A construção da Usina Hidrelétrica
de Pai Querê, prevista para o Rio Pelotas, na divisa do Rio
Grande do Sul com Santa
Catarina, entre os municípios de Bom Jesus (RS) e Lages
(SC), é um projeto prioritário do Programa de Aceleração
de
Crescimento (PAC), no âmbito de geração de
energia para o país. Pai Querê tem investimentos projetados
de R$ 968,92
milhões e deve gerar 2 mil empregos diretos, além
de outros 6 mil indiretos. O empreendimento será controlado
pelo
Consórcio Empresarial Pai Querê, constituído
pela Votorantim (80,10%), DME Energética (4,50%) e Alcoa
(15,34%). Ha
três anos organizações não-governamentais
e movimentos sociais lutam contra a construção da
barragem. Nesse período,
foram feitos levantamentos de dados, expedições à região
e análises sobre a importância ambiental e social
do local,
além elaboração de documentos, acionamento
judicial, seminários e mobilizações.
Por Grazieli Gotardo
e
implantada, Pai Querê será a quinta hidrelétrica
construída no
rio Pelotas, região situada em uma zona-núcleo da
reserva da
biosfera da Mata Atlântica, nativas mundial, segundo a Unesco,
onde pelo menos duas dezenas de espécies endêmicas
de peixes e outros
animais em extinção, além da flora, estão
ameaçados. A obra causará a destruição
de 4 mil hectares de florestas e morte de mais de 3
milhões de árvores, sendo pelo menos 180 mil araucárias,
uma das
espécies ameaçadas de extinção. A região
ainda possui valor histórico
e cultural, pois é onde se encontra o Passo de Santa Vitória,
primeira
alfândega entre os estados do RS e SC, no Caminho das Tropas,
da é
poca colonial, além de abrigar mais de 40 sítios
arqueológicos. Tudo
isso desaparecerá quando a UHE Pai Querê sair do papel.
CUSTO – Outro argumento contra o empreendimento é que
ele
geraria pouca energia frente ao seu altíssimo custo ambiental,
pois seus
292 MW equivalem à geração do Parque Eólico
de Osório, no RS, quando
duplicado, bem como a menos da metade da média das demais
hidrelétricas
já construídas na bacia do rio Uruguai. Por outro
lado, segundo
informações da assessoria de imprensa da Casa Civil, órgão
que coordena
e monitora o PAC, “o critério que orienta o planejamento
dos empreendimentos é a expectativa da sociedade brasileira
por crescimento
econômico com desenvolvimento sustentável do país”.
O PAC
somará R$ 1,1 trilhão de investimentos até 2010
e a intenção do governo é
usar as obras contidas no programa para garantir um crescimento
de 4% do produto interno bruto (PIB) em 2009.
Mata
Atlântica ameaçada
A Mata Atlântica é um
complexo
conjunto de ecossistemas que
abriga parcela significativa da diversidade
biológica do Brasil.
Segundo o IBGE (2005), 61%
dos municípios brasileiros estão
na Mata Atlântica; mais de 120
milhões de brasileiros, ou 67%
da população brasileira, vivem
nestes municípios (IBGE, 2007).
A última edição do Atlas dos
Remanescentes
Florestais da Mata
Atlântica, feito pela Fundação
SOS Mata Atlântica e Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais –
Inpe, referente ao período de
2000-2005, mostra que o Bioma
está reduzido a 7,26% de sua á
rea original – 1,3 milhão de km² em 17 estados brasileiros.
Foto:
Cristiano Hickel/Inga/divulgação
Licenciamento ambiental
A questão do licenciamento ambiental se estende
desde 2003, quando o primeiro Estudo de
Impacto Ambiental (EIA-Rima) foi elaborado
pela Engevix, empresa contratada na época pelo
Consórcio empresarial. O estudo foi contestado.
Segundo pesquisadores da Ufrgs, ele era “incompleto
e tecnicamente inconsistente”. Foram emitidos
pareceres técnicos contrários à implantação
da obra pela Fepam/RS, pela Fatma/SC e pelo
Comitê Estadual da Reservada Biosfera da Mata
Atlântica do RS.
Atualmente, Ibama aguarda o novo EIA-Rima
para dar prosseguimento ao processo de licenciamento
da obra. A Votorantim, majoritária no
Consórcio, informou que empresa Bourscheid
Engenharia foi contratada para realizar a “atualização”.
Questionada sobre os impactos ambientais,
a empresa respondeu que “mantém a sua
atuação pautada nos princípios da sustentabilidade
e que possui políticas consistentes e eficazes
de monitoramento e preservação do meio
ambiente...”
O biólogo Marcio Rappening, da PUCRS,
lembra que ao contrário de Barra Grande, última
Usina construída no Rio Pelotas, este é um
local sobre o qual já se tem conhecimento referente à
biodiversidade lá existente. “Fazer novo
EIA é chover no molhado”, afirma.
O Ibama tenta se isentar de responsabilidade
ao informar que a escolha da empresa para elaboração
do EIA-Rima fica a cargo do Consórcio
interessado na obra. “A consultora contratada
para elaborar os novos estudos para atualização
do EIA não é de conhecimento do Ibama, nem cabe
ao órgão indicar ou desabonar uma empresa”,
disse
Moara Menta Giasson, coordenadora de licenciamento
de Hidrelétricas do Ibama.
A Bourscheid está subcontratando empresas
para fazer partes do EIA, em função do prazo e
da complexidade do trabalho. Uma delas é a Bioconserv,
contratada para avaliar a fauna terrestre
da região. O doutor em Ecologia pela Ufrgs e
biólogo da Bioconserv, Iury de Almeida Accordi,
confirma a contratação e o curto prazo. “Um
EIARima
precisa de no mínimo um ano de estudos,
para que se possa avaliar todas as variações climáticas
da região. Há apenas duas semanas o Ibama
aprovou nosso plano de trabalho e vamos fazer a
primeira expedição para a região em maio“,
contou.
Ninguém soube informar ao certo quando
ficará pronto o novo estudo.
Criação de refúgio se perde na burocracia
Na ocasião do processo de licenciamento da
Usina de Barra Grande, aprovado em 2005, o
Ministério do Meio Ambiente (MMA) encaminhou
processo para Casa Civil para
decretar uma unidade de conservação denominada
Refúgio de Vida Silvestre do Rio Pelotas
e Campos de Cima da Serra, como garantia
de compensação ambiental pelo lago da UHE
Barra Grande, responsável pela destruição
de
8 mil hectares de Mata Atlântica. Em 2008, diversas
audiências de consulta popular aconteceram
em SC e no RS e o processo tinha aprovação
prevista para outubro de 2008. O processo
está parado no MMA, aguardando a atualização
do EIA-Rima de Pai Querê. “Baseados
no EIA-Rima apresentado pelo Ibama no ano
passado, não foi possível darmos um parecer fiel
sobre a viabilidade do refúgio, por isso aguardamos
a complementação”, explicou João de
Deus, diretor do Departamento de Áreas protegidas
do MMA. Entidades como a Associação
de Preservação do Meio Ambiente e da Vida
(Apremavi), de Santa Catarina, apontam incompatibilidade
entre a Hidrelétrica de Pai
Querê e a criação do refúgio. “É falsa
a ideia
de que se pode fazer um corredor de biodiversidade
ao redor do futuro lago de uma barragem,
porque estarão submersas as florestas que possuem
a identidade genética das espécies da região,
seja de espécies vegetais, seja de espécies
animais. Não é possível se fazer um corredor
de
fluxo gênico sem as margens preservadas”, argumenta
Miriam Prochnow, coordenadora de
Políticas Públicas da Apremavi.
Espécies
ameaçadas
1) Leão-baio ou
Puma – maior
felino das Américas
e está em vias de extinção (Foto:
Acervo/Inga);
2) Pica pau de banda
branca – espécie considerada
vulnerável de extinção
pelo (CBRO)(Foto:
Marcio Repenning/Divulgação);
3) Papagaio do peito
roxo – espécie muito associada às
matas com pinheiro
araucária, que ainda
sobrevive nas florestas
do vale do rio Pelotas e afluentes (Foto:
Marcio Repenning/Divulgação).
Relatório do Gepac aponta ações
contra as obras
O Extra Classe teve acesso ao 8º Relatório do
Grupo Executivo de Acompanhamento do Programa
de Aceleração do Crescimento (Gepac),
sobre o alto índice de ações judiciais contra
empreendimentos
do PAC. Nos últimos dois anos,
foram 1026 ações em todo o país, sendo que
65%
são provenientes da região Sul e, destas, 31,2%
são do Rio Grande do Sul. Santa Catarina vem
em segundo lugar com 31% das ações.
O maior número de ações — 780 casos — questiona
o valor das indenizações por terras tomadas
pelo governo federal. As desapropriações
são frequentes principalmente para a construção
de rodovias e hidrelétricas. O eixo temático
de geração de energia elétrica é responsável
por
21,1% das ações, em primeiro lugar ficam as rodovias
com 51% das ações. Em relação ao número
de ações por objeto da ação, 75% são
por
desapropriação por utilidade pública ou imóvel
particular. Em segundo lugar, aparecem as ações
por danos ao meio ambiente, com 6,5%.
EXPEDIÇÃO Tudo
é uma questão de manter...
Por Clarinha Glock
Deslizando em uma canoa pelo afluente Lavatudo do
Rio Pelotas, cercados
pelo verde da Mata Atlântica, os biólogos
Daniel Slomp e Virginia Talbot,
o educador Mateus Raymundo da Silva e o estudante
de Engenharia
Ambiental Cristiano Hickel registraram com uma filmadora
emprestada uma
imagem de beleza perturbadora. Está ali o
canto dos pássaros, a serenidade
do rio e a perfeita integração da natureza.
Em uma sequência sob a luz
indireta dos holofotes do sol, e ao ritmo do barco,
se ouve Silva cantarolando
baixinho, para não destoar do entorno, a música
de Walter Franco: “Tudo é uma
questão de manter...a mente quieta, a
espinha ereta, e o coração tranquilo”.
As imagens fazem parte do projeto de vídeo
que a ONG Ingá Estudos Ambientais,
do qual os três participam, está fazendo
sobre a Barragem de Pai Querê.
A letra da música tem a ver com o objetivo
da viagem e com o esforço de
evitar a destruição da riqueza encontrada
na mata. Durante quatro dias,
em novembro de 2007, os três percorreram cenários
de corredeiras e trilhas
de um verde quase intocado, recolheram espécies
e falaram com moradores
que, em sua maioria, pouca ou nenhuma informação
tinham sobre a hidrelétrica.
Inquietos, intranquilos e inconformados, os integrantes
do Ingá tentam
conscientizar e alertar a população
através de abaixo-assinados, informações
no site (http://www.inga.org.br) e outras ações
como o vídeo.
Esta foi a quinta visita ao local, e haverá outras
para complementar
o trabalho. O documentário, que deverá ser
lançado ainda este
ano, pretende mostrar à população
os prejuízos que a hidrelétrica vai
trazer ao equilíbrio ambiental da região. “Achamos
bromélias, orquídeas
e indivíduos de xaxim Dicksonia sellowiana
imensos, muito antigos,
ameaçados de extinção”,
explica Virginia. Exemplares das plantas
foram levados para o herbário do Instituto
de Biociências da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).
Foto:
Cristiano Hickel/Inga/divulgação
Integrante da ONG explora
o Rio Pelotas de canoa
A ameaça já é visível
Mesmo antes da implantação da barragem,
a ameaça já é visível. A floresta de
araucária
dos arredores está sendo substituída pela de
pinus. Nem pomares os agricultores acreditam
que vão poder plantar mais. “Abaixo, em Barra
Grande, foi construída uma barragem, e, mais
para cima, a hidrelétrica do Passo da Cadeia também
está prevista – se Pai Querê sair, o Rio Pelotas
praticamente vai desaparecer, restando uma
sequência de lagos, o que certamente impedirá a migração de peixes e mudará todo o ecossistema”,
prevê Virginia.
Foto:
Cristiano Hickel/Inga/divulgação
Floresta
já definha mesmo sem as obras
Com a barragem,
a água
vai subir até 150 metros,
deixando submersos
exemplares
que impressionaram
os ambientalistas do Ingá. “Isto aqui é um
ancião
das matas”, mostrou Silva, abraçado a um
enorme xaxim. “Eu me sinto num dos lugares
mais inóspitos e maravilhosos do mundo”,
arrematou, para depois afirmar: “Se um biólogo
(do governo) visse uma planta destas, jamais
diria que pode ser alagado”. O documentário
captou as dúvidas de pessoas que
vivem e trabalham próximo ao local da futura
hidrelétrica. “Quando encher o rio,
a gente vai ter que sair, o problema é a
indenização”, diz um morador. Incrédulo,
ele há anos aguarda a prometida instalação
da luz elétrica que ainda não chegou a sua
casa. “Admito que precisa energia, alguém tem
que sofrer, mas hoje tem tanto meio... acho que
não precisaria estragar a mata”, reclama outro.
Futuro
prejudicado
Ali próximo, Sérgio
da Silva Cardoso, mecânico
de Vacaria, município localizado a 80
km do ponto onde será instalada Pai Querê,
confirma a impressão passada pelo
vídeo. “Ninguém está sabendo
de
nada”, diz. Aos 66 anos, dos quais
30 anos vivendo na região, e influenciado
por um filho biólogo que
trabalha na Amazônia, ele tem a
consciência de que, se não preservar
o que resta da mata nativa, no
futuro seus netos serão prejudicados.
Cardoso participou de duas das
quatro audiências públicas sobre o
refúgio da calha do Pelotas proposto para
compensar
a destruição da Mata Atlântica
a partir
da construção da Hidrelétrica
de Barra Grande.
Durante os encontros, ouviu os donos de
empresas de pinus reclamarem da diminuição
das áreas de suas plantações e
prefeitos revoltados
com possíveis perdas econômicas. Ninguém
mais falou do refúgio, nada foi
feito até agora.
Por isso, está preocupado. “Ao atravessar
a ponte para Santa Catarina, o que se avista do Rio
Pelotas é apenas uma água suja e cheia
de galhos. E em Pinhal da Serra, próximo à hidrelétrica
de Barra Grande, dizem que é um horror o que
tem de mosquito e cerração”, comenta.
Em Vacaria, pássaros típicos da araucária
estão buscando as árvores da cidade porque
a floresta está sendo derrubada. Pumas, que
não entravam na área urbana, começam
a se aproximar das casas.
Foto:
Acervo/Inga
Vegetação
ameaçada
A hidrelétrica vai destruir ainda mais,
prevê Cardoso. Vai acabar com a travessia
dos tropeiros pelo Passo do Rio, uma tradição
de séculos. “Não vejo as
pessoas que trabalham com turismo e troperismo
falarem sobre isso”, reclama. “Os únicos
que estão de acordo são uns poucos
fazendeiros que têm terras no penhasco
e acham que vão receber uma grande indenização”,
arrisca.
Mesmo sem EIA-Rima, o processo já começou.
Em agosto de 2006, quando esteve visitando o
local da Barragem de Pai Querê junto com
um funcionário do Ibama, Cardoso fotografou
a movimentação de máquinas
em andamento, tirando pedras. Quando viram que
estavam sendo fotografados, os funcionários
desligaram o motor e seguiram de canoa para outro
lado do rio, no território de Santa Catarina.
Para o envio de cartas,
sugestões e comentários
para a redação ou exclusão da lista: extraclasse@sinprors.org.br
- Extra Classe é uma publicação mensal do
Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul
- SINPRO/RS
- Av. João Pessoa, 919 - CEP 90040-000 - Bairro Farroupilha
- Porto Alegre - RS - BRASIL - Fone (51) 4009.2900 - Fax (51)
4009.2917
- http://www.sinprors.org.br