As
incríveis relações da
fraude no Detran
A decisão da Justiça Federal
de Santa Maria, aceitando
a denúncia oferecida pelo Ministério
Público Federal contra
40 pessoas acusadas de formar
uma quadrilha para roubar
dinheiro público, trouxe à tona a existência
de sofisticados
mecanismos de corrupção
dentro e fora da estrutura do
Estado. O esquema, que começou
a ser desmontado em
novembro de 2007 pela Operação
Rodin, envolveu o desvio
de verbas provenientes do
Detran para empresas
prestadoras de serviços à autarquia.
A fraude ocorreu entre
julho de 2003 e novembro
de 2007, através de duas fundações
vinculadas à Universidade
Federal de Santa Maria,
a Fatec (Fundação de Apoio à Ciência
e Tecnologia) e a
Fundae (Fundação para o Desenvolvimento
e Aperfeiçoamento
da Educação e da Cultura),
contratadas sem licitação
e a preços superfaturados
pelo Detran.
Marco Aurélio Weissheimer
Fatec
e a Fundae faziam o repasse mensal de verbas para empresas
subcontratadas prestadoras de serviços,
as famosas “sistemistas”. De acordo com as
primeiras estimativas do Ministério Público
e da Justiça Federal, a fraude teria desviado
aproximadamente R$ 44 milhões dos cofres
públicos. Conforme a avaliação da juíza
Simone
Barbisan Fortes, ocorreu um ajuste
prévio, no qual pessoas com grande influência
política (lobistas) conseguiram obter junto a
órgãos públicos do Estado do Rio Grande do Sul,
para as Fundações de Apoio, contratos para prestação
de determinados serviços. “Contratadas
sem licitação, as fundações subcontrataram
empresas
e pessoas para a realização dos serviços,
superfaturados, de forma a beneficiar, primeiramente,
os próprios lobistas e, ainda, também os
dirigentes do órgão contratador e das fundações”,
disse Simone Fortes.
Investimentos
para "cuidar da imagem"
Esse lobby, ainda segundo a juíza, valeu-se
da reputação da Universidade Federal de Santa
Maria (UFSM), “para obtenção dos contratos
públicos, em cujo preço são embutidos,
além do valor do próprio serviço, a ‘remuneração’ dos
lobistas, pela obtenção
do contrato e, em muitas situações, o superfaturamento,
também destinado a corromper funcionários
públicos”. Além da instrumentalização
de reputações
acadêmicas, o esquema também dedicou
uma atenção especial à mídia. A denúncia
feita pelo Ministério Público Federal
contra os envolvidos na fraude do Detran relata
que os integrantes da quadrilha dedicavam
uma atenção especial a sua própria imagem
pública e, para tanto, procuravam investir
em publicidade em jornais estaduais e regionais.
Na página 56 da peça de denúncia,
os procuradores do MP afirmam:
“Ao lado disso, os denunciados integrantes
da quadrilha não descuidavam da imagem dos
grupos familiares e empresariais, bem como da
vinculação com a imprensa. O grupo investia
não apenas na imagem de seus integrantes, mas
também na própria formação de uma opinião
pública favorável aos seus interesses, ou seja,
aos projetos que objetivavam desenvolver”.
“A busca de proximidade com jornais estaduais,
aportes financeiros destinados a controlar
jornais de interesse regional, freqüentes
contratações de agências de publicidade e mesmo
a formação de empresas destinadas à publicidade
são comportamentos periféricos adotados
pela quadrilha para enuviar a opinião pública,
dificultar o controle social e lhes conferir aparente
imagem de lisura e idoneidade”.
A
Pensant e o Pacto pelo Rio Grande
Cabe lembrar ainda que a Pensant – empresa
da família Fernandes acusada de
estar no centro do esquema juntamente
com a família de Lair Ferst –, prestou
consultoria ao chamado Pacto pelo Rio
Grande, promovido pela Assembléia
Legislativa em 2006 (durante a gestão do
deputado Luiz Fernando Záchia, do
PMDB). A redação do documento final
do Pacto ficou a cargo da empresa
Pensant, “sem custo para a Assembléia
Legislativa”, segundo Záchia. O principal
resultado concreto do Pacto foi o lançamento
de um livro, no dia 13 de novembro
de 2006. Intitulado “Pacto – Compromisso
de todos – Jogo da Verdade – Crise
estrutural e governabilidade do Rio
Grande”, o livro foi assinado por Cezar
Busatto e pelo jornalista José Barrionuevo.
Na noite do lançamento, Barrionuevo
deu o seguinte autógrafo para José Fernandes,
dono da Pensant, também
denunciado pela Justiça Federal: “Prezado
José Fernandes, meu bruxo: este livro e o
Pacto não existiriam sem o teu apoio e as
tuas luzes. Vamos juntos nesta caminhada.
Viva a Pensant!”. O atual chefe da Casa
Civil do governo gaúcho também fez uma
dedicatória especial ao dono da Pensant: “Caríssimo
José Fernandes,
o Pacto tem uma marca indelével da tua competência,
sabedoria, compromisso público! Obrigado
por tudo! Vamos continuar trabalhando
juntos pelas boas causas! Forte abraço,
Cezar Busatto”.
Até a Operação Rodin, os 40 denunciados
pela Justiça Federal integravam a
categoria dos chamados “homens (e mulheres)
de bem”, circulando com desenvoltura
pelas colunas sociais e políticas.
A partir do dia 27 de maio, foram formalmente
acusados de integrar a categoria
dos “quadrilheiros”. Os amigos de
outrora estão debandando.
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