A nova
ordem universitária
Ao mesmo tempo em que o Brasil promove
a reforma universitária, que prevê a unificação
do sistema de ingresso nas universidades públicas, a Europa
se prepara para cumprir, a partir de 2010, os
pontos estabelecidos na chamada Declaração
de Bolonha. Pouco divulgada no
Brasil, a declaração tem sido, em países
como França, Espanha, Portugal e Grécia,
alvo de protestos, principalmente por
parte de estudantes, e está longe de ser
unanimidade entre a comunidade acadêmica
europeia. Há até sítios na internet
que têm por objetivo discutir formas de
barrar o processo de Bolonha.
Por Flavia Bemfica
s
movimentos contrários argumentam que
a implantação dos pontos previstos na declaração
resultarão em queda na qualidade
do ensino e em alterações nocivas no que se
refere ao acesso ao ensino público. Além disso,
teria por objetivo uma mercantilização do ensino
(porque passaria a priorizar as necessidades
do mercado de trabalho no lugar da qualificação)
e traria uma tentativa de padronização
inviável em países onde as diferenças culturais
falam tão alto, como é o caso da Europa. No
Brasil, a maior parte das instituições representativas
do Ensino Superior aprova o processo
de Bolonha. Entre os estudantes, há divergências.
A direção da União Nacional dos Estudantes
(UNE), por exemplo, é favorável a sua
implantação, enquanto que os grupos que fazem
oposição dentro da entidade acreditam que
ele tem por principal preocupação o atendimento às
demandas do mercado, em detrimento
da qualidade.
O processo de Bolonha prevê a implantação
de uma Zona Europeia de Educação Superior –
ou Espaço Europeu de Ensino Superior – e
teve início em 1998, em Paris, quando os ministros
da Educação da França, Itália, Alemanha
e Grã-Bretanha divulgaram uma Declaração
conjunta sobre a harmonização da arquitetura
do sistema de educação
superior europeu. Em junho
do ano seguinte, na
Universidade de Bolonha,
26 países da Europa
assinaram a declaração,
estabelecendo um
prazo até 2010 para que
suas metas fossem cumpridas.
Seu principal objetivo:
aumentar a competitividade
internacional do
sistema europeu de Educação
Superior.
Para tanto, a Zona
Europeia prevê a adesão dos signatários a um
sistema uniforme de formação em dois ciclos,
com três níveis: bacharelado ou licenciatura,
mestrado e doutorado (o sistema 3+2+3). Com
ele, a Europa pretende, além de atrair seus próprios
estudantes, chamar ainda mais estudantes
estrangeiros. No Espaço Europeu os currículos
serão unificados, os alunos terão mobilidade
e os créditos ficarão multivalidados. Parece
bom. Por que então existem resistências e
desconfianças em vários países? Para quem
acompanha o assunto, a atenção não deve se
voltar apenas para o processo de convergência
em si, mas sim para suas razões. Lá na década
de 90 os países europeus – alguns deles
com taxa de
desemprego na casa dos
10% – espremidos em um
mercado onde, de um lado
estavam os Estados Unidos
e do outro a emergência dos
asiáticos, se deram conta de
que a União Europeia poderia
vir, ou voltar a ser, a
economia mais competitiva
do mundo investindo em
conhecimento. Além disso,
já tinham informações sobre
o envelhecimento da
população. Os jovens não preenchem todas as
vagas do Ensino Superior e, conforme as estimativas
populacionais, na segunda década do
século 21 a faixa etária dos 20 aos 29 anos deve
apresentar queda de 20%.
Globalização
do Ensino Superior
A União Europeia investe pesado na implantação
do processo de
Bolonha. Desde o lançamento de sua declaração,
em 1999, o número
de países signatários subiu de 26 para 48. Conferências
ministeriais para
discutir o andamento do que é chamado “processo de
compatibilidade
e convergência” ocorrem de dois em dois anos. A última
aconteceu em
abril passado, em Lovaina, na Bélgica. O Brasil, e também
os Estados
Unidos, como países convidados, enviaram representantes. “Foram
16
países convidados. Neste momento, o Brasil evidentemente
não está incluído no processo, mas mantemos um diálogo”,
explica a secretária
de Educação Superior do Ministério da Educação
(MEC), Maria Paula
Dallari Bucci, que participou da conferência na Bélgica.
Apesar disso, segundo a secretária, não há consequências
diretas
para o Brasil – como o risco da chamada ‘fuga de cérebros’ – da
implantação
do processo na União Europeia, mesmo porque aqui já haveria
um processo semelhante de reestruturação através
das sucessivas mudanças
que vêm sendo propostas na Educação Superior. “O
Brasil está fazendo um movimento paralelo, mas é fato
que deve se preparar porque
a Europa está muito adiantada. Precisamos desenvolver mais
as condições
para a mobilidade interna e rever a questão referente aos
créditos”,
informa. Maria Paula não vê no processo europeu qualquer
tentativa de
aumentar o domínio da iniciativa privada sobre as instituições
públicas. “Temos um pouco essa visão devido ao fato de que no Brasil
a presença
da iniciativa privada é muito forte, até porque,
mesmo com a expansão
recente da Educação Superior pública, ela
não consegue atender a
demanda. Lá a participação da iniciativa privada é ínfima”.
Para o presidente da Comissão de Relações
Internacionais da Associação
Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais
de Ensino
Superior (Andifes) e reitor da Ufrgs, Carlos Alexandre Netto, a
Declaração
de Bolonha tem efeito direto sobre as universidades brasileiras
que possuem programas de cooperação com instituições
europeias,
principalmente os referentes à mobilidade de estudantes,
já está em
curso uma necessidade de adaptação e as trocas entre
experiências
(leia-se modelos europeu e brasileiro) são inevitáveis. “A
Educação
Superior está em modificação no mundo inteiro
e nossas instituições
não ficam alheias. Não é só expansão,
mas também a criação de novas
modalidades. Isso não significa que vamos adotar o que propõe
a Declaração
de Bolonha, mas os cursos universitários precisam se
reformular”, considera. “Na verdade esse processo beneficia
a União
Europeia porque atrai os alunos de qualquer país que terão
a possibilidade
e o interesse pela mobilidade”, resume a presidente do Fórum
de
Assessorias das Universidades Brasileiras para Assuntos Internacionais
(Faubai) e coordenadora de Cooperação Internacional
da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE), Suzana Queiroz de Melo
Monteiro.
Apesar de toda a discussão em curso, de o processo de Bolonha
estar bastante adiantado em cinco – Portugal, Dinamarca,
Suécia,
Irlanda e Escócia – dos 48 países e em diversas
das grandes universidades
europeias, dificilmente estará em condições
de passar a
vigorar plenamente a partir do próximo ano, como inicialmente
previsto. Na reunião ocorrida na Bélgica em abril,
o relatório do
Grupo de Acompanhamento ao Processo de Bolonha apontou que
nem todos os objetivos serão alcançados até 2010
e que existe um
grande número de países que ainda não deu
início a sua
implementação institucional. Entre as causas do atraso
estariam,
conforme o relatório, a adição de novas ações àquelas
inicialmente
previstas e o fato de os signatários terem começado
sua
implementação em datas diferentes, de acordo com
a época da
adesão. As falhas apontadas dizem respeito à aprendizagem
fora do
sistema formal de Educação, a pouca participação
de estudantes
nos relatórios e a falta de implementação
do sistema de créditos.
A recomendação feita aos governos dos países
constante no relatório é
de que disseminem a execução do processo como importante
para o emprego e o acesso ao nível de ensino seguinte. Outro
ponto abordado diz respeito à adoção de medidas
que garantam a
transparência das qualificações, com indicadores
confiáveis para
medir o progresso social da aplicação dos programas.
As recomendações
para as instituições não deixam dúvida
a respeito dos objetivos
da declaração. O relatório indica a criação
de áreas de Ensino
Superior que ajudem as diferentes regiões a se “adaptarem
a desafios” e a um ambiente em permanente mudança, seja ele social,
político
ou econômico.
Principais
pontos da Declaração de Bolonha
Unificação dos
ciclos para as carreiras superiores, com a adoção
do chamado sistema
3+2+3, dividido em duas fases principais, a pré-licenciatura
ou bacharelado e a póslicenciatura
ou bacharelado, que prevê graduações
com três anos de duração, mestrados
com dois anos e doutorados com outros três
anos. Pelo novo sistema, o tempo total de
formação, que atualmente pode chegar
a 12 anos, é reduzido a oito. O grau atribuído
após
concluída a primeira fase deve ser considerado
como de nível apropriado de habilitações
para o ingresso no mercado de trabalho europeu.
Criação de um sistema de créditos
que incentive a mobilidade estudantil, o chamado
European Credit Accumulation and Transfer System
(ECTS), que prevê a transferência e
acumulação de créditos entre
as instituições, na mesma linha de
programas já existentes
de mobilidade de estudantes, como o Erasmus. Os créditos
deverão ser atribuídos conforme
o número de horas de trabalho que os estudantes
terão que efetuar para cumprir
uma unidade curricular. Ficou definido que poderão
ser obtidos também em contextos de
Ensino não-Superior, desde que reconhecidos
pelas universidades participantes. No
cálculo do trabalho do estudante poderão
estar incluídos, por exemplo, as horas de
aulas
teóricas e práticas, seminários,
estágios, horas dedicadas aos estudos e à realização
de
avaliações.
Adoção de um sistema com graus acadêmicos
de fácil equivalência, com o objetivo
de
promover a empregabilidade dos cidadãos europeus
e a competitividade do Sistema
Europeu de Ensino Superior.
Incentivo à mobilidade por etapas, com atenção
aos estudantes no acesso a oportunidades
de estudo e de estágio e aos professores na
valorização de períodos utilizados
para
ações europeias de investigação,
letivas e de formação.
Cooperação europeia na garantia da
qualidade e com o objetivo de desenvolver
critérios e metodologias comparáveis
de avaliação.
Promoção do desenvolvimento curricular,
cooperação interinstitucional, projetos
de
circulação de pessoas e programas integrados
de estudo, estágio e investigação.
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