Ano 8 - nº 71
Maio 2003



Luis Fernando Verissimo:
Depois do sucesso da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, quem quiser saber o futuro do planeta deve procurar uma série de...



Nei Lisboa:
A guerra no Iraque vai perdendo força no noticiário, embora a suspeita de que o pior esteja por vir com a resistência à ocupação americana e...



Elisa Lucinda:

A noite paira quieta e bela sobre a lagoa
o mar fica atrás da paisagem
como se fosse uma escolha
do mar azul, azul, azul.
Parece que o mar sabe





Escrevendo como as lavadeiras trabalham

César Fraga

“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.” (Graciliano Ramos)
Divulgação

Graciliano Ramos:
palavras são feitas
para dizer e não
para enfeitar
como ouro falso

Completaram, em março passado, os 50 anos da morte de Graciliano Ramos. Porém, sua obra permanece entre nós. A bibliografia do autor está sendo reeditada pela Editora Record, com novo projeto gráfico e posfácios assinados por pessoas reconhecidas no meio literário. Também estão chegando às livrarias S. Bernardo, Infância, Insônia e Alexandre e outros heróis. No segundo semestre de 2003 serão lançados Viagem, Caetés, Angústia e Linhas tortas.

Sobre Vidas Secas, lançado originalmente em 1938, o próprio Graciliano disse: “Procurei auscultar a alma do ser rude e quase primitivo que mora na zona mais recuada do sertão... os meus personagens são quase selvagens... pesquisa que os escritores regionalistas não fazem e nem mesmo podem fazer ...porque comumente não são familiares com o ambiente que descrevem... Fiz o livrinho sem paisagens, sem diálogos. E sem amor. A minha gente, quase muda, vive numa casa velha de fazenda. As pessoas adultas, preocupadas com o estômago, não têm tempo de abraçar-se. Até a cachorra [Baleia] é uma criatura decente, porque na vizinhança não existem galãs caninos”.

Quando Graciliano opta pelo não-diálogo, trata seus personagens como excluídos da própria língua e constrói sua narrativa justamente em direção a essa possibilidade de verbalização da condição humana, nem sempre alcançada. Assim é Vidas Secas, personagens que vivem “metidos no sonho” de uma vida na cidade grande, cheia de pessoas fortes e os meninos em escolas aprendendo coisas importantes e necessárias.

O crítico de literatura Otto Maria Carpeaux reafirma em um de seus ensaios que a “mestria singular” do romancista Graciliano Ramos reside no seu estilo. E para evitar o “lugar-comum” Carpeaux define o que é estilo: escolha de palavras, escolha de construções, escolha de ritmos dos fatos, escolha dos próprios fatos para conseguir uma composição perfeita, perfeitamente pessoal: pessoal, no caso, “à maneira de Graciliano Ramos”. Estilo é escolha entre o que deve perecer e o que deve sobreviver. Graciliano sobrevive, com estilo, ainda hoje.

 Voluntariado – Uma ação com sentido
Nesta obra, o professor José Antônio Fracalossi Meister, apresenta um estudo sobre fundamentação antropológica do voluntariado para uma ação solidária, processo formativo, aspectos ético-legais da ação voluntária. O livro será lançado no dia 23 de maio de 2003, na livraria Acadêmica, PUCRS. A publicação é da EDIPUCRS (300 páginas, R$ 29,00) www.pucrs.br/edipucrs




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Livros:
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