ARTIGO
O professor de língua estrangeira no Brasil:
alguns fatos
e uma ficção
Paulo R.S. Ramos*

necessidade e mesmo a utilidade do ensino e aprendizado de línguas
estrangeiras parece, num primeiro momento, questionável
num mundo onde algumas línguas são muito faladas
e discutidas, enquanto outras, à margem, perdem seu status
de meio comunicativo. Quando se transporta a questão para
dentro das fronteiras do Brasil, onde o acesso mesmo à educação
se configura em algo limitado a uma minoria o quadro poderia ficar
mais adverso.
Se levarmos em conta que a chamada língua geral (ou mais
exatamente línguas gerais, pois eram mais de uma) que dominava
o Brasil Colônia não era português, mas sim
versão simplificada das línguas faladas pelos índios
tupis e que somente deixou de ser amplamente utilizada quando do
decreto do Marquês do Pombal instituindo o ensino do português
como obrigatório, tem-se que o que é hoje ensinado
como língua materna foi há menos de 200 anos encarado
como língua estrangeira.
Nosso país seguiu de perto as variações metodológicas
mundiais: do método de tradução e gramática
do século XIX passando pelo método direto e pelo
audiolingualismo até a chamada abordagem comunicativa. Todas
estas e muitas outras tiveram vez e algumas ainda permanecem da
prática docente de alguns profissionais do ensino de línguas.
Cada método ou abordagem, como ressalta Crystal (1987),
baseia-se numa maneira particular de ensinar uma língua
e em última instância na própria concepção
de linguagem que cada grupo ou sociedade tem.
Em 1982, o Comitê dos Ministros do Conselho da Europa redigiu
a Recomendação R (82) 18, a qual foi adotada e que
informa de maneira clara as questões envolvidas no ensino
e aprendizado de línguas modernas. As premissas gerais foram
três: 1) assegurar, até onde for possível,
que todas as seções da sua população
tenham acesso a meios efetivos de adquirir conhecimento de línguas
de outros estados membros (ou de outras comunidades dentro de seu
próprio país) bem como as habilidades de uso daquelas
línguas que irão ajudar o cidadão a satisfazer
suas necessidades comunicativas e outros usos para propósitos
específicos; 2) promover, encorajar e apoiar os esforços
de professores e alunos de todos os níveis em aplicar para
suas situações específicas os princípios
da construção ‘programa de línguas européias’ do
conselho europeu) e 3) promover pesquisa e programas de desenvolvimento
que levem a introdução, em todos os níveis
educacionais, de métodos e materiais mais bem adequados
a habilitar as turmas e tipos de estudantes a adquirir uma proficiência
comunicativa adequada às suas necessidades específicas.
As premissas do Conselho da Europa também se fizeram sentir
neste país em virtude das relações históricas,
econômicas e culturais como muitos dos estados membros.
O Brasil sempre teve lugar de destaque para o educador especializado
no ensino de língua estrangeira. Desde o ensino de português
para usuários das línguas gerais até ensino
de línguas estrangeiras modernas, tem-se a figura de um
profissional que utiliza os meios mais diversos para auxiliar os
aprendizes a adquirir o conhecimento que necessitam para as suas
necessidades. Esses profissionais parecem enfrentar uma alarmante
situação, qual seja, querem fazê-los crer que
não são professores, mas sim ‘pessoas que auxiliam
no aprendizado de uma peça cultural – a língua
estrangeira’. Após inúmeras décadas
de trabalho e busca de legitimidade, algumas instituições
e organizações, apoiadas por um artificialismo mercadológico,
ensejam a negação da prática docente de um
sem número de profissionais do ensino. A equação é bastante
simples. Não há outro nome senão professor
para aqueles que exercem atividade de ensino de idiomas. Os indivíduos
que são empregados nesta atividade são legitimados,
em proporções variadas, pelos bancos das universidades
e/ou pela práxis da docência. Quem necessita de ‘instrução’ são
aqueles que se recusam a reconhecer tal realidade. Instrução
cognitiva.
*
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