Ano 8 - nº 71
Maio 2003



Luis Fernando Verissimo:
Depois do sucesso da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, quem quiser saber o futuro do planeta deve procurar uma série de...



Nei Lisboa:
A guerra no Iraque vai perdendo força no noticiário, embora a suspeita de que o pior esteja por vir com a resistência à ocupação americana e...



Elisa Lucinda:

A noite paira quieta e bela sobre a lagoa
o mar fica atrás da paisagem
como se fosse uma escolha
do mar azul, azul, azul.
Parece que o mar sabe





Voto feminino tem história

O direito das mulheres ao voto foi discutido pela primeira vez no Congresso Nacional, em 1890. Três deputados influenciados pelas primeiras sufragistas propuseram estender o direito a médicas, portadoras de títulos científicos e professoras que não dependessem economicamente do pai ou do marido. A maioria dos congressistas considerava a idéia de “conceder” o direito de voto às mulheres “anárquica, desastrada e fatal“. A emenda foi derrotada.

O movimento sufragista feminino ressurgiu em 1914, puxado pelo discurso de esquerda de uma das primeiras jornalistas do país, a carioca Eugênia Moreira. Aos 16 anos, ela freqüentava ambientes exclusivamente masculinos e escrevia artigos em que defendia que “a mulher será livre somente no dia em que escolher seus representantes”.

Em 1917, a professora Deolinda Daltro promoveu uma passeata de mulheres pelo direito ao voto. Estava aberto o caminho para quebrar a resistência à participação das mulheres na política. Um caminho que se revela árduo até hoje. Em 1918, a bióloga paulista Bertha Lutz lidera o movimento decisivo para a conquista do voto pelas mulheres. Ela retornou de uma viagem à Europa, onde havia conhecido a campanha sufragista inglesa e tivera contato com as feministas norte-americanas ao representar o Brasil na Conferência Pan-Americana de Mulheres, evento que repercutiu no mundo inteiro pelo seu caráter de defesa da igualdade política. O argumento de Bertha para convencer as brasileiras a lutar pelo voto nada tinha a ver com o comportamento rebelde da ala anarquista do feminismo. “O voto, dizia, representa a afirmação da cidadania das mulheres, que podem conquistar igualdade de salários e de oportunidades na Educação e nos outros setores da vida”.

Em 1927, a professora Celina Guimarães Viana obteve o primeiro título de eleitor feminino, na cidade de Mossoró, com base numa legislação estadual criada pelo então governador do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine. As pressões do movimento sufragista liderado por Bertha Lutz foram crescendo até 1932, quando todas as brasileiras maiores de idade passaram a ter direito de votar assegurado pelo Código Eleitoral promulgado pelo primeiro governo de Getúlio Vargas.

As mulheres eleitas

Até 1998, apenas 15 deputadas foram eleitas no Rio Grande do Sul. A primeira parlamentar, Suely de Oliveira, se elegeu em 1950, seguida por Íris Pothoff (1964), Zaira Folly (1966), Dalla Alves (1974), Dercy Furtado (1975), Ecléa Fernandes (1983), Hilda de Souza (1986), Regina Rossignolo e Jussara Cony (1990), Maria Augusta Feldman (1994), Cecília Hypolito, Luciana Genro, Maria do Rosário e as reeleitas Maria do Carmo e Jussara Cony, em 1998. Proporcionalmente ao número de eleitores, a mais votada da história do parlamento gaúcho foi Therezinha Irigaray (PMDB), em 1996, com 5.462 votos. Maria do Carmo (PPB) foi a recordista, com 208.833 votos em 1994. Em 1934, Carlota Pereira de Queirós foieleita a primeira deputada federal do país. Até 1967, nove mulheres foram eleitas para a Câmara Federal, número que passou a 126 a partir daquele ano. Ivete Vargas foi a deputada que mais acumulou mandatos, elegendo-se de 1946 até 1971. Marluce Pinto, eleita pelo PMDB de Roraima, foi a primeira das nove senadoras do país. Na eleição de 1994, Thereza Ruiz, do PTN, foi a primeira candidata à presidência da República.

Representação cresce, mas ainda é pequena

Nas eleições gerais de 2002, foram eleitas 42 deputadas federais em todo o país – o que representa 8,2% dos eleitos e um crescimento de 45% em relação às eleições de 1998, segundo a ONG Cfemea. Naquele ano, foram eleitas 29 deputadas (5,6% do total). Em 2002, cinco estados não elegeram nenhuma deputada federal: Alagoas, Ceará, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Sergipe. Já São Paulo e Rio de Janeiro elegeram seis deputadas federais em cada um dos estados e o Rio Grande do Sul ficou com quatro representantes na Câmara Federal.

Em 1994, concorreram à Câmara Federal e às Assembléias 571 mulheres e 7.386 homens em todo o país. Nas eleições de 1998, foram 1.361 mulheres e 9.158 homens, havendo um crescimento das candidaturas femininas em 138%. A proporção de mulheres em relação ao total de candidatos cresceu de 7,18% em 1994 para 12,94% em 2002. Apesar disso, nenhum partido atingiu a cota mínima de 30% das candidaturas reservadas por Lei às mulheres. “A participação das mulheres nos espaços formais da política está relacionada com o ambiente histórico e cultural mais amplo de discriminação e exclusão que atinge também as pessoas de baixa renda e os afrodescententes. Os mecanismos criados para aumentar a participação não podem, sozinhos, superar um quadro criado historicamente. É necessário desenvolver uma intensa militância social e cultural para superar as discriminações de gênero e desfazer a idéia de que haveria espaços femininos e masculinos por natureza e que a política seria um espaço masculino”, opina a deputada federal Maria do Rosário. A legislação e as políticas do país garantem direitos e oportunidades iguais para homens e mulheres, resultado dos anos de lutas dos movimentos de mulheres. “Porém, as mulheres representam apenas 8,8% do total de parlamentares no Congresso Nacional”, constatou a secretária especial de Políticas para as Mulheres, Emilia Fernandes, em seu pronunciamento na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, no dia 7 de março. “A eliminação de todas as formas de violência contra a mulher deve acompanhar a luta contra a discriminação e a busca de igualdade de gênero”, aponta.

 Fatos importantes (cronologia resumida)
1827 – A primeira Legislação no Brasil relativa à educação para as mulheres, que até então tinham direito apenas ao ensino elementar.
1848 – Mulheres impedidas de participar de um congresso antiescravagista promovem um congresso em Seneca Falls, Nova Iorque. O encontro se converteria no primeiro debate público sobre direitos das mulheres.
1857 – Durante manifestação pela redução da jornada de trabalho de 14 para 10 horas e direito à licença-maternidade, 129 operárias morrem queimadas no incêndio em uma tecelagem de Nova Iorque, no dia 8 de março.
1891 – A Constituição republicana não veta o voto feminino, mas torna inviável a participação política das mulheres por considerá-las economicamente incapazes.
1893 – Nova Zelândia, o primeiro país a reconhecer o direito das mulheres ao voto.
1899 – Myrthes de Campos, a primeira mulher admitida no Tribunal de Justiça Brasileiro.
1910 – A professora Deolinda Daltro funda o Partido Republicano Feminino.
1918 – Em artigo na Revista da Semana, do Rio, Bertha Lutz denuncia a discriminação de mulheres e funda a Liga para a Emancipação Feminina.
1920 – As mulheres conquistam o direito ao voto nos EUA.
1922 – Bertha Lutz lidera a instalação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, no Rio.
1928 – O governador do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine, altera a Legislação eleitoral do Estado e confere o direito de voto às mulheres. Mas os votos femininos são anulados pela Comissão de Poderes do Estado. Alzira Soriano de Souza, de Lages, é eleita a primeira prefeita da América Latina.
1932 – Getúlio Vargas promulga o
novo Código Eleitoral pelo decreto 21.076, garantindo o direito de voto às brasileiras.


 

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Mulher: exclusão e preconceito



José Luis Fiori

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