
Países

Itália
talvez seja o país mais simpático do mundo. Simpatia,
claro, é um critério subjetivo e vago. Muita gente
diria que a
Itália pode ser pitoresca e amável, mas os italianos...
Para a
maioria, no entanto, os defeitos dos italianos fazem parte do seu
charme, e se juntam à paisagem e à riqueza arquitetônica
como
atrativos do lugar. Tudo é perdoado pela simpatia e até seus
buffones
e mascalzones se integram no espetáculo irresistível
de um país
decididamente delicioso, além de fotogênico.
Mas o Berlusconi desafia esse indulto tácito dado a tudo que é italiano.
Não é simpático, tem o charme de uma
batata e não é nem um bom ator, como o Mussolini.
E, no entanto, foi eleito para
governar a Itália mais de uma vez e atualmente tem um índice
de
aprovação pública altíssimo. Dizem que é sua
imagem de empresário
de sucesso que inspira os italianos, mas o exemplo que ele dá é do
pior tipo de empreendedor, com mais ganância do que escrúpulos.
Agora, Berlusconi lidera um movimento de repulsa a imigrantes
inédito no seu radicalismo até numa Europa cada vez
mais
xenófoba. Parte da sua boa aprovação se deveria
a esse
endurecimento com os imigrantes. A deliciosa Itália fica amarga.
Uma vez, vi um homem desenhar na mesa de um bar o que ele
chamava de O País Perfeito. O país não existia,
ou existia mas não
era bem um país. Seus limites arbitrários estavam no
desenho do
homem e incluíam toda a Provence no sul da França e
o Piemonte
e a Toscana no norte da Itália. Mônaco e um naco da
Suíça entravam
como brindes e para não fracionar o mapa. Cujo autor citava
as razões pelos quais aquele seria o melhor país do
mundo para se
morar, numa equação que incluía qualidade de
vida, qualidade
de comida e bebida, qualidade de clima e qualidade de gente.
Deve ser dito que isto foi em tempos pré-Berlusconi. Cada
um
pode inventar seu próprio país perfeito e até ignorar
restrições geográficas
e juntar, por exemplo, a Dinamarca, Vancouver no Canadá e o seu bairro. Que países você gostaria que começassem
na
porta da sua casa e fosse seu vizinho dos fundos?
As Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, formam o país
mais baixo
do mundo. Sua elevação mais alta tem só uns
quatro metros. Já calcularam que, com o degelo
nos polos e os mares subindo, as Maldivas estarão embaixo
d’água antes do fim
do século. E li que o
governo está fazendo o seguinte: procurando um lugar para
mudar
o país. Toda a população será levada
para uma área comprada, por
exemplo, na Austrália, onde as Ilhas Maldivas serão
refundadas, e
onde um dia terão que explicar às novas gerações
aquele “Ilhas” no nome. Dizem que já há milhares de corretores imobiliários
se
apresentando para agenciar o gigantesco negócio.
