de banheiro, limpar
ruas. Num primeiro momento,
vão morar lá 25 mil pessoas. Há uma
integração entre o sistema de energia,
de transporte e de dejetos. Não
há nada novo, mas colocando tudo
junto, o cálculo é de que haja uma
economia de 10% do custo normal. É
um plano audacioso, que está aguardando regulação.
Design integrado amplia resultados
O engenheiro Michael Shaw tem
como
parceiro no Brasil o Centro de Referência e
Integração em Sustentabilidade (Cris),
com
sede em São Paulo. O centro dirigido por Jorge
Geras desenvolve projetos na área de
Design Integrado de Sustentabilidade. O “desenho
integrado” consiste em reunir a experiência
de engenheiros, arquitetos, educadores,
comunicadores, especialistas em
energia e permacultura, e outros, para desenvolverem
juntos um projeto. Foi assim
que surgiu o Hotel SPAventura, em Ibiúna,
São Paulo.
“Antes de iniciar, a gente chamou o índio
Kaka Werá, que descobriu os “chacras” do
lugar onde nós iríamos construir o
hotel.
Kaká Werá, que é considerado
um especialista
em difusão de valores sagrados e da medicina
da cultura indígena no Brasil, disse: ‘aqui
não é melhor lugar para construir’,
e
nós mudamos o plano inicial, respeitando seu
conhecimento”, relata Geras. O desenho
arquitetônico dos chalés do hotel foi
inspirado
nas folhas das árvores que existem no
local. Um mapeamento do entorno revelou
que a população ao redor do empreendimento
formava o maior pólo de produtores de alimentos
orgânicos e esta característica também
foi levada em conta no projeto.
Geras explica que, quando se planeja, por
exemplo, um painel solar, ele pode ser inviável
economicamente para uma casa isolada. “Mas
a gente acabou de colocar no Instituto
Baccarelli de Música energia solar com
biodigestor integrado, aí foi economicamente
viável. Fomos questionados pelo Grupo
Votorantim sobre como havíamos conseguido
viabilizar a energia solar. Na realidade,
conseguimos integrar os conhecimentos e as
tecnologias”, explica. “Nosso interesse
maior é
fomentar a sustentabilidade do ponto
de vista prático, unindo construção,
serviços,
tudo, dando mais funções para o mesmo
projeto”. (Clarinha Glock)
Para o envio de cartas,
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