
Escolhas

nfelizmente
para quem gosta de teses enxutas, as coisas nem
sempre têm uma simetria aproveitável. Não está provado
que a
terra usada para produzir etanol vai ser roubada da terra usada
para produzir comida. As duas podem coexistir racionalmente – desde
que haja racionalidade. Mas, mesmo improvável, a tese
de
que se deixaria de alimentar gente para alimentar carro não é absurda,
levando-se em conta o domínio que o carro exerce
em
nossas vidas. Toda uma maneira de viver, toda uma civilização
e
uma cultura foram construídas pelo e para o automóvel.
Que
condiciona (e muitas vezes encurta) a nossa existência tanto
quanto
determinou o nosso desenvolvimento urbano, a nossa vida econômica
e as nossas paisagens nos últimos cem anos. Não admiraria
se,
na crise terminal do combustível fóssil, escolher sacrificar
a comida
humana para ter o que dar ao tirano que manda em nós há tantos anos fosse a escolha lógica. Já que
a alternativa seria trocar
de vida.
A atual crise mundial de alimentos não é nem decorrência
da
produção crescente do etanol nem prelúdio do
que virá quando a
escolha entre gente e carro terá que ser feita, mas mostra
como
não se poderia contar com a racionalidade na hora da opção.
Conspicuamente
ausente na discussão sobre produção agrícola,
subsídios
etc. e a ameaça de faltar comida está a atuação
das poucas
grandes empresas que dominam o comércio de alimentos no mundo.
Desde a chamada Revolução Verde dos anos 50, a Terra
produz
o suficiente para alimentar, literalmente, todo o mundo. Se
não alimenta é porque as grandes multinacionais que
ditam e controlam
a distribuição no setor sempre fazem a escolha lógica.
No
caso a lógica capitalista que ignora a fome e opta pelo lucro.
E
escolhem outro monstro em vez da gente.
Para quem procura simetrias: as grandes multinacionais do alimento
que ninguém menciona só têm como rivais no mundo
crepuscular
dos monstros que dominam a vida no planeta os grandes
consórcios de petróleo. Era inevitável – pobres
de nós – que os dois
sistemas acabassem tratando, juntos, complementando-se, da nossa
sobrevivência. Não há como enfrentá-los,
muito menos apelando à
razão. A alternativa seria trocar de mundo.
