
Um
negócio escrito

onopólio é pior
que pólio, pois paralisa muito mais. Por isso a
Escrita, essa que todo mundo acessa por lápis, caneta, teclados,
demorou a se espalhar entre os povos. Era inacessível, uma
exclusão social, mais crucial que a da internet. Afinal,
sem internet
as pessoas passam, e até são felizes; sem a escrita
não dá para viver
nos dias de hoje – não haveria nada para ler
antes de dormir!
A monopolização da Escrita começou com
o mercado dos analfabetos. Como o primeiro
analfabeto se alfabetizou ninguém sabe, nem
o Millôr Fernandes, que vive perguntando isso.
Mas assim que apareceu o primeiro letrado,
iniciou a exploração da Escrita. Sabe aquelas
pessoas escrevendo cartas na Central do Brasil?
Elas se inspiraram no escriba ancestral:
ele botou uma mesinha de frente pro povoado
e a fila se fez. Todo mundo queria missivas,
epístolas.
Quando os ricos se deram conta do novo
negócio, compraram aquela habilidade toda
e multiplicaram o abuso (os
royalties viriam
mais tarde). Instalaram bancas de escrita por toda parte, de frente
para a humanidade. Aperfeiçoaram o sistema de fornecimento
e enriqueceram
com a necessidade criada, a multidão atraída por
aqueles
símbolos fantásticos, que significavam qualquer coisa,
do insignificante ao significativo.
A coisa funcionava assim: o iletrado chegava e pedia o que podia
pagar, desde letras avulsas até, se tivesse mais dinheiro,
palavras, e
davam fortunas por frases inteiras. As pessoas ensandeciam com
essa
moda da época, faziam de tudo para ter algo escrito sob
as lamparinas,
papiros sebentos, tudo isso que escraviza um
ser humano que não sabe escrever.
Os séculos passaram e a prosperidade com
a Escrita só trocava de mãos, enquanto a maioria
da população empobrecia, sobrevivendo
de migalhas gráficas, rabiscos desgastados, de
sobras manuscritas. Até que.
Um dia (não se sabe se havia algum
monólito negro por perto), alguém juntou por
sua conta algumas sílabas guardadas com outras
emprestadas e – faísca! – formou um conjunto
diferente dos que tinham. No alvoroço
da descoberta, centenas de letras e palavras
foram se somando ao acervo e ali, em pleno
reino da ignorância, surgiu a autonomia
para produzir a Escrita. Daí para a
gratuidade da Escrita foi um passo (até hoje se escreve
coisas
gratuitas, como esta aqui).
Depois disso, apareceu outro monopólio, que dura até hoje,
e
ocorre neste exato momento: a monopolização da atenção
do leitor.
