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Humildes
na esperança
Por
Alexandre Cruz Berg*
omos
humildes na esperança de um dia sermos poderosos”.
Esse
aforismo do inesquecível poeta Carlos Drummond de Andrade
representa
a síntese do que vivemos nesses últimos nove meses
de
trabalho na Ulbra. Atividades marcadas pelo desrespeito através
de tratamentos
truculentos, humilhação, assédio moral e,
finalmente, o atraso
no pagamento de salários. Essa trajetória intensificou-se
nesse
período, porém, sempre existiu na relação
da Ulbra com os seus trabalhadores.
Na história da instituição houve a metamorfose
do nosso espírito
docente em um camelo a serviço desse formato de gestão
medieval, que
contava com seu protagonista feudal na figura do “magnífico” e
até aquele momento único reitor. Fez com que esses espíritos
camelos suportassem
pesados fardos, parafraseando Nietzsche no seu livro Assim falou
Zaratrustra, como me fez lembrar meu amigo de trabalho André Peres.
E
assim nós passamos a fazer amizade com uma gestão
de surdos que nunca
ouviam o que pedíamos. Estendendo nossas mãos ao
fantasma que
procurava nos assustar.
Mas esse fardo nos levou ao deserto da falta de salários
e ali nos
transformou em leões, fazendo-nos lutar pela liberdade através
da verdade,
numa alusão ao lema institucional A verdade vos libertará.
E nessa
metamorfose inicial éramos algumas dezenas de leões
docentes e tínhamos
que enfrentar o dragão “Tu deves”, em ordens
como “Tu deves dar
aula de graça”, “Tu deves pesquisar sem receber
bolsa”, “Tu deves orientar
12 horas-aula e receber o equivalente a meia hora-aula”.
Ele
fulminava suas labaredas em ameaças a nós que havíamos
nos libertado
e elas se intensificaram no verão de 2009. E nós
respondíamos “Eu quero
ser respeitado como pessoa, como profissional, como pesquisador
e como
professor”, Eu Quero! Nosso reitor-dragão nos repetia
que, na Ulbra, “o
futuro já começou” e que, nesse futuro, não
existia o “Eu quero” dos
subordinados. Como leões passamos a criar novos valores
e conquistamos
o direito sagrado de dizer “não”, “chega”.
| Arte:
Rodrigo Vizzotto/D3 Comunicação |
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Nas vésperas da Páscoa, passamos a travar um rude
combate de nos
libertarmos da tirania exercida pela Reitoria, nos apoderamos da
esperança
e ganhamos aliados. Já não éramos mais dezenas,
mas centenas a
ganhar as ruas, numa coragem leonina, dentro e fora da academia.
Dia
e noite, lá estávamos num número crescente
de leões com narizes de
palhaços e apitos, a enfrentar o dragão que nos oprimia
com sua arrogância.
Até que não suportou nossos rugidos e pediu para
sair, depois de
36 anos de gestão intimidatória.
Assim, de altivos leões nos metamorfoseamos em crianças
num novo
começar, uma roda que gira por si própria, um espírito
que quer agora a
sua própria verdade, que conquistou seu lugar dentro da
Ulbra e conquistou
seu próprio mundo na protagonização dos dias
que virão, pois
agora, sim, “O futuro começou” e fomos nós,
professores, alunos, funcionários
administrativos e da saúde, que o fizemos começar. “E
aqueles
que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles
que não
podiam escutar a música”. (Nietzsche).
*Doutor em Informática e professor de Ciência
da Computação da Ulbra no campus Canoas.

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