MEC
busca adesões
ao
novo vestibular
É bastante insipiente a discussão sobre a proposta
de substituição do vestibular pelo novo Exame Nacional
de Ensino
Médio (Enem) encaminhada na segunda semana de abril pelo
Ministério da Educação à Associação
dos Dirigentes das
Universidades Federais de Ensino Superior (Andifes). Segundo a
Assessoria de Imprensa da Secretaria de Ensino Superior do
MEC, até o dia 20 de abril não havia nenhum levantamento
das universidades que aderiram à proposta, num total de
55.
Por Jacira Cabral da Silveira

o
Rio Grande do Sul, das cinco instituições
federais de Ensino Superior existentes,
a Universidade Federal de Pelotas
(UFPel) foi a única que manifestou sua adesão
ao novo processo seletivo (no dia 15 de abril).
De acordo com o reitor Antônio César Gonçalves
Borges, o Conselho Coordenador de Ensino,
Pesquisa e Extensão da UFPel aprovou
na íntegra a proposta do MEC. Embora não
haja um prazo para que as universidades definam
suas escolhas, reitores, docentes, estudantes
e comunidade em geral têm se ocupado
com o tema.
Em entrevista coletiva, no dia 14 de abril, o
reitor da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (Ufrgs), Carlos Alexandre Netto, disse
que não há como a Universidade utilizar o novo
Enem como a única forma de seleção, e sim
como parte do processo seletivo. Qualquer
mudança, entretanto, segundo o reitor, não
ocorrerá no vestibular de 2010, até porque essa é
uma proposta que deve ser submetida aos
conselhos superiores da Ufrgs(de Ensino, Pesquisa
e Extensão e o Universitário), “que são
as instâncias que legislam sobre os grandes temas
da Universidade”, argumenta.
Entretanto, as respostas da Ifes (Instituições
Federais de Ensino Superior), certamente vão
ganhar novos elementos para tomarem suas
decisões nos próximos meses, prova disso é que,
em menos de duas semanas depois de anunciar
o novo formato, o MEC já alterou a primeira
proposta encaminhada à Andifes. Das duas
modalidades iniciais de adesão, e a partir das
quais UFPel e Ufrgs se manifestaram, no último
dia 17 de abril a Andifes e o MEC em reunião
definiram quatro formas de adesão das
instituições ao novo Enem.
Conforme o portal do Ministério de Educação,
as quatro possibilidades são as seguintes:
o Enem como fase única; como fase primeira;
como fase única para as vagas ociosas, após o
vestibular; ou combinado ao atual vestibular
da instituição. Neste último caso, a Universidade
definirá o percentual da nota da prova
do vestibular. Na avaliação do ministro da Educação,
Fernando Haddad, qualquer forma de
adesão impactará positivamente na
reformulação do Ensino Médio, despertando
assim a capacidade de raciocínio crítico e analítico
dos jovens.
De dentro da escola
Na avaliação do diretor do Colégio Estadual
Infante Dom
Henrique, João Figueiró, uma das maiores escolas
de Ensino Médio
da capital gaúcha, são 2,2 mil alunos, dos quais
360 estão no terceiro
ano, nos turnos da manhã, tarde e noite, a proposta será válida
se
realmente ampliar as chances e possibilidades de ingresso do estudante
do Ensino Médio na Universidade. O diretor e professor de
História também espera que o novo exame ajude a promover
alterações
no programa de Ensino Médio: “O sistema de Educação
brasileiro
precisa de mudanças”, observa.
Quanto à questão da unificação das
provas, ele adverte que este é
sempre um aspecto que representa riscos em função
das diferenças
regionais. Neste sentido, Figueiró também avalia
que pode haver
distorções uma vez que estudantes de localidades
menores estarão
competindo com alunos egressos de escolas de Ensino Médio
de
centros maiores, e que, em tese, são melhor preparados.
Por outro
lado, o diretor considera que as provas do Enem favorecem mais
o
raciocínio do estudante e estão mais relacionadas
ao cotidiano dos
jovens.
Ludimila Fagundes, presidente do Grêmio Estudantil do Infante
do Henrique, conversou pela primeira vez com os colegas sobre o
novo vestibular, na sexta-feira, véspera do feriado de Tiradentes.
Na opinião dos estudantes, independente da questão
da qualidade
das provas do Enem, o que eles ressaltam é que o atual Ensino
Médio brasileiro não prepara para exames deste tipo: “Somos
preparados
para o vestibular do tipo da Ufrgs”, justifica. Segundo a
estudante, o Grêmio terá que promover encontros para
buscar informações
sobre o concurso: “Vamos ter que chamar alguém para
explicar essa proposta de novo vestibular”, comenta.
Ampliar o acesso?
Um dos objetivos da proposta do governo é
ampliar o acesso ao Ensino Superior, expectativa
compartilhada com diferentes segmentos
tanto dentro como fora da escola.
Mas a proposta como um todo – que compreende
um exame unificado e a mobilidade,
uma vez que o estudante pode se inscrever
em até cinco cursos de universidades diferentes –
, provoca dúvida quanto a sua eficácia.
Doutor em Educação, Antônio Lisboa Leitão
de Souza é professor do curso de pós-graduação
em Educação da Universidade Federal
do Rio Grande do Norte (UFRN), primeiro
vice-presidente e um dos coordenadores
do GT de Políticas de Educação do Sindicato
Nacional dos Docentes das Instituições
de Ensino Superior (Andes-SN). Segundo o
professor, a proposta do MEC não cumprirá com
seu objetivo de ampliar o acesso ao Ensino Superior através
dos itens formulados. Na opinião do educador, isso só vai
ocorrer com a criação de novas vagas e uma universalização
do ensino no Brasil, nos diferentes níveis. Direto
de Brasília, em meio a uma das reuniões
do Andes, ele falou à reportagem do Extra
Classe sobre o novo vestibular:
Extra Classe – Professor, qual a sua avaliação
da proposta de vestibular unificado?
Antônio de Souza – Qualquer tentativa de
melhoria do acesso à Universidade deve ser vista
com bons olhos. No entanto, a proposta que foi
apresentada não assegura necessariamente a
melhoria ou a ampliação desse acesso. Temos
no Brasil uma diversidade regional e
institucional muito grande no processo de formação
da Educação Básica, e também no que
diz respeito às universidades. E neste novo Enem
como está sendo proposto serão os mesmos que
continuarão com as melhores chances de obter
os melhores resultados. Ele não vai, absolutamente,
facilitar o acesso ao aluno de escola pública
que já tem dificuldade. Nós não temos um
sistema nacional de Educação unificado que seja
articulado entre os diferentes níveis de ensino.
EC – Mas a possibilidade dada ao aluno de
escolher diferentes cursos e diferentes instituições
não amplia suas possibilidades?
AS – Se o aluno do Rio Grande do Sul tem
a opção de escolher cinco universidades e cinco
cursos diferentes, ele pode também escolher,
além da Universidade que está mais próxima
de sua residência, outra em Santa
Catarina, outra na região dos pampas, outra no
estado do Paraná. Ele está concorrendo com os
alunos desses outros estados no mesmo pé de
igualdade, o que resulta em uma certa diluição
na concorrência local para o âmbito nacional,
o que faz elevar a concorrência quantitativa
para as vagas das universidades. Ou seja,
vai haver um aumento do número de concorrentes.
Do ponto de vista qualitativo, é muito
provável que um vestibular unificado privilegie
os alunos que já vêm de escolas melhor destacadas
na realidade educacional que temos hoje.
EC – E o que pode mudar a situação
do acesso ao Ensino Superior?
AS – O que vai possibilitar uma ampliação
do acesso à universidade pública no Brasil é a
ampliação das vagas, e isso requer uma ampliação
do nível de investimento na Educação Superior.
Somente quando tivermos um sistema
nacional que seja articulado entre Educação
Básica e Superior, e dentro da Educação Básica
haja articulação entre Ensino Fundamental
e Médio. Um sistema onde os conteúdos sejam
pensados na perspectiva de preparar o aluno
para uma etapa subsequente, onde o ensino
médio seja visto como uma continuidade para
o Ensino Superior, e o processo de cooperação
entre as diferentes esferas administrativas seja claramente
definido. Assim é que vamos poder ter
condições de acesso e permanência mais asseguradas
para os diferentes níveis de Educação.
EC – O Programa de Apoio a Planos de
Reestruturação e Expansão das Universidades
Federais (Reuni) não veio para cumprir também
esta tarefa?
AS – É verdade que o governo tem forçado
um pouco a ampliação das vagas através do
Reuni, mas elas não garantem, absolutamente,
embora possibilitem um pouco mais o número
de vagas ofertadas em cada universidade,
a democratização ou a ampliação do
acesso.
A demanda é muito maior. O problema é que
temos uma escola pública que forma mal
que não garante o acesso de todos. Temos uma
sociedade cuja população pobre, onde temos
todas as raças, não tem acesso ao Ensino Médio,
e muitos daqueles que têm acesso não conseguem
concluí-lo. E quando o concluem, não
o fazem em condições de disputar uma vaga
nas universidades.
EC – E quanto às políticas afirmativas?
AS – As políticas de cotas ou políticas afirmativas
para uma realidade que é desigual
como a nossa, são medidas paliativas. Talvez a
curto prazo tenhamos alguma pequena mudança
no perfil do aluno que está tendo acesso à universidade,
mas a longo prazo não trará mudanças
se o centro do problema não for atacado:
que é a ampliação do financiamento, a
universalização da Educação Básica
e a ampliação
tanto de vagas quanto de financiamento
para a universidade pública.
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AS PROVAS: Serão quatro
provas: Linguagens,
Códigos e suas Tecnologias (incluindo redação);
Ciências Humanas e suas Tecnologias;
Ciências da Natureza e suas Tecnologias,e Matemática
e suas Tecnologias.
INSCRIÇÃO DO CANDIDATO: O
candidato optará por
concorrer utilizando-se de política
afirmativa eventualmente existente ou pela ampla
concorrência, podendo escolher até cinco
opções
de cursos e instituições de sua preferência,
independentemente do local de sua residência.
Não é necessário haver vinculação
entre
as opções, de modo que o candidato
poderá escolher
cursos diferentes em instituições distintas.
ADESÃO: As instituições poderão
mudar a forma
de adesão ao novo Enem de um ano para o
outro ou usar o modelo de maneira variada por
curso. Por exemplo, a mesma universidade
poderá usar o Enem como fase única
para a
oferta de vagas de ingresso à maioria dos
cursos
e como primeira fase para cursos que exijam
provas de aptidão.
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